Este é o rosto da humanidade nesta manhã. Humano, demasiado humano. Como se uma daquelas personagens, de triste e desamparado destino, emergisse de uma novela de Tolstoi ou Gorki, real e digna.
O céu escureceu e a chuva inesperada e soprada por um vento forte começou a cair. Passo apressado. O corpo em sintonia com a pressa de chegar ao café. Aguarda-me o saboroso momento em que rodeado de jornais, livros e computador recebo o mundo, isolado do burburinho em volta.
Mas desta vez, há uma presença humana no caminho, um rosto familiar que me faz retroceder. Encontro-o sentado num banco, num recanto do jardim das Amendoeiras.
– Bom dia. Com os primeiros pingos a cair, acrescento – vem aí chuva. – Bom dia, senhor. Abana a cabeça como se a chuva não o incomodasse. Está bem agasalhado. Mas o vento fustiga, frio.
– Isto para um homem de Leste, não é nada… – digo.
Sorri. Fala-me da neve e do gelo no seu país de origem, aí sim, é mortal ficar na rua no inverno. Sem abrigo, dorme ao relento, a cama escondida e protegida por um muro do jardim. Diz-me que gosta daquele lugar. É calmo. Não tem o barulho do outro jardim da vila, mais frequentado e com parque infantil.

Alexandru é moldavo. Quando lhe pergunto o nome, ironiza – Como Alexandre, o Grande. O que também revela conhecimento. Fala de França como um horizonte de esperança, onde tem familiares. – Um dia vou para lá… Há uns 8 anos que está por S. Brás. Trabalhou nas obras e noutros lugares de Portugal.
Com as primeiras gotas a caírem, a engrossarem, ridiculamente paternalista, insisto – vem aí muita chuva! Diz-me que quando assim é, tem onde se abrigar. Alto, magro, barba grande, é presença familiar na vila, sentado num banco de jardim, a fumar e a remoer a vida. Vagabundo com ar de filósofo
Pergunta-me, num português estrangeirado, o que leio. Mostro melhor a capa do livro. – Literatura… – Sim, literatura… respondo. Literatura, gosto literatura… – Murmura, enquanto as gotas da chuva no rosto abrem as palavras a um sorriso fraterno.
Como se uma daquelas personagens, de triste e desamparado destino, emergisse de uma novela de Tolstoi ou Gorki, real e digna.
Este é o rosto da humanidade nesta manhã. Humano, demasiado humano.