É um cenário normal. A noite está fria e não se vê vivalma. O relógio marca 23h16. Não há lugar para estacionar à porta de casa. Percorre o quarteirão, até encontrar um espaço. Estaciona. É um pouco mais longe que o habitual. «Não deve haver problema», pensa. Pelo sim, pelo não, o telemóvel vai na mão. Dá uma sensação de segurança. Tranca o carro, leva o computador e avança sem ouvir os passos atrás de si. Sente a ameaça nas costas. É um assalto. Numa fração de segundo bloqueia. O coração acelera. Gritar por socorro? Fugir? Passam-lhe mil ideias pela cabeça, mas, simplesmente, não consegue fazer nada. É exatamente neste ponto que o passo seguinte é decisivo. Na melhor das hipóteses, entrega tudo ao ladrão e depois apresenta queixa às autoridades. O medo apodera-se do corpo. Um movimento em falso pode valer-lhe uma bala, uma facada, uma agressão violenta. Se assim for, o seu caso é mais um número nas estatísticas da criminalidade que aumentam todos os anos.
Agora volte atrás neste cenário fictício, mas tão verossímil, e considere se valerá a pena seguir outro caminho, tentar prevenir uma situação semelhante ou, pelo menos, aprender a controlar-se para reagir com calma.
Entre as hipóteses à escolha, a aprendizagem de um sistema de defesa pessoal e combate corpo a corpo, pode ser uma solução. Quem assistiu ao estágio da Federação Portuguesa de Krav Maga (FPKM), sobre o tema «Ameaças contra armas de fogo», no sábado passado, 13 de fevereiro, no Clube Recreativo da Pedra Mourinha, em Portimão, perceberá que o principal é a prevenção e o auto-domínio.
Este é um tema que só é ensinado «aos três ou quatro anos de prática do Krav Maga, porque há necessidade de aprender primeiro a defender contra mãos nuas». Ainda assim, a iniciativa juntou 30 praticantes para «testar e aprender» a reagir em função desta ameaça, contou ao «barlavento» Paulo Pereira, presidente da FPKM. E engane-se quem pensa que é uma atividade muito violenta ou que não tem estrutura física para aprender. Um dos primeiros ensinamento é «a prevenção», seguido do controle «das emoções» e do «discernimento de saber manter a calma», sublinhou.
No Algarve já existem três escolas sob a tutela da FPKM, criada em território nacional em 2004, que representa a Federação Europeia. Não tem vertente competitiva e apenas pretende munir os cidadãos de técnicas que ajudem a reagir numa situação de perigo. Não é necessário ser um assalto, pois enquadram-se as tentativas de estrangulamento, de rapto, ou qualquer outra agressão.
«No Algarve, temos escola desde 2008/2009. Começou em Faro, com um antigo instrutor que nós tínhamos, depois seguiu-se o Paulo Santana, em Portimão, em 2011, e a última foi Albufeira, no ano passado, através do instrutor Jorge Maia. Estes são os polos que temos: um em Albufeira e dois em Portimão», um deles na Pedra Mourinha, onde José Soares é o responsável, enumerou.
«Quando temos que agir, há que fazê-lo num espaço de tempo curto, mas para isso há que ter conhecimento técnico e isso aprende-se nas aulas de forma contínua», afirmou. O programa, que vai desde a cinta amarela até à negra, diferencia os tipos de ameaças e a complexidade.
«Uma vítima tem que ter capacidade para lidar com o agressor» de qualquer tamanho ou capacidade mental e tem que acertar nos pontos mais sensíveis com precisão, dentro do timing e com a velocidade necessária. «Tem que ver com os pontos vitais do ser humano, que são, por exemplo, os olhos, a garganta, a zona genital», resumiu. Aliás, 90 por cento dos golpes são nestas zonas, porque são aquelas às quais se reage de imediato à dor.
Mas não basta defender. Há que avaliar a posição da vítima, do agressor, o tipo de ataque, baseando a defesa na simplicidade das ações.
Apesar do lema ser a prevenção de situações de risco, Paulo Pereira alerta que quando existe uma situação da qual não se pode sair, deve-se sempre evitar o confronto. «Qualquer reação que a vítima tenha, vai despoletar uma ação no outro. É importante perceber isso». Num assalto é preferível deixar levar tudo, mas se há uma tentativa de estrangulamento, de violação, terá que haver uma reação da vítima. E tem que ser assertiva.
A procura do Krav Maga tem vindo a crescer. «A nível nacional há sempre procura e temos uma taxa de fidelização muito elevada. As pessoas experimentam e ficam, porque a modalidade é aberta para todos», afirmou Paulo Pereira. A curiosidade é que, apesar de haver uma procura maior da parte dos homens, a taxa de inscrição tem aumentado mais na fatia feminina. O ideal seria que «a pessoa aprendesse a defender a sua integridade física e a de terceiros», considerou.
Há já alguns adeptos que procuram o Krav Maga devido aos «alertas que vão surgindo, ao medo que têm do que lhes possa acontecer, mesmo que ainda não tenham passado por qualquer situação de perigo», adiantou ainda. No entanto, há praticantes que já tiveram experiências más, quer de agressões, quer até de sequestro. «Procuram melhorar a sua condição, a preparação, a destreza, mas também estar mais alerta, ganhar confiança, autodomínio e autocontrolo». É que a prevenção é o primeiro princípio do Krav.
Por exemplo, um praticante, quando começa a ser alertado sobre certos aspetos, muda os hábitos. É o caso de ir a falar ao telemóvel pela rua, exemplificou. Quem estiver interessado em praticar pode consultar o site da Federação ou as páginas das escolas no facebook.