O município de Vila do Bispo fez obras numa área protegida sem autorizações ou estudos de impacto ambiental. Foi arrancada vegetação única disponível apenas neste local do mundo e acelerado o processo de erosão no perímetro junto ao «Geomonumento da praia do Telheiro», com centenas de milhões de anos, e o qual atrai especialistas e estudiosos de todo o mundo.
Em causa está um caminho descendente de 150 metros, sem proteções, numa falésia. O «barlavento» esteve no local e verificou que existem agora carros a circular e estacionar a dois metros do precipício. A comunidade de cientistas, geólogos e amantes da natureza está revoltada e preocupada
«O Geomonumento da Praia do Telheiro conta a seguinte história: há centenas de milhões de anos, houve aqui um antigo oceano entre dois continentes em aproximação. Acabou por se fechar na sequência da colisão que os uniu, dando origem à formação de uma grande cadeia de montanhas, estendendo-se pelo que é hoje o sul da Europa e a Península Ibérica. Elevada há 280 milhões de anos, foi em grande parte arrasada pela erosão, num processo que terminou criando planuras no interior de um vastíssimo continente. As dezenas de milhões de anos que levaram à erosão da citada cadeia de montanhas, estão representados no Geomonumento [da praia do telheiro] pela superfície de descontinuidade que separa as camadas. Tal superfície de descontinuidade, é pois, uma discordância adjetivada de angular, uma vez que não há paralelismo entre as camadas das duas entidades». A explicação é do mais conceituado geólogo do país, António Galopim de Carvalho, 84 anos.
Vila do Bispo venceu em 2015 o prémio «Município do Ano», que reconhece as boas práticas do poder local, e pelo que, não deixa de ser surpreendente que surjam agora indícios precisamente no sentido oposto.
O alerta foi dado por Ana Carla Cabrita, 43 anos, guia de natureza na empresa Walkin’ Sagres em conjunto com o especialista académico Galopim de Carvalho.
Carla Cabrita defende que «a Praia do Telheiro e a sua área envolvente, é umas das áreas emblemáticas do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV) devido à sua importância geológica mas também devido à existência dos diversos valores florísticos e faunísticos».
Plantas como o Tomilho-do-mar (Thymus camphoratus) ou o Pólio-vicentino (Teucrium vincentinum) são únicas no mundo e que apenas aqui existem. Além de que desempenham «um papel importante na sustentação dos próprios terrenos e evitam a erosão mais acelerada» dos locais.
O Geomonumento possui uma «avaliação quantitativa de valor científico de 90 (numa escala de 0-100)», isto é: «permite ler e investigar diversos acontecimentos e processos geológicos de valor universal e, ao mesmo tempo, dar a conhecer centenas de milhões de anos da história geológica de Portugal», explica ao «barlavento» Galopim de Carvalho.
O geólogo acredita que o município está a «ser negligente no acompanhamento nos trabalhos de arranjo de caminhos» e que estão a causar «danos irreparáveis» na área envolvente do Geomonumento. «Por todas as razões, urge defendê-lo do camartelo do progresso, e do desinteresse, fruto da ignorância de quem decide», escreveu nas redes sociais.
Cabrita condena ainda os trabalhos com veículos nas falésias: «existe uma lei e coimas para a condução de veículos nas falésias. Para além desta falta de fiscalização, melhoram-se acessos para locais, onde a lei proíbe o acesso de veículos motorizados!», relembra.
Toda a situação é considerada uma «falta de respeito pela preservação da área protegida». Outra questão apontada como preocupante é a da segurança: «é muito importante não se abrirem lugares que envolvam riscos e sem antes se medir as consequências».
«Noto cada vez mais que está-se a criar um género de uma nova atração turística que pouco ou nada tem a ver com turismo de natureza ou ecoturismo. Por isso é importante que não se abram precedentes para que esta situação se replique, mas que se trabalhe em prol da preservação dos locais», defende.
Contactados pelo «barlavento» o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV) recusou-se a prestar declarações remetendo o assunto para a sede do departamento no Parque Natural da Ria Formosa (PNRF), o qual por sua vez, nos remeteu para os serviços centrais do ICNF.
O «barlavento» tentou contactar o ICNF ao longo da última semana mas sem sucesso até à hora de fecho desta edição.
Almargem critica falta de sensibilidade ambiental
A Associação de defesa do património cultural e ambiental do Algarve (Almargem) refere que «a falta de sensibilidade ambiental dos responsáveis pela gestão do território» é «cada vez mais preocupante, sobretudo em locais com valores naturais particularmente valiosos». Sobre os trabalhos na praia do Telheiro relembram, em nota de imprensa, que «estão a ser empregues entulhos com restos de acácias, uma planta exótica e invasora que tem vindo a ocupar vastas zonas do nosso litoral e que, com este tipo de intervenções, continuará certamente a proliferar. Neste caso, os responsáveis pela obra de suposta melhoria do acesso à praia, chegaram mesmo a cortar vegetação natural e a arrasar alguns troços de duna fóssil, num espaço considerado, desde há muito tempo, como importante monumento geológico».
A Almargem considera urgente «que os concelhos que ostentam a bandeira do ‘Turismo de Natureza’, se empenhem efetivamente na preservação do que ainda resta de um “Algarve Natural”, cada vez mais raro, sob pena de perderem em definitivo um produto turístico único». Sublinham ainda que é importante não esquecer «que o Turismo de Natureza atrai um público exigente e responsável, e que em oposição ao turismo de massas, impõe limites à capacidade de carga dos espaços naturais, e consequentemente de alguns locais icónicos da região».
Município irá esclarecer a situação em breve
Em declarações ao «barlavento», Armindo Vicente, adjunto do presidente da Câmara Municipal de Vila do Bispo, referiu que para já, o município não presta declarações uma vez que se encontra «a preparar uma resposta a esta situação, com todas justificações baseadas em explicações técnicas» mas garante que «todas as obras são perfeitamente legítimas».
Galopim de Carvalho
Geólogo autor de 21 livros e mais de 200 trabalhos em revistas científicas. É professor catedrático jubilado pela Universidade de Lisboa, tendo assinado no Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências desde 1961. Publicou mais de 150 artigos em defesa da geologia e do património geológico. Foi diretor do Museu de História Natural, entre 1993 e 2003. Fez várias exposições e palestras, quer em Portugal como no exterior.