Um especialista em recursos hídricos alertou ontem em Lagos, que os privados têm de pagar a sua parte das medidas contra a seca no Algarve, sem esperar que o Estado assuma todos os custos.
«Há uma componente dessas obras [para combater a seca] que, eventualmente, o Estado pode participar, porque são um benefício generalizado […], mas há benefícios privados que têm que ser os próprios a suportar», afirmou o professor universitário e investigador em recursos hídricos Rodrigo Proença de Carvalho.
Na conferência «Resiliência Hídrica no Algarve – o nosso propósito comum», que hoje decorre em Lagos, no distrito de Faro, o especialista sublinhou a necessidade de se começar a debater «os benefícios do uso da água», nomeadamente os seus custos ambientais e económicos.
«Nós temos que ter a noção de que, obviamente, a água proporciona benefícios económicos a quem a utiliza e essas pessoas, na medida da sua capacidade de pagarem, têm que contribuir para a gestão de recursos hídricos», disse Rodrigo Proença de Carvalho.
O docente do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa defendeu que «não se pode assumir que seja o Estado a financiar todas as obras», sublinhando que há a necessidade de se identificar «quais são as obras que valem a pena ou não».
Segundo aquele responsável, é evidente que têm de ser feitas obras no sentido de aumentar a disponibilidade hídrica do Algarve, que proporcionem «benefício e bem-estar social para a região», mas tem de se discutir como é que elas vão ser pagas.

O especialista também insistiu na necessidade de se fazer a gestão integrada dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos, com o objetivo de garantir a sustentabilidade do uso da água e a sustentabilidade dos ecossistemas e da natureza.
«Poupar água, esse é um investimento óbvio que não tem custos muito elevados», disse Rodrigo Proença de Carvalho, no final da sua intervenção durante o painel «Secas, escassez e disponibilidades de água no Algarve».
A conferência, que reuniu vários especialistas na área dos recursos hídricos, foi organizada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e pela Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL), em parceria com a Câmara Municipal de Lagos.
A ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, que presidiu à sessão de encerramento da conferência, garantiu na semana passada que, mesmo com alívios nas restrições, o Algarve terá este ano água para consumo, sublinhando que o governo vai estar atento para «se for preciso apertar aqui e ali».
Maria da Graça Carvalho esteve também na cerimónia de inauguração da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Lagos, na data em que se celebrou o Dia do Ambiente, onde garantiu que agora é tempo de «executar» os projetos previstos para a região aumentar a sua disponibilidade hídrica, com todos os fundos disponíveis, sobretudo o PRR, cujo prazo termina em 2026.
O governo de António Costa decretou em 05 de fevereiro a situação de alerta na região devido à seca, mas, no final de maio, o atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou o alívio das restrições impostas à agricultura e ao sector urbano, que inclui o turismo.
Com a revogação da resolução do anterior governo, o novo executivo atualizou as restrições impostas no consumo de água, que passaram de 25 por cento para 13 por cento na agricultura e de 15 por cento para 10 por cento no sector urbano, no entanto, ainda se aguarda pela aprovação de uma nova resolução em Conselho de Ministros.