Há quem se levante, no pico do verão, às seis da madrugada para ir à praia colocar um guarda-sol. É a estratégia que residentes e turistas encontraram para marcar um lugar no apertado areal da praia de Armação de Pêra, no concelho de Silves. A procura é imensa, mas o espaço diminui a cada ano.
Os últimos dias de mau tempo no Algarve delapidaram ainda mais a praia, havendo dificuldade nos acessos ao areal e queda de rochas, na zona de falésia.
Ao «barlavento» Ricardo Pinto, presidente da Junta de Freguesia de Armação de Pêra, confirmou receber diversas queixas, devido a esta situação, que pode gerar consequências também na economia local.
O autarca informou a Câmara de Silves e também a Agência Portuguesa do Ambiente, no início de outubro, tendo feito novos ofícios na semana passada. Ainda não obteve uma resposta. «Este problema não é novo. É um facto que as praias na região têm perdido dimensão, mas nalgumas têm sido feitas intervenções de recarga», afirmou Ricardo Pinto.
«Sei que há ciclos e que, como dizem os antigos, o mar tira e põe, mas a verdade é que esta situação está a afetar a localidade». Primeiro, porque a praia é o grande atrativo para o turismo. Depois, porque há pessoas que têm habitação de férias ou negócios naquela zona e estão descontentes. Mas, mais grave, para Ricardo Pinto, é que há locais, junto às falésias, onde têm caído fragmentos de rocha, e outros onde não é possível circular. «Quando a maré enche, o mar chega ao paredão. As pessoas vão para a praia e esperam que as ondas recuem para passar a correr, mas qualquer dia há um acidente», alertou. Também nas escadas de acesso à praia já há diferenças de um metro entre o degrau e o areal.
«Há sítios de risco», reforça o autarca, que não entende a razão de investimentos com alimentações artificiais noutras praias e não naquela. «Não quero que seja feita uma intervenção que desperdice o dinheiro, pois nos contactos informais que houve entre a Câmara e a APA parece que justificaram que não seria viável fazer essa obra. Quero saber é se há um estudo que diga que não pode ser feito mesmo, ou se há possibilidade de fazer», rematou.
Ao «barlavento» Sebastião Teixeira, diretor regional da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), no Algarve, respondeu que a entidade está «a fazer a revisão do Plano de Ordenamento da Orla Costeira, [que dá as linhas mestras para a gestão das zonas costeiras entre Vilamoura e o Burgau], e Armação não será esquecida». Está em estudo «até que ponto a praia pode ser melhorada ou se está confinada» à sua condição atual. Ainda assim, o diretor regional da APA alerta que «não é possível ter a praia» com a dimensão ambicionada pela população, pois «tem muito mais procura do que aquilo que aguenta». «Os sistemas têm um limite», garantiu. Com o inverno à porta, há que ter em conta que a situação pode piorar com as marés vivas ou o mau tempo.
Ainda assim, para acautelar os acessos à praia, tanto a Junta de Freguesia como a Câmara, antes de cada época balnear, deslocam para a praia máquinas, «para tentar disfarçar o declive que o mar coloca», avançou Rosa Palma, presidente da Câmara Municipal de Silves. Mas é apenas isso. Disfarçar…