Escultor Carlos de Oliveira Correia está a construir uma réplica do hidroavião que Gago Coutinho e Sacadura Cabral usaram na sua histórica travessia do Atlântico Sul, em 1922.
Com mais de 20 toneladas de ferro trabalhado e uma envergadura de asa superior a 14 metros, o biplano Fairey IIID surge como uma visão invulgar, no atelier hangar de Carlos de Oliveira Correia, em Campeiros, lugarejo já bem mergulhado na Serra do Caldeirão. Em boa verdade, terá como destino um concelho também serrano, São Brás de Alportel.
Desde novembro do ano passado que o autor está a construir a réplica do hidroavião que Gago Coutinho e Sacadura Cabral usaram na sua histórica travessia do Atlântico Sul, em 1922. «É tudo à escala real. A única diferença é que este é mais alto do que o original em cerca de 32 centímetros», compara.
À data da reportagem do barlavento, 75 por cento do projeto estava concluído. Faltavam os flutuadores, entretanto em fase de acabamento, e a cobertura de parte da fuselagem. Terá ainda que levar os esticadores, isto é, as estruturas de suporte que unem as asas.
O autor não poupou esforços para manter o máximo rigor histórico. «Documentei-me bem e fiz muita pesquisa. Fui ao polo do Museu do Ar, em Alverca, onde tirei várias fotografias. Comecei por construir uma maqueta em madeira, em miniatura, que se aproxima da realidade nos pormenores». Um ensaio simples para a complexidade da tarefa.
«É arrojado, agarrar em dezenas de fotografias, imensa informação, alguma contraditória, sobre como era o motor, onde eram os depósitos de combustível. Acho que é importante replicar isto tudo com alguma veracidade, e que o ser humano esteja representado na sua proporção», acrescenta.
Por várias ocasiões, Carlos Correia teve de arranjar soluções, no mínimo, engenhosas e criativas, visto que não tem qualquer experiência em construção aeronáutica. «Houve várias questões. Por exemplo, como é que se havia de fazer o motor? Foi recriado com pedaços de tubos. O eixo da hélice são dois discos de travão de tratores. As pás são em chapa. Andei dias sem solução para o radiador. Acabei por desenhar linhas na horizontal numa caixa de metal que foram cortadas com uma máquina de laser. Visto ao longe, qualquer mecânico pensa que é um mesmo um radiador verdadeiro», explica.
Para quem não o conhece, Carlos Correia apresenta-se de forma simples. «A minha formação académica base é a agricultura. Tirei o curso de regente agrícola em Coimbra, depois agronomia, e mais tarde estudei arquitetura. Já com esta idade, 61 anos, dediquei-me a fazer o que gosto. É isso», brinca.
«Começamos por nos apaixonar pela obra. Seja uma cópia, seja uma réplica, haja pormenores artísticos, temos de estar apaixonados. E tudo começa a fluir. Depois há um passo muito importante que é quando as coisas começam a correr bem. É quando a obra se apaixona por nós».
Cada asa tem uma estrutura maciça. Dois sistemas de engate encaixam ao milímetro, o que mostra bem a perícia metalomecânica do escultor. «O desenho e todos os cálculos são feitos por mim. Aqui faz-se de tudo, pinta-se, corta-se ferro. O avião está estilizado, ou seja, as asas vão ficar apenas com a estrutura laminar a descoberto, para diminuir a resistência ao vento».
No final, será apenas aplicado um verniz para o proteger da ferrugem. «Terá um aspeto cru, a reportar aos anos 1920». Ainda assim, o município de São Brás terá que fazer manutenção regular para que o avião possa perdurar no tempo.
Embora não queira dar pormenores, Carlos Correia diz que esta peça tornou-se um projeto pessoal. Como Gago Coutinho tem origens familiares em São Brás de Alportel, pensou que seria interessante expor o hidroavião neste concelho algarvio.
«Gosto de envolver as pessoas nos projetos. O executivo de São Brás veio cá visitar, fiz algumas propostas e perguntei se concordariam», diz. Sugeriu que o hidroavião seja colocado numa base especial – um sextante em ferro e alvenaria – a uma altura total de oito metros. Terá também um jogo de luz para lhe dar espetacularidade e impacto visual à noite.
