«Somos a única unidade antiterrorista no Algarve. Como medida preventiva, o nosso alerta está acionado. Apoiamos em permanência a revisão e o controlo da segurança aeroportuária em Faro. Estamos preparados para responder a qualquer situação», garante o Chefe António Luís, responsável e comandante da força destacada do Grupo Operacional Cinotécnico (GOC) da Unidade Especial de Polícia (UEP) no Comando Distrital da PSP de Faro.
Os binómios desta unidade desempenham uma média de 20 missões por mês. Cada homem pode trabalhar com mais do que um cão, mas cada animal tem um único tratador. A especialidade mais requisitada é «a deteção de drogas e estupefacientes». Os cães utilizados pelo GOC do Algarve são sobretudo os de raça pastor alemão, pastor belga malinois, labrador, cão de fila de São Miguel, rottweiler, mas também outros sem raça definida. «Olhamos para os cães como colegas de trabalho. É uma grande responsabilidade», explica.
Os dias de trabalho dividem-se no desempenho operacional das missões ou em instrução. Os treinos desafiam homens e cães em cenários diferentes e variados. Podem ter lugar, por exemplo, na esquadra da UEP, onde há um labirinto no qual são colocadas amostras reais de diferentes drogas para treinar o faro dos cães. Ou então, podem acontecer em ambiente real, nos terminais de passageiros ou parques de estacionamento do Aeroporto de Faro. «O cão deve estar ambientado para trabalhar em qualquer espaço, por isso, são frequentes as simulações em autocarros, composições ferroviárias ou aviões», revela este agente especialista.
O Grupo Operacional Cinotécnico (GOC) só pode, contudo, atuar nas áreas metropolitanas sob jurisdição da PSP. Isto é, nas cidades onde existe uma esquadra de polícia. É também o comando da PSP de Faro que decide quando colocar os binómios em ação. «Se tivermos um mandato de busca que ordena tomar de assalto uma casa de traficantes e dominar os suspeitos no interior», as equipas homem/cães estão na linha da frente, abrindo o caminho para os agentes convencionais, por exemplo «da investigação criminal» para realizarem os restantes procedimentos policiais.
Nem as drogas exóticas escapam ao faro
«Há três anos encontrámos um produto, cuja venda é proibida, embora muitas pessoas desconheçam. São comprimidos para emagrecer, fabricados no Brasil, conhecidos como cascara sagrada. Na sua composição têm uma percentagem de cocaína e causam dependência. Surpreendentemente, uma cadela labrador conseguiu detetar um saco de comprimidos, muito bem embalado em papel de alumínio, dissimulado no fundo do bolso de umas calças, enroladas no meio de outras roupas», no Aeroporto de Faro.
Os estupefacientes, mesmo os mais exóticos, por melhor dissimulados que tentem passar, não escapam ao faro apurado destes animais. Na experiência de António Luís, a cocaína e o haxixe são os mais frequentes nas apreensões na aerogare algarvia. Contudo, «neste local não temos detetado nem armas nem explosivos», no apoio prestado à autoridade tributária e aduaneira na busca de bagagens e passageiros suspeitos em trânsito pelo Algarve.
Outro caso surpreendente ocorreu em Monte Gordo. «Ao circular no passadiço de madeira, um golden retriever parou e sinalizou o local. O tratador, perspicaz, não descansou até escavar à profundidade de 50 centímetros de areia. Encontraram vários sabonetes de haxixe enterrados».
Por vezes, os binómios do GOC são chamados pelos serviços prisionais. Revistam as celas dos detidos e também as visitas, em busca de contrabando e drogas. Por vezes, apoiam também as operações stop. «Recordo-me de um caso em que os ocupantes de uma viatura estavam tranquilos. A cadela sinalizou uma bolsinha aparentemente esquecida na mala no carro, onde estava uma pedra de haxixe. Ficaram estupefactos».
Outra missão que costuma dar frutos são as buscas solicitadas pelas escolas secundárias do Algarve. A busca envolve agentes regulares da PSP afetos ao programa «Escola Segura». «Acionamos os cães quando há sinais de alarme. Hoje, as drogas no meio escolar são um verdadeiro flagelo». Estas intervenções «têm tido muito êxito» e resultam quase sempre em apreensões.
