«É este sentimento de me sentir útil, de fazer a diferença que me motiva a continuar», explica Mónica Rocheta, 32 anos, natural de Quarteira. Desde os 19 anos que pratica voluntariado em várias associações locais na região do Algarve. «É a minha vocação».
Formada em Educação Social e Auxiliar de Clínica Veterinária, tem vindo a colocar em prática os valores de solidariedade e de entrega a causas relacionadas com o abandono e abuso de animais dentro e fora de Portugal.
Durante uma viagem de lazer à Tailândia, teve contacto com o trabalho da «Elephant Nature Park», pelo qual se apaixonou de imediato. Desde 2015 que é uma das voluntárias desta ONG.
No santuário dedica-se sobretudo ao resgate e bem-estar de cães mas também de elefantes. Desde as grandes cheias de 2011 em Bangkok, que o santuário decidiu integrar também estes animais no âmbito do seu projeto. Hoje tem a cargo 480 cães e 72 elefantes.
«Na Tailândia o principal problema é a exploração dos elefantes para o turismo. Os turistas pagam para montar estes animais. Alguns sofrem mazelas, como ancas partidas e problemas nas patas porque passaram 50 anos a carregar pessoas. Os turistas não imaginam o que estes animais sofrem, nem ao que são sujeitos para aceitarem este trabalho. Os tailandeses chamam-lhe break the spirit (quebrar o espírito). Durante três ou quatro semanas, os elefantes ficam atados pelas quatro patas e são espancados e espetados com estacas. Chega a um ponto em que deixam de reagir. Desistem e perdem a sua «alma». Submetem-se e é nessa altura que são usados para fazer todo o tipo de trabalhos pesados. Por isso, cabe-me também a mim consciencializar as pessoas para não alimentar uma indústria assente em práticas cruéis», sublinha.
No entanto, isto não significa que o turismo seja incompatível com fauna local. No «Elephant Nature Park», os turistas «podem passear pelo parque e vê-los bem de perto, no seu estado selvagem, a brincar no rio ou a correr em liberdade felizes no seu habitat, sempre na companhia de um guia que explica a história de cada um dos animais», diz.
Uma das histórias que mais a marcou foi a da elefante Jokia. «Estava grávida e era usada para transportar troncos, dez horas por dia. Ao subir uma montanha entra em trabalho de parto mas o dono não a deixa parar. Ainda que dá à luz, o dono empurra a cria montanha abaixo. Ela revoltou-se e o homem esfaqueou-a nos olhos. O santuário recolheu-a e quando a integrou numa nova família foi bem aceite. Uma das elefantes da manada encarrega-se de a conduzir, sempre. Ambas dormiam atrás do meu quarto. Uma semana antes de me vir embora, infelizmente a elefante que tomava conta dela morreu, com 82 anos».
Além deste santuário na Tailândia, Mónica Rocheta colaborou ainda com um outro em Kathmandu, no Nepal, uma experiência «difícil» devido à realidade que encontrou.
Neste momento, acumula dois empregos a tempo inteiro para poder continuar a sua saga de voluntariado pela Ásia. Em novembro deste ano deverá voltar de novo à Tailândia. «Depois, hei de ir para onde o mundo quiser que eu vá, sem data de retorno», diz.
E reforça «não é preciso ir para o estrangeiro para ajudar. Há milhares de projetos que podemos apoiar. Mas quem puder integrar um como este, certamente viverá a experiência de uma vida».
Voluntários pagam estadia, mas a experiência é inesquecível
As despesas inerentes ao voluntariado ficam a cargo dos interessados. O programa inclui o alojamento e a alimentação no próprio santuário. A «Elephante Nature Park» estabeleceu-se em vários países e os voluntários podem ficar o tempo que desejarem. Um dia pode custar 60 euros, uma semana cerca de 300 euros e um mês 450 euros. «E ao mesmo tempo que ajudam podem ficar a conhecer a região», diz Mónica Rocheta.
«É isto que me atrai. Aproveitar a natureza, estar na selva, três refeições por dia, chinelo no pé, um quarto pequeno e uma vida simples».
As tarefas de Mónica Rocheta incluem sobretudo a higiene dos animais e infraestruturas, o check-up médico diário, distribuição de medicação, alimentação, passeio e sessões de fisioterapia.
Para se ter uma ideia da dimensão, o parque possui 400 funcionários locais a tempo inteiro, que residem no santuário. Cerca de 150 dedicam-se aos cães e 250 aos elefantes. «À medida que chegam mais animais, vão sendo construídas mais infraestruturas. Cada elefante tem um tratador/cuidador. Chamam-se mahout. Alguns fazem este trabalho há muitos anos. São relações muito próximas e bonitas de admirar», considera. Para mais informações visite o website www.elephantnaturepark.org
