Quando Pedro Fernandes, 41 anos, começou a trabalhar no aeroporto (Servisair), em 1995, ainda a memória daquela trágica manhã estava bem viva. Não demorou a recolher documentos e material sobre o acidente, na perspetiva de um dia contar o que realmente aconteceu. Há cerca de um ano e meio começou finalmente a juntar todas as peças e, neste momento, falta-lhe menos de 10 por cento para concluir a escrita.
«O objetivo do meu livro é conjugar a parte técnica das causas do acidente, com a parte humana. Existem relatórios muito bem elaborados, mas faltava ouvir as pessoas. E fazer o enquadramento da sequência de eventos daquele dia, compilar o que cada um viu e experienciou», conta.
Na Holanda há, pelo menos, dois livros publicados que relatam a queda do DC-10 da Martinair, embora sem tradução. Em Portugal, o assunto continua tabu. «Há muitas pessoas que têm reservas em falar acerca disto. Se calhar, porque acham que temos alguma quota-parte de culpa. Na minha opinião, tal não se justifica. Pelo contrário, não temos nada a esconder», garante.
Fernandes ouviu 24 testemunhos, desde passageiros sobreviventes, a controladores de tráfego aéreo, autoridades oficiais e pessoal das operações de socorro. «Abri uma caixa de Pandora em cada pessoa», admite.
«Lembro-me, por exemplo, do testemunho do controlador aéreo que fez a descida e as comunicações com o avião até ao momento em que se deu o acidente. Em 22 anos, nunca tinha falado com ninguém acerca do sucedido. Foram duas manhãs nas quais desabafou», com toda a força de uma redenção adiada. A «lucidez» e o sangue-frio do relato do primeiro bombeiro a chegar ao avião acidentado, já no asfalto da então pista 11, também é outro momento marcante da obra.
Visões de anjos e premonições
Fernandes admite que não foi fácil gerir o turbilhão de emoções e de sentimentos durante as entrevistas. Surgiram confidências inesperadas. Algumas que desafiam a racionalidade. Mas garante não ter razões para duvidar, apesar de não ser dado a assuntos do sobrenatural. Várias pessoas que protagonizaram o desastre em circunstâncias diferentes contaram-lhe que, nas horas que antecederam a tragédia, «sentiram premonições» e tiveram até visões. «Tentei manter a distância de investigador, mas a verdade é que dei comigo emocionado».
«Uma passageira contou-me que viu um anjo e também os sogros», curiosamente falecidos no desastre de Tenerife, no 747 da KLM, o maior da história da aviação. «Durante a viagem de Schiphol para Faro, disse-me que viu aureolas por cima de algumas das pessoas que faleceram. Nos últimos minutos da viagem, já na aproximação à pista, por instinto, sentiu que tinha de tirar o cinto de segurança a si e à filha. Esse sentimento premonitório permitiu que tivesse sido projetada para a traseira do avião, o que lhe salvou a vida. Ou teria morrido, como toda a gente que estava naquela zona central» do DC-10.
«A entrevista foi feita via skype e fiquei sem palavras. Lembro-me de ficar a olhar para o ecrã do computador, mesmo sem saber o que dizer, completamente arrepiado. A própria pessoa admitiu que a história era nonsense, mas jurou que era a verdade…»
Na véspera do acidente, uma funcionária do check in de Faro desmaiou. Interpretou-se isso como uma quebra de tensão. Um problema de saúde menor. No dia seguinte, «veio trabalhar cedo e apanhou com o acidente. Associou as duas coisas quando viu os sobreviventes a entrarem-lhe pelo terminal adentro, tal como uma imagem que lhe tinha passado pela cabeça no dia anterior, antes de perder os sentidos…»
«Eram 7h30 da manhã, escuro, inverno, nuvens baixas. Os passageiros que entrevistei contaram que mal se libertaram dos destroços, as únicas luzes que viram foram as da aerogare. Foram uma espécie de farol que os guiou. Em pânico e desorientados, atravessaram a pista e o taxiway. Entraram pelas portas do terminal de bagagens, portas de embarque, tudo o que encontraram aberto. Cá fora, apanharam táxis, foram-se embora com os familiares que os esperavam, encharcados em lama, combustível e completamente em pânico. Um caos. É muito complicado gerir esse tipo de situação».
O voo trazia 13 tripulantes e 327 passageiros. Faleceram dois tripulantes e 54 passageiros. 106 ficaram feridos com gravidade.
O sobrevivente Herman Jansink, na altura um jovem comissário de bordo em início de carreira, publicou recentemente no website de aviação Confessions Of A Trolley Dolly a memória que guarda desse dia: «a chuva continuava a cair. Parecia que os céus portugueses estavam a chorar. E chorei também».
«Muitas lições foram tiradas a nível de equipamentos de ajuda à aterragem em condições de má visibilidade e mau tempo. Foram modificados procedimentos, tanto na torre, como nos socorros, quer a nível aeronáutico».
Além das questões «técnicas de pilotagem, tive de ler como funciona o autopilot e o autothrottle para perceber bem o que aconteceu. Enriqueci bastante», conta.
Fernandes já abordou várias editoras, que «ou não me responderam ou disseram que não há interesse porque ninguém quer ler histórias de acidentes e de mortos», lamenta, porque na verdade o livro é muito mais do que isso.
«É todo um trabalho de investigação». Terá 150 a 200 páginas, com fotografias exclusivas e documentação inédita que reforçam o conteúdo. Em último caso, sairá em edição de autor, com tiragem de 500 a 1000 cópias. Fernandes vai procurar patrocínios que ajudem a pagar os custos de impressão.
«Houve muita gente que me pediu uma edição bilingue, em inglês para que a comunidade holandesa possa ler». No meio da aviação, a ideia tem sido bem acolhida e tem recebido muito encorajamento, «desde os entrevistados aos colegas», conclui.
Uma história ainda por contar
O voo MP495 da Martinair nunca foi reconstruído num episódio da célebre série documental «Air Crash Investigation» exibida pelo National Geographic. Uma das possíveis razões que explicam o desinteresse do canal é que, «passados 23 anos, este acidente ainda não está fechado» em termos legais. Na Holanda ainda corre em tribunal um processo interposto por 33 passageiros contra pilotos e companhia aérea. E portanto, continua «a haver uma indefinição a nível de responsabilidades» e de indemnizações.
Receitas revertem para projeto
Seja bem ou mal sucedido, Pedro Fernandes quer que todas as receitas que o livro angariar ajudem a criar um gabinete clínico de psicologia para dar apoio a todos os colaboradores da ANA, Aeroportos de Portugal. À semelhança do já existe na NAV, empresa responsável pela navegação aérea de Portugal. «Têm uma equipa que apoia os controladores aéreos em casos de stress pós-traumático. E respondem às situações críticas a que estes profissionais estão expostos» na sua vida profissional. A ideia já está a germinar, e na opinião deste técnico de segurança operacional, «faz todo o sentido».