Atualmente, a maior dificuldade sentida pela UEP no Algarve é a falta de espaço para albergar canis condignos para os agentes caninos. «É um grande problema. Aguardamos a construção de instalações próprias para concentrarmos todos os meios». A principal consequência desta lacuna é que os animais estão divididos entre as instalações do Comando Distrital de Faro e a Divisão Policial de Portimão.
Perfil ideal dos binómios
O pastor belga malinois é elogiado por dar «mais garantias» de eficácia aos agentes do Grupo Operacional Cinotécnico (GOC). É um cão forte, equilibrado e cheio de energia. O pastor alemão também é um dos prediletos para o trabalho policial. «Procuramos recrutar as raças que mais se adequam. Em busca e salvamento utilizamos bastante os labradores. No entanto, não significa que todos os pastores alemães ou belgas sejam todos bons para trabalhar. Apuramos as suas qualidades individuais durante o período de treino e formação», explica.
Também a gestão dos recursos humanos coloca vários desafios à Unidade Especial de Polícia da PSP. Os agentes do GOC têm de ser «indivíduos que gostem de cães» mas só isso não chega. É necessária «uma sensibilidade especial». Os cursos de formação, em Lisboa, duram seis meses com exames físicos, psicotécnicos e uma componente técnica muito exigente. Este ano, «já foram eliminados dez candidatos». Além da apetência física e sensibilidade é também necessária uma «grande disponibilidade e espírito de sacrifício», pois os binómios têm de estar disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana. Até mesmo nos dias de folga ou férias, homens e cães são chamados a apresentarem-se em serviço a qualquer momento».
Agentes caninos também são louvados
A PSP compra os seus cães a criadores estrangeiros que habitualmente fornecem as forças de segurança. Sobretudo oriundos da Bélgica, Holanda e República Checa. «Já chegámos a fazer criação, mas na mesma ninhada nem todos são bons. Por isso, compramos animais já com alguns meses de idade. Também acontece aproveitarmos cães que são problemáticos na vida civil, mas que para nós podem ser excelentes agentes. Queremos cães fortes e sempre prontos para morder», afirma o Chefe António Luís.
O reconhecimento do mérito destes agentes caninos também é elegível a medalhas de mérito. No Algarve «temos dois cães condecorados com louvor pelo seu desempenho extraordinário. Um na busca de estupefacientes e outro nas missões de ordem pública», revela. O tempo médio de serviço dos animais depende da raça e da sua condição física, mas ronda os nove e os 12 anos. Após a reforma, o cão fica com o seu tratador ou é entregue a novos donos, com a garantia de que «nunca são abatidos». Os laços são tão fortes, que por vezes, quando o cão adoece, «é o tratador quem o leva para casa e que presta todos os cuidados. Conhece algum exemplo na função pública onde isto aconteça?»
SWAT Team à portuguesa
A Unidade Especial de Polícia (UEP) foi criada em 2007, para responder a cenários complicados. «Se não conseguirmos resolver os problemas, é melhor chamar os tanques do exército ou coisa que o valhe», ironiza um dos responsáveis ao «barlavento». A especialização é tal, que está reconhecido entre outras forças congéneres e é normal participar em intercâmbios internacionais. «Não só enviamos os nossos agentes, como também recebemos muita gente do estrangeiro que aprende connosco», garantiu. As missões nem sempre têm o grau de espetacularidade dos filmes de ação, mas nem por isso são menos perigosas. Por exemplo, é frequente serem solicitados para o despiste de explosivos em viaturas usadas por altas individualidades e governantes de passagem pelo Algarve.
Em caso de tumulto social, jogos de alto risco ou situações de grande violência e elevada perigosidade, esta unidade é a linha da frente. Atualmente, a UEP tem cinco sub-unidades: Corpo de Intervenção, Centro de Inativação de Explosivos e Segurança em Subsolo, Grupo de Operações Especiais (GOE), Corpo de Segurança Pessoal e o Grupo Operacional Cinotécnico. Este último ganhou autonomia do Corpo de Intervenção em agosto de 2007. Para além da sede em Lisboa, o GOC tem duas forças destacadas, uma no Porto, outra em Faro, que também tem jurisdição no distrito de Beja. Nas regiões autónomas, o GOC tem forças destacadas na Madeira e Açores com as mesmas capacidades operacionais.