Artista convidada para o IV Festival Internacional de Percussão de Portimão, teve o condão de mostrar, em variados solos, a beleza acústica de vários instrumentos que são considerados pelo público como meros acompanhantes dos consagrados pianos, violinos, trompetes ou flautas.
A sua presença em palco não deixou ninguém indiferente. Além do domínio absoluto dos instrumentos, com especial destaque para a marimba, Vassilena executa um verdadeiro bailado a tocar; a música parece fluir-lhe de todos os poros, em catadupa, não deixando ninguém indiferente à sua alegria e força anímica. O «barlavento» teve o privilégio de entrevistar em exclusivo esta jovem e encontrou, fora do palco, a mesma alegria e força de viver.
barlavento – Qual o motivo que a levou à percussão, um campo masculino?
Vassilena Serafimova – Já começam a aparecer mais mulheres, embora seja necessária força para tocar os instrumentos e, por isso, tenha sido preferida pelos homens. No meu caso, o meu pai é percussionista, a minha irmã mais velha também e eu cresci no meio da percussão. Mas comecei com o violino, com cinco anos e meio. Ano e meio depois, quis experimentar percussão e, um dia, disse ao meu pai que queria mostrar-lhe o que aprendera sozinha. Na verdade, tinha aprendido todo o programa do primeiro ano e toquei todas as peças, uma a seguir à outra. Então, ele disse-me que podia frequentar as suas aulas, a partir do ano letivo seguinte.
E teve sucesso, desde tenra idade?
O que me ajudou, no início, foi ter começado muito jovem, com sete anos. O meu pai queria que os seus alunos participassem anualmente numa competição, porque pensava que era uma boa maneira de marcar objetivos e aprender novas peças. Aos nove anos, participei pela primeira vez e fiquei em segundo lugar. A partir desse momento, desinteressei-me um pouco e queria era brincar com as outras crianças.
Mas parece que voltou a interessar-se?
De repente, aos treze anos, entrei numa competição e a minha atuação nos membranofones não foi boa, embora tivesse tocado bem nos teclados. O júri decidiu que eu tocaria com os vencedores, embora tivesse ficado em quarto lugar, porque fizera a melhor interpretação no xilofone. Então, decidi que, a partir desse momento, estaria sempre pronta para entrar em competição e que a percussão seria a minha vida.
O grande número de prémios alcançado e o seu sucesso internacional demonstram que Vassilena cumpriu a sua promessa. Considera as competições como degraus para subir na carreira e disse-nos que o mais difícil e exigente é competir consigo mesma, para se ultrapassar.
Mas trocou a Bulgária por Paris, há uns anos?
Há dez anos. Tentei ir para uma escola superior de música na Alemanha, mas falhei a admissão. Na altura, estava a fazer uma tournée com o meu pai e tocámos em Paris. A organizadora, a pianista Chantal Stigliani, ficou muito surpreendida por eu não ter conseguido entrar na universidade alemã e disse que talvez me conseguisse arranjar algo em França. Sylvio Guarda, o meu primeiro professor, era primeiro timpaneiro na Ópera de Paris. E Chantal conhecia alguém do coro feminino. Tentei, fui aceite e comecei os estudos em França. O meu professor foi como um guru para mim, misto de professor e figura paternal. E Chantal foi como uma segunda mãe para mim. Tal como a família Christoforov, em cuja casa vivi, durante seis anos, de graça. Graças a eles, só vivi para o estudo da música sem me preocupar em arranjar dinheiro para sobreviver. Após a conclusão dos estudos, fui viver sozinha, mas continuam a ser pessoas muito importantes para mim.
A Vassilena parece dançar e elevar-se no ar, quando toca a marimba. Como adquiriu esse modo de executar?
Nem me apercebo disso. Há três técnicas de segurar as baquetas, cada uma com as suas características especiais. Mas ainda hoje, na masterclass, eu dizia que um método não é melhor do que o outro. O importante é ouvir a nossa música interior e executá-la. Nunca decido antecipadamente que tenho de fazer deste modo ou daquele, mover uma perna ou um pé. Mas, por vezes, necessito de tornar-me mais alta para conseguir um som mais forte ou mais profundo e, nesse momento, salto; outras vezes, apenas toco ao de leve, como se fosse uma carícia. Eu imagino os sons que desejo obter e movo o corpo para consegui-los.
E o futuro?
Embora atue constantemente por toda a Europa e goste de fazê-lo, estou a completar os estudos que me permitirão ser professora, porque gostaria de entrar, brevemente, na carreira docente.
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Estamos convictos de que o seu contacto com os percussionistas algarvios, nas masterclasses que dirigiu, foram a pedra de toque para o desenvolvimento dos mesmos. E a sua atuação em palco poderá ter despertado os elementos femininos ligados à música para o potencial de instrumentos habitualmente destinados aos homens.