Os componentes já estão em cima das mesas quando as crianças começam a chegar – leds, diodos, potenciómetros, sensores de luz, resistências e pequenos motores elétricos. Com idades entre os 7 e os 14, para muitos foi a primeira visita ao complexo pedagógico do campus da Penha da Universidade do Algarve, em Faro, onde quem sabe, poderão vir a estudar num futuro não muito distante.
Os mais curiosos não perdem tempo a tentar encaixar as peças na breadboard, uma placa de plástico com furos e conexões condutoras para a montagem de circuitos experimentais. Há também um folheto com instruções em banda desenhada que explica alguns conceitos básicos. «Já repararam que o led tem uma perna mais comprida que outra? Sabem porquê?», diz um dos monitores, que introduz assim o conceito de polaridade.
«Somos uma start-up que pretende inspirar as crianças a serem inventores. É esse o nosso objetivo. Como é que se faz? Inspira-se com uma metodologia chamada Project-Based Learning, isto é, aprendizagem à base de projetos. Permite que aprendam de forma mais rápida e logo com problemas reais», explica António Moreira, 29 anos, um dos fundadores da «The Inventors».
«Os alunos envolvem-se muito e o facto de levarem um projeto para casa, implica que a motivação aumente. Vão querer mostrar e explicar aos pais aquilo que fizeram», garante este licenciado em Gestão e Engenharia Industrial e mestre em Economia e Gestão de Inovação.
Treinar hoje os inventores do amanhã
A «The Inventors» situa-se «entre dois mega trends sócio-económicos. A década de 1990 foi a do software, porque as barreiras de entrada eram baixas – era apenas preciso uma ideia, uma pessoa que soubesse programar e um computador – e criava-se uma empresa de software que culminou com o boom das dot coms. Isto nunca aconteceu no mercado de produto, porque um molde era muito caro, o know-how sobre eletrónica estava concentrado nas grandes empresas e não era de fácil acesso», explica António Moreira.
«Hoje em dia, isso já não acontece. Podemos fazer um protótipo numa impressora 3D, que, em vez de 10 mil euros, custa muito pouco. Temos cada vez mais kits de eletrónica, o conhecimento está disseminado e disponível a todos na internet. Portanto, estima-se que nos próximos 20 anos haverá um boom no desenvolvimento de produtos, da mesma forma que houve nos anos 1990 um boom de desenvolvimento de software», compara.
«A educação não está a a acompanhar isto. O sistema educativo tradicional é mais lento que as revoluções tecnológicas. E é aí que nos situamos. O que nós queremos é inspirar as crianças e mostrar que qualquer pessoa pode ser um inventor. A partir do momento em que têm estas bases teóricas, podem ir à internet buscar software open source, podem ir comprar os componentes e ir à procura de mais conhecimento. Hoje em dia, está tudo na internet».
Em termos pedagógicos, «a aprendizagem segue uma curva «S». Quer dizer que no início demoramos muito tempo a aprender muito pouco, mas depois temos uma aprendizagem exponencial. A seguir, voltamos a demorar muito tempo para ser experts. Ultrapassar a primeira etapa é o mais difícil e é aí que concentramos o nosso trabalho».
A aceitação em Faro correspondeu às expetativas da empresa, que apenas divulgou a iniciativa nas redes sociais. Desta vez, o projeto foi a construção de um «sabre de luz» para introduzir a eletrónica às crianças algarvias, embora também hajam workshops de «robótica, programação, física e design de produto». As próximas ações no Algarve, no Natal, terão um novo desafio: criar uma guitarra elétrica, com o respetivo amplificador.
De experiências parvas à sala de aula
Enquanto empresa, a «The Inventors» é muito recente. Começou a sua ação em Lisboa, em fevereiro. Tem um núcleo duro de seis colaboradores e uma equipa de 10 monitores. António Moreira, conta como tudo aconteceu. «Somos quase todos tecnólogos. Trabalhávamos numa empresa de tecnologia que desenvolveu uma plataforma de prototipagem. Este projeto estava direcionado para o mercado business to business (de empresas para empresas). Entretanto, para provar o conceito, começamos a desenvolver experiências parvas. Colocámos a nossa eletrónica dentro de um balão de hélio e tínhamos um dirigível que era comandado por telemóvel como três motores. Subia, descia e andava para a frente. Tínhamos uma plataforma de eletrónica versátil e, com isso, poderíamos fazer tudo o que quiséssemos».
Pela suas especificidades, «a plataforma estava direcionada para engenheiros e product developers. Entretanto, com as parvoíces que fizemos, começámos a chamar a atenção do mercado da educação. Especialmente na costa oeste dos EUA e no norte da Europa. Percebemos que existia uma hipótese de entrarmos neste mercado. Esquecemos a plataforma tecnológica, que era muito geek e muito direcionada para um nicho de mercado, e começámos a fazer experiências para a educação», acrescenta.
Como «partimos quase todos de empresas de tecnologia e tínhamos em comum a crença de que é possível a educação ser muito mais interessante e envolvente do que atualmente é. Ainda antes da criação da empresa começámos com uma experiência piloto no agrupamento de escolas Filipa de Lencastre em Lisboa com alunos dos 9 aos 12 e cedo começámos a experimentar formas de dar uma aula interativa, que introduzisse os miúdos a diferentes formas de criar».
«Percebemos logo que mais importante do que ensinar competências específicas era trabalhar a motivação e auto-confiança dos miúdos. Conseguirem eles próprios construir uma guitarra eléctrica ou criar um circuito electrónico para acender LEDs RGB numa árvore de Natal é um ganho de confiança incrível. De finais de julho a setembro passamos de 12 para 60 alunos por semana, só em Lisboa. E foi este crescimento exponencial que nos fez perceber que temos aqui qualquer coisa que as pessoas gostam. Agora, estamos a expandir para outras zonas de Portugal».
Hoje «estamos em 40 escolas em Lisboa, temos quase 500 alunos em atividades extra-curriculares. Os alunos passam uma hora e meia por semana a aprender connosco Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática». Para já, a empresa tem uma equipa itinerante, «mas a ideia no futuro é recrutar e formar colaboradores em vários locais «para continuarem a fazer o nosso trabalho». Em 2017, a «The Inventors» vai iniciar um processo de internacionalização.
Marca «Science4you» abriu o caminho
Na opinião de António Moreira, 29 anos, um dos fundadores da «The Inventors», a «Science4you», marca portuguesa líder de mercado na área dos brinquedos educativos e científicos veio abrir novos caminhos. «Passa para os pais, uma ideia que considero acertada: é importante as crianças entrarem no mundo da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática», áreas de conhecimento conhecidas pela sigla STEM (Science, technology, engineering and mathematics). «Abriu o caminho e as pessoas começaram a perceber que estas áreas são importantes. Do ponto de vista do mercado de trabalho, as tendências apontam para que nos próximos 20 anos haja um excesso de procura nas áreas STEM. Já existem políticas europeias para promover o interesse público em puxar as crianças para estas disciplinas».


