‘-«Olhe lá, então e não quer subir à torre?», pergunta-me uma senhora idosa. Assim, sem mais nem menos. Viu-me por ali a cirandar e meteu conversa.
A verdade é que minutos antes, eu não consegui vir-me embora da Fuseta. Não sem antes ver o mar ao fundo das rua, como diz o poema. Voltei para trás e parei o carro onde estava. Talvez tenha sido um chamamento. Não sei. Quando dei por mim, estava à porta da igreja.
Reparei num homem, já entradote, que olhava fixamente para mim. Ele pensava que eu era estrangeiro. Eu pensava que ele era maluco.
-«Ò Rui, mostra lá a torre da igreja a este senhor», disse a idosa desconhecida. Agradeci-lhe a sugestão com beijinhos.
O Rui Lopes tirou as chaves do bolso. Apreciava a minha surpresa em silêncio, escadas acima (eu também).
Tem 63 anos, 40 dos quais a zelar pela igreja da Fuseta.
Reza a lenda que certa noite de tormenta, uma fogueira acesa aqui mesmo, no telhado da igreja, devolveu homens aflitos no mar às suas famílias em terra.
A história é bonita. Mas a vista é ainda mais milagrosa. O meu guia diz que não dá entrevistas. Mas confia-me a sua biografia. «O que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho», escreveu Eça, com razão.
Rui fala-me dos velhos comboios que hoje passam ali atrás de um prédio moderno e sem alma. Demoravam um dia inteiro a chegar ao Barreiro em 1972, nos seus tempos de tropa. Safou-se de África. Teve um «padrinho».
«O senhor José Afonso, já ouviu falar?». Quem? O cantor? «Sim, o Zeca Afonso. Quando veio dar aulas para Faro enamorou-se por uma senhora aqui da Fuseta e conheci-o muito bem. Ele tinha um amigo fascista, um Major influente nas mobilizações para o ultramar», diz-me.
«Depois, servi na casa do Otelo Saraiva de Carvalho durante o COPCON». Estranho sítio para falar sobre revolucionários. Quem sabe se Deus também está a ouvir a conversa, no telhado desta sua casa. Descemos. Mas antes dos degraus, Rui Lopes, ex-pescador em Marrocos e na costa da Mauritânia, toca um dos três sinos só para mim.
O cemitério está ali debaixo dos nossos olhos, mas estamos ambos bem vivos.
«Hoje apanhou-o bem-disposto», diz-me a Manuela da loja ao ver o meu sorriso ao voltar para o carro.
Só consigo pensar numa frase: Fuseta, adoro-te!