Apesar de, oficialmente, a Uber ainda não operar na região, há quem garanta que está para breve. A acontecer, a entrada no mercado deste operador virtual não agrada aos profissionais que temem uma concorrência desleal. Para já, o serviço está apenas disponível em Lisboa e Porto, mas isso não impediu que cerca de uma centena de taxistas se juntassem ao protesto nacional, em Faro, na passada sexta-feira, 29 de abril.
«Calculamos que ainda este ano a Uber se instale no Algarve. Por uma questão de solidariedade para com o resto do país, pedimos-lhe que faça chegar ao governo as nossas preocupações sobre esta atividade, que continuamos a considerar ilegal, não está regulamentada, não paga os impostos no nosso país, não paga contribuições à Segurança Social, e não lhes são pedidos os mesmo requisitos que são pedidos ao nosso sector», explicou Francisco Pereira, representante distrital da Federação Portuguesa do Táxi (FPT) a Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro.
O edil prometeu passar o manifesto e reconheceu «uma disparidade de obrigações entre o sector dos táxis e esta nova forma de trabalhar».
«Os táxis estão bem regulados, com contingentes definidos, com regras muito próprias em termos das viaturas, procedimentos e tarifas. Se mais razões não houvessem, isto põe a lei da concorrência em causa. O governo tem de tomar uma posição sobre esta situação, seja de proibir, seja de regular», considerou Rogério Bacalhau, referindo-se à Uber.
Além da obrigatória certificação de motoristas e licenciamento de viaturas junto do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), Bacalhau frisou que «em Faro, não é possível alguém desenvolver a atividade de táxi sem passar por um concurso do município. Mas qualquer pessoa pode fazer o serviço a partir da Uber. Não faz sentido que tenhamos uma concorrência sem regras».
Uber ou não Uber?
Francisco Pereira, que também é presidente da rotaxi, calcula em 423 o número de viaturas a operar legalmente na região. Se a Uber «entra aqui desregulada, vai pôr em causa todo o sector no Algarve. Dado que isto é sazonal, no verão trabalhamos razoavelmente bem. Mas no inverno não temos serviço sequer para as despesas», comparou.
«Admitimos que as coisas possam ser reguladas e negociadas connosco. Não podemos achar que o mundo é todo nosso. A Uber até pode vir a ser integrada no próprio contingente das associações, se assim o entenderem. Não podemos é aumentar desmesuradamente o número de viaturas para os clientes que existem. Não vai ser bom para eles, nem para nós», admitiu o representante regional da Federação Portuguesa do Táxi aos jornalistas. Questionado sobre o transporte clandestino de passageiros que grassa no Algarve, afirmou que «são ilegais, não podem funcionar. Mesmo que isso inclua alguns colegas nossos que têm esse tipo de atividade».
Novos tempos, novas atitudes
A entrada da Uber em Portugal trouxe uma nova abordagem ao aluguer de carros com motorista. Basta instalar uma aplicação no telemóvel e confirmar o local do início da viagem. O software dá acesso ao nome e fotografia do motorista, detalhes do veiculo, preços e informação em tempo real. Isto não obriga os taxistas a mudarem a sua maneira de fazer negócio?
«Sim. Estamos a investir na TaxiClick, uma aplicação similar à Uber, para não termos necessidade de nos ligarmos a mais nenhuma plataforma que não seja a nossa portuguesa (cooptaxis). Já está em funcionamento há seis meses, em todo o país. É uma evolução que estamos a fazer», esclareceu Francisco Pereira. A ferramenta é disponibilizada em vários idiomas.
«Se me perguntar se isto obriga a mudar alguns comportamentos? Tenho a certeza que sim, e já está a acontecer. É muito importante que a classe se preocupe em melhorar a qualidade de serviço». Não apenas pela concorrência da Uber, mas porque a sua própria aplicação permite a cliente «dar o seu feedback no final do serviço. E fazer queixas».
Prevalece a lei e não a opinião pública
Florêncio de Almeida, presidente da Associação Nacional do Transporte Rodoviário em Automóveis Ligeiros (ANTRAL), esteve no Algarve na véspera da manifestação. «Prevê-se que a Uber já esteja a operar no Algarve e, por isso, acho que o pessoal se vai mobilizar», anteviu ao «barlavento». Para este dirigente, a imagem que a opinião pública tem desta classe é irrelevante. «Aqui não se trata de ser impopular ou não. Trata-se da lei. A população não pode, de maneira alguma, defender ou apoiar quem não cumpre a lei. Eu não posso exercer a atividade de jornalista, porque não estou habilitado para o efeito. Se eles não têm alvarás, nem licenças, também não podem transportar» passageiros. «E mais: os direitos dos cidadãos não estão garantidos neste tipo de transportes. Se um dia houver uma morte, um acidente grave em que as pessoas fiquem inválidas, quero ver como é que vão receber as suas indemnizações, pois as companhias não vão pagar», interrogou. «O transporte remunerado tem que ter um seguro diferente. Nós pagamos cerca de 400 por cento a mais» do preço de uma apólice normal. Para este dirigente, a impopularidade da classe «já foi menos. Desde a semana passada começamos a distribuir um memorando à população, a informar qual a ilegalidade e a justa causa do nosso protesto. Hoje, a larga maioria da sociedade portuguesa já está a apoiar a nossa luta, porque é uma luta de justiça e de direito».