«Temos aquele em Belém, em aço inox, está perfeito. Houve uma grande envolvência de bancos patrocinadores, ministérios, arquitetos, empresas de construção aeronáutica. Mas comparando um e outro, penso que este é uma peça diferente, mais engraçado». Obra conhecida, artista discreto Um pouco pelo Algarve há obras de arte pública saídas da oficina de Carlos Correia.
«Há artistas que são mais conhecidos que as obras. Eu devo ser ao contrário. Houve uma exposição onde fiquei sentado ao pé de algumas peças minhas e fui ouvindo os comentários das pessoas, uma espécie de barómetro. Ouvi coisas fantásticas», brinca.
Um dos trabalhos que não passa despercebido é o cavaleiro templário à entrada de Castro Marim (via A22). «A ideia era que os Dias Medievais fossem representados por uma peça e foi escolhido o cavaleiro. Tinha de ficar excelente, senão iam rolar cabeças. A minha talvez não, porque pouco vale. Mas estava-se à espera disso. Felizmente correu muito bem. Mas há quem lhe chame o boneco de ferro que está a ferir a paisagem urbana. É polítiquice baixa», diz.
Carlos Correia acredita que «termos abstratos não funcionam na arte pública» e é uma opção em desuso. «Há uma mística entre o abstrato e o real, mas o povo necessita de obras com uma leitura simples, acessível».
Na mesma linha, está a fazer outro trabalho para Silves, a colocar na rotunda frente ao tribunal. «Vou fazer três burros a transportar a cortiça» com adereços relativos à transformação, «o que seria a fábrica». No total, serão três elementos, às escala de 1/1,5, com as figuras humanas a medirem cerca de três metros.
Durante os intervalos entre encomendas, Carlos Correia gosta de descontrair fazendo «coisas pequenas, como bidões, pás e carros de mão rendilhados», desenhados a giz líquido e esculpidos a plasma. Entre as obras que mais gostou de fazer, refere o «contrabandista invisível» que tem andado em itinerância pelo Algarve.
«Deve ser das mais emblemáticas. É assim porque, aos olhos da guarda fiscal, aquele homem tornava-se, e tinha mesmo que se tornar», inconspícuo. Também o polvo de 6,52 metros de altura, que está numa rotunda em Quarteira, obra de grandes dimensões, o orgulha. «Tem oito braços e nenhum é igual. Durante a inauguração apareceram alguns pescadores» que se reviram na forma e nos pormenores do animal. «Disseram que a boca está no sítio certo, as ventosas estão corretas». Um facto curioso é que nenhuma peça está assinada. «Talvez assine o avião. Vou pensar na sua sugestão»…
Terá Gago Coutinho origens algarvias?
Colocámos esta questão a Nuno Campos Inácio, genealogista de Portimão. «Apesar de vários biógrafos avançarem com a teoria de que o Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho nasceu em São Brás de Alportel, o que nos diz o seu registo de batismo, realizado em Santa Maria de Belém, Lisboa, é que nasceu na Calçada da Ajuda, nº 5, às 3h30 do dia 17 de fevereiro de 1869. Se a naturalidade algarvia de Gago Coutinho poderá não passar de um mito, já a sua ligação genealógica ao Algarve não oferece qualquer dúvida», esclarece.
«Gago Coutinho era filho de José Viegas Gago Coutinho e da sua prima-irmã Fortunata Maria Coutinho, ambos naturais da freguesia da Sé, Faro. O pai, marítimo, nasceu em 1834, sendo já morador em Lisboa, na Rua dos Embaixadores nº 67, quando a 6 de julho de 1867 casou na Sé de Faro com a mãe de Gago Coutinho», acresce.
«A avó paterna de Gago Coutinho, Maria do Carmo Cruz, era irmã do avô materno, Pedro da Cruz Cabeleira, ambos naturais da cidade de Faro. Já o avô paterno era natural de São Brás de Alportel. É com o avô paterno, Manuel Viegas Gago Coutinho, nascido em São Brás de Alportel e Cabo da Esquadra do Regimento de Artilharia de Faro em 1829, que surge esse apelido composto. Pelas investigações já realizadas não se conseguiu descobrir como surgiu o apelido Coutinho, uma vez que o pai era Matias Viegas Teixeira e a mãe chamava-se Bárbara Pires. Já o apelido Gago herdou–o da avó paterna, Bárbara Gago, de São Brás», esclarece Nuno Campos Inácio.
