Meia laranja para colar ao peito, sumos e iguarias de cozinha contemporânea surpreenderam os convidados, no passado sábado, 9 de abril, data que marca a apresentação oficial da nova marca «Silves, capital da laranja», no bar do castelo.
«O concelho de Silves é, há longos anos, conhecido como local de produção de citrinos, em particular, de laranjas de grande qualidade, às quais se associa a doçura, a quantidade de sumo, e a delicadeza dos aromas excionais. Comprovada por cerca de 2200 agricultores, a laranja é um dos mais importantes produtos agrícolas do concelho. Com uma área de produção de cerca de seis mil hectares, é uma significativa fonte de riqueza e fator de desenvolvimento», começou por dizer Rosa Palma, presidente da Câmara Municipal de Silves no seu discurso.
«São produzidas ao longo do ano no concelho de Silves, as laranjas Baía, Newhall, Valência Late e clementinas que se destacam pelos seus atributos organoléticos. O reconhecimento da importância deste produto singular, levou o atual executivo camarário a promover a criação e o registo da marca Silves, capital da laranja», explicou ainda.
José Oliveira, presidente da Cacial – Cooperativa Agrícola de Citricultores do Algarve, em declarações ao «barlavento», considerou que «é uma iniciativa francamente boa. Todas as que possam valorizar a laranja do Algarve são boas e bem-vindas para a nossa região. Silves é a região por excelência da laranja e faz todo o sentido a valorização deste produto endógeno».
Questionado sobre a campanha da laranja algarvia, revelou que «este ano, não há dificuldades de escoamento. Está a ser feito com normalidade, consoante a variedade. Os preços têm estado melhores que o ano passado, algo que também tem a ver com a quantidade produzida, que é menor». No entanto, garantiu que a quebra na produção «não se trata de uma situação problemática» e justifica-se devido a «questões climáticas».
Fernando Severino, diretor regional de Agricultura e Pescas do Algarve, que também marcou presença no evento, considerou a nova marca «uma iniciativa importantíssima porque os citrinos têm sido pouco falados. É muito importante vir de Silves, desde sempre associada aos citrinos, uma iniciativa para pelo menos, se retomar este tema em termos promocionais. Estamos a falar da principal cultura agrícola, que vale 62 milhões de euros em volume de negócios».
«Vamos supor que estes seis mil hectares referidos são reais, porque há muitos pomares abandonados e as estatísticas não são muito corretas, mas se falamos em 40 por cento da área do Algarve que está em Silves, estamos a falar à volta de 25 milhões de euros de volume de negócios», salientou.
Ao «barlavento», Rosa Palma sublinhou que a ideia nasceu no atual executivo. «Desde que assumimos a posse que estamos a trabalhar neste assunto. Como sabe, durante muito tempo, havia a feira da laranja, evento que acabou por morrer, por vários motivos. A laranja é um dos produtos que mais marca o concelho de Silves. Ao degustarmos a nossa laranja sente-se diferença. Era necessário promover e divulgar essa diferença. Havia necessidade de divulgar um dos produtos que temos e que é de excelência. Não só na divulgação do produto, mas associando-o ao território e ao património a que pertence».
A nova marca é pertença da autarquia, que a disponibiliza a todos os produtores interessados. «É uma forma de reforçar este produto junto do consumidor nacional, regional e internacional, associando-o a Silves», reforçou a edil. Basta ligar para a autarquia para esclarecer dúvidas. Há um caderno de normas que «resulta de muitas reuniões, de forma a irmos ao encontro» das expectativas dos produtores.
O logótipo reflete a intenção do município em associar a laranja ao território e ao património do concelho de Silves. O corte na parte inferior corresponde ao perfil do castelo e ao edificado da cidade. Pretende transmitir «dinamismo, frescura, inovação e prazer».
Para breve estão previstas uma série de iniciativas, a desenvolver ao longo do ano, com vários parceiros locais. Por exemplo, festas de sunset no castelo, fins de semana gastronómicos com sabor a laranja, provas desportivas associadas à laranja, e até um forum de discussão entre produtores.
«Em novembro lançaremos um evento exclusivamente dedicado à laranja. Criar valor através do produto, da marca, e de todas as iniciativas a ela associadas fará de Silves, a capital da laranja», concluiu Rosa Palma, brindando ao sucesso da iniciativa.
Carpaccio molecular mostra potencial gourmet da laranja
José Sales, barman e sócio do café do Castelo de Silves, surpreendeu os convidados com um toque de cozinha molecular, servindo um carpaccio de «ingredientes improváveis». «A laranja pode ser consumida de forma diferente. Não serve apenas para fazer sumo ou para salada de frutas. Dá-se bem com o azeite e a flor de sal. Pode ser um limpa-palato, um tira-gostos entre a carne e o peixe. Mas também pode ser uma entrada», neste caso, laranja desidratada às rodelas, aromatizada com medronho, canela e uma esferificação de menta. A iguaria foi servida com uma bebida que já faz sucesso entre turistas e visitantes da casa – ice-tea artesanal de «flor de laranjeira», receita desenvolvida por Sales. Junta chá verde gorreana dos Açores, chá preto, alfazema, cascas de laranja e de limão, poejo, e «uma panóplia de coisas saudáveis da região e do país, que é preciso valorizar com muito carinho».
Agricultura algarvia está jovem e saudável
Fernando Severino, diretor regional de Agricultura e Pescas do Algarve, em declarações ao «barlavento», confirmou a pujança atual do sector. «Há uma dinâmica diferente no mundo rural. O número de jovens no Algarve aumentou cinco vezes no que toca ao investimento agrícola. Tivemos um investimento no último quadro comunitário na ordem dos 260 milhões de euros. Houve aqui uma revitalização jovem nos citrinos, abacates, medronho, mel e frutos vermelhos. Metade das propostas para o novo quadro são de jovens agricultures, o que muito nos agrada». «Este ano temos uma intenção de plantação para quase 70 hectares de nova vinha para vinho. É muito estimulante em relação ao futuro».
Reduzir as importações
Um dos produtores do concelho presentes no lançamento, em conversa com o «barlavento» deixou «os parabéns à Câmara Municipal por esta iniciativa que beneficia não só os produtores de Silves, mas os de todo o Algarve. Este será um primeiro passo para outras iniciativas e para se conseguir a médio e longo prazo, a valorização deste produto regional», explicou o eng. Romão. Questionado sobre a presença da laranja importada da África do Sul nas frutarias da região, explicou que «essa importação é feita em contra-ciclo. Poderá haver algumas importações pontuais no verão, quando havia menos quantidade de fruta aqui em Portugal. Penso que tem havido uma dinâmica em fazer pomares novos e aumentar produções. A breve trecho não será necessário importar laranja do hemisfério sul porque a nossa produção é suficiente» para o consumo interno.