«Esta casa é única no país. Na sua dimensão, estrutura e valências», refere Pedro Pousão Ferreira, 57 anos, investigador, biólogo e diretor da estação piloto do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Esta estrutura multidisciplinar inaugurada em 2001 alberga no total 2300 metros quadrados de área coberta para peixes e laboratórios. Sete hectares contando com os tanques externos e estrutura offshore ao largo da ilha Armona.
Nos últimos quatro anos a EPPO contou com uma verba de três milhões para investigação. Publica frequentemente estudos e manuais técnicos, proporciona formação, organiza workshops, recebe visitas de estudo e é uma referência nacional e internacional no trabalho de investigação que tem vindo a desenvolver.
A escolha do local não foi um acaso. Na opinião de Ferreira «só há dois sítios para se fazer aquacultura em Portugal: o Algarve e Madeira. Por razões climatéricas pois o clima é mais ameno e o mar em termos de offshore é muito menos violento. O Algarve estará sempre um passo à frente pelas condições climatéricas que tem».
Ferreira explica que na EPPO faz-se «investigação à escala semi-industrial. Trabalhamos com peixes marinhos: dourada, robalo, linguado, sargos, pargos, corvina, mero, ostras, amêijoas, e fazem-se ensaios com sardinhas e outras espécies». Fundamentalmente, a estação destina-se a apoiar a aquacultura de peixes produzidos comercialmente no sul da Europa e a estudar novas espécies.
«Neste momento estamos a trabalhar duas: o mero, com o intuito de repovoamento e a corvina.» Relativamente às corvinas realizaram um estudo «pioneiro em Portugal». Fizeram todo o processo desde a reprodução, cultivo de larvas, juvenis, ensaios de alimentação e nutrição, ensaios em tanques em terra e em jaula oceânicos até o produto final ser apresentado do prato, confeccionado de diferentes formas. «Demos a provar às pessoas para que comparem a corvina selvagem e de aquacultura. Porque se o consumidor não gostar do sabor ou textura, não serve!»
Contudo, nem tudo vai parar ao prato. É o caso do polvo. Neste momento, estão a ser desenvolvidos ensaios para realizar com sucesso o transporte de polvo vivo até ao mercado de Tóquio, no Japão. «O objetivo é utilizar as nossas estruturas para diferentes tipos de ensaios. Neste caso, o processo vai desde a captura no mar, até ao seu embalamento e preparação para viajar por longas horas para que chegue vivo em perfeitas condições ao outro lado do mundo», explorando desta forma o mercado japonês.
Quadros comunitários atrasam investigação
«Em 2016 houve um hiato no quadro comunitário. Estamos a concorrer a projetos que foram lançados com atraso. Vai ser um ano de travessia do deserto… Independentemente disto, temos de aguentar a estrutura base a funcionar. Mas deveremos fazer menos ensaios do que gostaríamos pois vamos estar à espera de apoios». E são sete projetos a aguardar aprovação: cinco internacionais e dois nacionais.
Neste momento, na EPPO trabalham 30 pessoas. Sobretudo bolseiros. Do quadro do Estado apenas dependem três pessoas, incluindo o próprio diretor. «Significa que há uma grande precariedade. Não faz sentido numa casa deste tamanho as pessoas serem bolseiras a vida inteira. Há aqui investigadores bolseiros há 19 anos. O Estado ainda não os contratou. E são a base desta casa pois fazem trabalhos altamente especializados. Aborrece-me não poder dar uma estabilidade maior aos investigadores. É um problema que urge resolver», evidencia Ferreira.
Corvina é o Salmão do sul da Europa
A corvina é a grande aposta porque «tal como existe o salmão no norte da Europa no sul podemos ter a corvina. A corvina é o nosso salmão. É o peixe que cresce mais rapidamente nas nossas águas e atinge maiores tamanhos. Permite filtrar, fazer postas e outro tipo de tratamento. Os peixes crescem de acordo com as temperaturas das nossas águas, portanto, as espécies que tem mais interesse para aquacultura são a corvina, robalo, dourada, linguado. Peixes típicos das nossas águas temperadas», evidencia. «A aquacultura é uma evidência não é um fait divers». Pedro Pousão Ferreira termina afirmando que «para o sector produtivo poder avançar tem de haver investigação. Tem um papel fundamental no desenvolvimento dos países e da sua produção».
O projeto «Transpolvo»
A viablização da exportação de polvo vivo para o Japão encontra-se neste momento em fase de ensaio na Estação Piloto de Piscicultura de Olhão, a maior estação piloto de piscicultura em Portugal.
Trata-se do projeto «Transpolvo», promovido pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), financiado pelo Programa Operacional Pesca 2007-2013 (PROMAR), com o apoio do Grupo de Ação Costeira (GAC) Sotavento do Algarve. A iniciativa teve como principal objetivo identificar as condições de transporte deste animal vivo a altas densidades e por longos períodos de tempo.
Recentemente, um workshop sobre este projeto juntou mais de 70 pessoas na Biblioteca Municipal de Olhão, com a presença dos principais agentes relacionados com a pesca e comercialização do polvo. O projeto resulta do interesse por parte do Japão e outros países orientais em importar polvo vivo para consumo nos mercados asiáticos.
O IPMA realizou diversas simulações de transporte de polvo vivo a altas densidades (superiores a 100 Kg/m3) e a baixas temperaturas (menos de 10ºC) com uma duração de 48 horas, com resultados satisfatórios que permitem que este transporte possa vir a ser realizado num futuro muito em breve. O projeto conta com o apoio da DOCAPESCA – Portos e Lotas, S.A., do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, da organização sem fins lucrativos Armalgarve Polvo e associações de armadores e pescadores de polvo.