Da genealogia até agora conhecida, com alguns ramos a recuar a 1550, «são conhecidos ascendentes das freguesias de São Brás de Alportel, Faro, Tavira, Olhão, Quelfes, Santa Catarina da Fonte do Bispo, Moncarapacho e Moura, remontando esta ligação de fora do Algarve ao século XVI».
Vítor Guerreiro satisfeito
Foi com «surpresa» que o presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel Vítor Guerreiro soube que o seu concelho viria a ser a casa de uma peça de arte pública que promete atrair muitos curiosos da aviação e da História de Portugal.
«É um privilégio e uma honra enorme termos sido escolhidos por um artista de tão alto gabarito, como é o Carlos Correia, e ainda por cima com ua obra deste nível e qualidade. Tentaremos de todas as formas dignificá-la e dá-la a conhecer a quem nos visita», garantiu Vítor Guerreiro ao «barlavento».
Questionado sobre qual o local onde o histórico hidroavião vai «aterrar», o edil apenas avançou que «ficará numa zona de lazer, num lugar de prestígio, onde as pessoas possam desfrutar» do hidroavião. No entanto, o «barlavento» sabe que o espaço perto das piscinas municipais, será, em princípio, o destino. Também em relação a datas, o autarca não se comprometeu, adiantando apenas que o Fairey IIID deverá vir a público ainda antes do final do ano.
Os serviços técnicos da autarquia estão a elaborar o projeto da base para o avião, que terá a forma de sextante. «Ficará a uma altura de cerca de três metros e está a ser elaborada conforme as indicações do artista» Carlos Correia.
Ainda sobre o precursor da navegação aérea, o edil reconhece que são poucas as referências no concelho. «Existem alguns estudos que queremos aprofundar mais, no sentido de fazer essa homenagem. Há uma casa no sítio da Mesquita, com referências que terá lá nascido e vivido o avô de Gago Coutinho, mas não está bem provado. São situações que carecem de dados mais precisos».
Para a atualidade, o novo monumento «é uma forma também de mostrarmos que o nosso concelho abraça novos voos e quer sempre ultrapassar horizontes, apesar de todas as dificuldades. Um pouco à semelhança do que o Gago Coutinho sentiu para fazer a travessia do Atlântico Sul», concluiu.
Associação «Lusitânia 100» aplaude o projeto
O avião que Carlos Correia está a construir na sua casa em Campeiros, Castro Marim, surpreendeu a associação «Lusitânia 100» que tem por objetivo divulgar a viagem histórica de 1922. «É um esforço individual tremendo», reconheceu o presidente da direção, Moura Ferreira.
Este coletivo tem, contudo, uma ideia ainda mais ambiciosa – construir, de raiz, uma réplica voável do Fairey IIID, com recurso a engenharia e mão de obra portuguesa, utilizando materiais modernos e compósitos.
«Gostaríamos de fazer uma réplica do Lusitânia. Foi um avião único, não existiu mais nenhum igual, foi feito por medida para um projeto» e, como tal, hoje, faz sentido recuperar o espírito original empreendido por Gago Coutinho e Sacadura Cabral.
«As pessoas não se apercebem do que foi esta viagem. Foi ideia de dois portugueses, logo a seguir à Primeira Grande Guerra, depois de uma revolução e num contexto muito difícil. Conseguiram defender e mobilizar o projeto, e trazer aviões para Portugal que, na altura, quase não existiam. Os poucos que havia faziam serviço local, não se aventuravam a seguir para as ilhas», explicou.
«Imagine o que é navegar durante 11 horas em cima do mar, sem a mais pequena referência visual, a não ser olhar para o sol. Ao final desse tempo, aterram em algo que é mais pequeno que um campo de futebol. Estavam sozinhos, sem rádios, sem qualquer apoio à superfície. O avião estava no limite tecnológico da época e ainda não tinha sido testado na totalidade. Não se conheciam dados fundamentais como velocidades e consumos. Eles descobriram da pior maneira», considerou.
«Bastava um pequeno erro de um grau e ter-se-iam perdido. Antes desta viagem já havia navegação astronómica na aviação, mas era para dirigíveis. O grande mérito deles foi conseguirem arranjar um sistema de navegação que lhes permitia chegar ao ponto onde queriam, fosse onde fosse. Antes, na história do mundo, isso nunca existiu».
