Desde 1851 já passaram muitos faroleiros pelo Farol do Cabo de Santa Maria. No entanto, Mara Oliveira, 27 anos, é a primeira mulher a fazer vida de faroleiro residente exclusivamente num farol de Portugal continental.
«Fui militar da Marinha durante seis anos. Após o término do contrato e incentivada por um camarada, decidi agarrar a oportunidade e integrar o curso para faroleiros», conta. Durante dez meses, esta natural de Palmela e mais 10 colegas receberam formação e superaram com sucesso o curso. Mara estagiou depois na Direção de Faróis, em Paço de Arcos, a partir da qual se controlam todos os faróis da região de Lisboa. Aprendeu a dominar com perícia áreas muitas vezes consideradas «pouco femininas» como a eletricidade, eletrónica, mecânica ou meteorologia.
Desempenha funções no Farol do cabo de Santa Maria desde 18 de agosto, onde integrou uma equipa de mais quatro faroleiros. Mara recorda que «quando perceberam que iam ter uma camarada mulher reagiram muito bem! Até acho que são mais tolerantes e pacientes. No entanto, sinto uma responsabilidade acrescida por ser a primeira mulher», confidencia.
As funções da nova faroleira consistem em briefings diários, executar os planos do dia, e cumprir as rotinas e procedimentos habituais como colocar geradores a funcionar, trocar painéis solares, lâmpadas e baterias, verificar farolins, boias e outros assinalamentos. Em suma, verificar o bom funcionamento de todo o equipamento elétrico e eletrónico além do óbvio: pôr e tirar as cortinas e ligar e desligar o farol.
O serviço começa às 8 horas e decorre durante 24 horas ininterruptas, e engane-se quem pensar que não há muito que fazer num farol: «foi o que mais me surpreendeu! Os dias não são tão pacatos como imaginei pois há sempre muito trabalho!».
Apesar do apoio da família – e de ter trazido um gato de companhia consigo para a ilha – «conciliar a vida pessoal com a profissional não é fácil». Com o marido também em missões na Marinha e o isolamento e tempo dedicado ao farol, não existem muitas oportunidades para estarem juntos. No entanto, algo atenua e compensa todo o esforço e dedicação: «a vista no topo do farol sobre a Ria formosa é lindíssima. Adoro subir e ficar a admirar a beleza desta paisagem».
«Os faróis nunca deixarão de existir»

No entanto, há algo mais que torna este farol especial: «temos a mais abrangente área de balizagem entregue a um farol a nível nacional! A área de responsabilidade vai desde Vilamoura até à Fuzeta. E para além do farol, somos responsáveis por 72 outras boias/assinalamentos», sublinha.
Silva ressalva ainda o «grande esforço que a Marinha tem feito para manter o património histórico, cultural e tecnológico dos faróis em Portugal. Além do mais, o farol não dá só luz… tem muitas mais valências e utilidades. Por exemplo, para radares, controlo de tráfico e apoio a várias ações da autoridade marítima. Por isso, acho que os faróis nunca vão acabar, apesar de estarem na vanguarda da tecnologia», elogia Vieira da Silva. E conclui, em tom nostálgico afirmando que «durante toda a vida desempenhei uma profissão boa que ainda me dá prazer. Que me levou a conhecer sítios e pessoas novas. Um faroleiro tem uma visão diferente do mundo», garante.
Rui Nunes Ferreira, capitão do porto de Olhão, partilha a mesma opinião até porque «a tecnologia também falha e por isso a presença dos faroleiros é essencial para garantir a segurança e a manutenção das infraestruturas envolventes. O homem é sempre preciso! E quando se trata da segurança quem está no mar, nada pode falhar».
Quem desejar visitar o farol pode fazê-lo todas as quartas-feiras, entre as 13h30 e as 16h30, de forma gratuita. No Algarve, para além do farol do cabo de S. Maria existem mais cinco grandes faróis. No total, em Portugal Continental existem atualmente 30 faróis guarnecidos por 66 faroleiros que continuam a cumprir a missão de manter acesa a luz que guia o navegante e o encaminha em segurança até ao porto de abrigo.
