São Gelados italianos produzidos todos os dias em Olhão, aptos para celíacos. Unem sabores algarvios, franceses e italianos.
À sombra de uma buganvília, no coração da Barreta, em Olhão, no número 24 da estreita Rua do Gaibéu, a esplanada com mesas e cadeiras azuis faz notar a abertura de um novo espaço. O letreiro azul mostra que estamos perante uma nova geladeira, mas são as boas-vindas com um sorriso, o jeito italiano e o tom de voz da proprietária Francesca de Carolis que não deixam indiferente quem ali passa desde o dia 5 de abril, aquando da inauguração do novo espaço da São Gelados.
As receitas e a produção são de Nelson Costa, filho de portugueses, mas natural de Paris que, quando conheceu a esposa italiana se mudou para Florença, onde realizou formação na Carpigiani Gelato University, em Bolonha, tendo mais tarde estagiado, ao longo de um ano, na Gelateria Della Passera, considerada uma das 25 melhores do mundo pela revista Forbes.
«Quando cheguei a Itália, não percebia como se comiam gelados no inverno, porque em França só se encontram entre maio e setembro. Sou celíaco e sempre tive dificuldade em consumi-los, mas quando comi o meu primeiro gelado italiano, na Gelateria Della Passera, escolhi o sabor pistácio e a minha vida mudou. Nunca mais encontrei nenhum outro tão bom. E queria conseguir reproduzi-lo. Esse foi o primeiro motivo que me fez enveredar por esta área. O segundo foi o facto de gostar muito de cozinhar, de comer com qualidade e de criar pratos apelativos e bonitos», justifica ao barlavento o francês de 41 anos, com formação em psicologia.
A escolha de Portugal e Olhão para abrirem a São Gelados também surgiu de forma quase natural. «Não tínhamos perspetivas de ficar em Florença. Não íamos abrir mais uma geladaria nem fazia sentido fazer concorrência a quem me ensinou. E queríamos viver em frente ao mar. Os meus sogros moram em Faro, mas entre todas as possibilidades do Algarve, queríamos escolher a cidade com mais alma e também com mais produção de fruta. Por isso, escolhemos Olhão», explica a italiana de 41 anos, que trabalhava numa livraria antes de imigrar.
Na São Gelados, há sabores diferentes todos os dias, entre os cerca de 100 criados por Nelson, todos sem corantes, com fruta e leite fresco e quase sempre com matéria-prima local. Além disso, são todos sem glúten e inspirados nos três países que compõem as raízes desta família: Portugal, Itália e França. «A ideia era juntar as nossas três nacionalidades nos produtos. Nelson aprendeu a base italiana, confeciona com o jeito francês que nunca vai deixar de ter, e a produção é com ingredientes locais deste país que tem uma riqueza imensa. O resultado é uma autêntica viagem», diz Francesca de Carolis.
Um dos poucos produtos estrangeiros utilizados na São Gelados são os pistácios e os cones. «Só temos disponíveis um tipo de cones que vem de Itália, que não contêm glúten e que são muito bons. Quem pode comer tudo, não sente diferença e para quem é celíaco, faz toda a diferença», refere Nelson Costa.
Outro das características da nova marca está relacionada com a quantidade de açúcar. «Uso apenas o mínimo necessário para obter a textura pretendida. Gelados sem açúcar não existem e eu rejo-me pela quantidade necessária para se sentir o sabor da fruta. Claro que varia consoante o sabor pretendido e a fruta», explicita. «Parece fácil, mas estamos a falar de processos químicos e contas matemáticas. Temos de equilibrar os sabores e as quantidades têm de ser exatas para respeitarmos o produto. Cada fruta é diferente», acrescenta Francesca.
Todo esse processo é feito todos os dias, no laboratório da São Gelados, localizado na Rua 18 de Junho, em Olhão, onde se produzem gelados a partir das 07h00 da manhã e até às 17h00 da tarde. Quanto a sabores, podem encontrar-se gelados de diversas frutas consoante a época (ameixa, framboesa, maracujá, morango, pitaia, pitanga, cereja, amora, banana, manga, nêsperas e goiaba), algumas variedades de chocolate (Madagáscar com 72 por cento de cacau, São Tomé e até da República Dominicana com 100 por cento de cacau), a clássica baunilha e diversos frutos secos (amendoim, noz, pinhão, avelã e pistácio).
Um dos mais pedidos é o creme florentina, que junta ovos, leite, mel e moscatel e o favorito de Nelson é o de framboesa com água de rosa da Grécia e amêndoas do Algarve. Há também gelado de limão com menta, pêssego com rosmaninho, stracciatella, laranja com chocolate, café e flor de laranjeira. Este último «cheira e sabe a Algarve», nas palavras do luso-francês.
Quem tiver dúvidas nas combinações de bolas, na São Gelados o atendimento é personalizado e a fila que às vezes ultrapassa a porta é prova disso mesmo. «Quando me pedem sugestões, eu faço uma entrevista ao cliente porque a escolha não depende de mim, mas sim dele», esclarece.
Quanto aos preços, uma bola de gelado custa 1,80 euros e um quilo (kg), 24 euros. «Na área, não existem gelados mais baratos. É um preço económico para toda a família e para todas as capacidades financeiras. Era isso que queríamos e vê-se. O feedback tem sido muito bom e tanto temos estrangeiros com muito poder económico, como os alemães, como famílias inteiras e residentes locais. O gelado no Algarve é associado à praia e a um custo mais elevado, mas com a São Gelados, os olhaneneses estão a descobrir que são para todos os que gostam e de todas as faixas etárias», assegura o proprietário.
Para o futuro, ainda não há certezas, mas a ideia do casal passa por apostar também em sabores gastronómicos para hotelaria e eventos.
A São Gelados está aberta de terça-feira a domingo, entre as 14h30 e as 21h30, encerrando à segunda-feira.
Gelados que são sagrados
A italiana Francesca de Carolis e o francês Nelson Costa criaram a marca São Gelados em Olhão. Questionados pelo barlavento sobre o significado do nome, respondem que o mesmo tem várias simbologias. «Primeiro porque são, efetivamente, gelados. Depois a palavra remete para algo sagrado e é ainda um adjetivo para algo saudável. Por fim, o acrónimo, SG, também quer dizer sem glúten. Tudo se conjuga», afirmam.