Viagem celebrada, mas pouco
«Foi a primeira vez que se conseguiu navegar com precisão para qualquer destino e isso é relativamente ignorado na história da aviação. O nosso objetivo é colocar este feito no mapa histórico da aeronáutica mundial. Construir e operacionalizar o avião é só uma das etapas. Temos pensado todo um programa cultural para divulgar juntos dos jovens de língua portuguesa», explicou ao «barlavento», Moura Ferreira, presidente da associação «Lusitânia 100» que tem por objetivo divulgar a viagem histórica de 1922.
«Foi feito um monumento por volta de 1970 que esteve exposto muito próximo da Torre de Belém. Considerado muito avançado para os padrões estéticos da altura, foi recolhido e, mais tarde, exposto de novo ao público na Avenida da Igreja, em Lisboa, em frente à Igreja de São João de Brito, onde ainda está. Mais tarde, foi feito um segundo monumento à travessia que é o avião metálico que está em Belém», sendo estas as principais referências, em termos de arte pública, à viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. A propósito dos 50 anos da travessia «foi feita uma outra réplica do Fairey IIID que está em Alverca, no polo do Museu do Ar», e que, aliás, serviu de fonte de informação à peça do escultor Carlos Oliveira. A associação «Lusitânia 100» gostaria de criar «um centro de interpretação», cujo local ainda está em aberto. «Temos muita pesquisa, quer técnica, quer histórica. Queremos recolher todo este conhecimento e disponibilizá-lo ao público».
Único Fairey III sobrevivente está em Portugal
Segundo o blogue «EX-OGMA», o Fairey III chegou a Portugal em janeiro de 1922, devido ao interesse da Marinha em experimentar o lançamento de torpedos a partir do ar. Entre o primeiro conjunto de três hidroplanos entregues, havia um especial, que o comandante Sacadura Cabral tinha solicitado para concluir a travessia planeada do Atlântico Sul. O F-400 Transatlantic, denominado Lusitânia, tinha uma maior envergadura de asa que os outros, um maior alcance em distância e podia transportar dois tripulantes lado a lado. Foi o aparelho no qual Gago Coutinho e Sacadura Cabral começaram a travessia em 30 de março de 1922 e que se despenharia perto das rochas de São Pedro, ao largo da costa do Brasil. Foi substituído por um outro, que, após uma falha de motor, também se perdeu no mar. A viagem foi concluída a bordo de um terceiro aparelho, chamado «Santa Cruz», que hoje está no Museu da Marinha, em Lisboa. «Esse terceiro foi muito viajado, esteve muito tempo em Macau. É a versão original e tanto quanto sabemos é o único intacto, deste tipo, que existe em todo o mundo», disse ao «barlavento», Moura Ferreira, presidente da associação «Lusitânia 100» que tem por objetivo divulgar a viagem histórica dos portugueses.
Visibilidade na imprensa estrangeira
A edição de setembro da revista britânica «Aeroplane» dedica duas páginas à primeira travessia do Atlântico Sul, fruto da colaboração de um membro da direção da associação «Lusitânia 100», Ricardo Reis, com o jornalista James Kightly, correspondente regular dessa publicação especializada.
Associação Aeronáutica do Algarve disponível para ajudar
A Associação Aeronáutica do Algarve «gostaria de saudar e felicitar o autor desta criação pela sua ousadia e arte», disse ao «barlavento» o presidente dos entusiastas da aviação algarvios, Pedro Fernandes. «Carlos Correia criou um belíssimo projeto artístico realista, que será incontornável e marcante para a vila de São Brás e toda a região algarvia. Pela sua beleza e grandiosidade, esta peça exibe uma força e dignidade que corresponde sem margem de dúvida, aquilo que se pode chamar de uma justa e merecida homenagem», sublinhou.
«Carlos Viegas Gago Coutinho distingui-se como cartógrafo e navegador no inicio do século 20, tendo inventado diversas ferramentas de navegação aérea cujos princípios de funcionamento ainda hoje são aplicados. Em 1922 e em parceria com Sacadura Cabral, realizou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul numa aeronave modelo Fairey IIID, sendo merecidamente reconhecido como o último grande aventureiro Português. Gago Coutinho sempre ambicionou ser Engenheiro, algo que acabou por não se concretizar, e 57 anos depois da sua morte, quis a ironia do destino que fosse um engenheiro também de nome Carlos de Oliveira Correia, a prestar-lhe uma justa homenagem na sua terra natal», concluiu Pedro Fernandes.





