À medida que se afirma na investigação marinha aplicada à saúde humana, a Sea4Us reforça a intenção de transformar Sagres num hub científico de biotecnologia.
A Sea4Us – Biotecnologia e Recursos Marinhos, SA, empresa com sede no porto da Baleeira, em Sagres, está prestes a concretizar o seu projeto-bandeira, depois de mais de uma década de investigação e desenvolvimento.
Trata-se de um novo analgésico não opioide para o tratamento da dor crónica moderada a severa, um problema de saúde que afeta cerca de um quinto da população mundial. O medicamento tem por base moléculas provenientes de animais sésseis marinhos, como esponjas da costa de Sagres, cujas propriedades foram descobertas pela Sea4Us numa investigação prévia.
Segundo a empresa, o composto — designado S#072 — é uma nova entidade química otimizada para uso humano. Atua em canais iónicos específicos em neurónios periféricos, o que, em teoria, permite analgesia sem interferir com o sistema nervoso central e reduz o risco de dependência associado aos opioides.
Segundo explica Pedro Lima, investigador e diretor científico da Sea4Us, «a dor crónica é um problema global que afeta um em cada cinco humanos. Vem de uma miríade de patologias, desde dores de cancro, dores traumáticas, dores pós-cirúrgicas, dores dos diabéticos, dores herpéticas, dores da lombalgia e mais. Em Portugal, quase três por cento do nosso Produto Interno Bruto (PIB) é gasto neste problema. Não há um tratamento adequado para a maioria. Existem os opioides que funcionam para a maior parte dos casos, mas têm efeitos colaterais, em alguns casos terríveis. Estamos a trabalhar há anos num medicamento alternativo, que tem um espectro de eficácia parecido ao da morfina», mas sem provocar dependência ou efeitos secundários, porque não atua no cérebro».
A Sea4Us segue uma abordagem que combina biologia marinha e eletrofisiologia, usada para identificar moléculas com atividade neuromoduladora em organismos que evoluíram defesas químicas sofisticadas ao longo de milhões de anos. Parte desta investigação encontra-se protegida, com várias patentes já concedidas relacionadas com as descobertas e métodos desenvolvidos.
Um passo importante é que os testes pré-clínicos obrigatórios antes de qualquer ensaio em humanos ficaram agora concluídos. A Sea4Us terminou todos os estudos regulatórios de segurança, farmacologia e toxicologia em ambiente GLP, sem efeitos adversos relevantes relacionados com o novo composto. Esta fase incluiu análises cardíacas, renais e testes de toxicidade com exposições prolongadas e dosagens elevadas.
Segundo a Sea4Us, os dados pré-clínicos revelam analgesia superior em vários modelos animais de dor pós-operatória e crónica. Indicam também uma elevada segurança, com tolerância a doses muito superiores à dose terapêutica estimada, alta biodisponibilidade oral e um perfil farmacocinético consistente, sem efeitos inespecíficos relevantes ou sinais de toxicidade comportamental.
«Trata-se de administrar exposições longas, em várias concentrações, crescendo até dosagens excessivas. Sem estes testes e sem estes resultados certificados e autenticados, não conseguimos fazer o medicamento», reforça o investigador.
Com os resultados agora obtidos, a Sea4Us entra agora na fase pré-CTA e prepara a submissão do pedido de ensaio clínico (Clinical Trial Application) para dezembro de 2025. A empresa prevê iniciar a primeira administração em voluntários saudáveis em abril de 2026.
Em paralelo, a Sea4Us concluiu o fabrico industrial da substância ativa (Drug Substance, DS), com estabilidade certificada pelas normas ICH, e está a finalizar o medicamento para uso clínico (Drug Product, DP).
Depois virão os testes de eficácia. A chamada fase 2A envolverá pequenos grupos de doentes, como pessoas submetidas a cirurgia. A fase 3, a mais cara de todo o processo, abrangerá milhares de indivíduos com diferentes perfis; e a fase 4 será a etapa de autorização e farmacovigilância.
«A fase 3 não se faz por menos que algumas centenas de milhões de euros», frisa Pedro Lima. Por essa razão, a Sea4Us não pretende avançar sozinha. O plano é concluir a fase 1 e licenciar a tecnologia a uma farmacêutica internacional, que assumirá as fases seguintes, mais longas e dispendiosas, e ficará com o direito de comercialização das patentes.
«O nosso conceito continua a ser Business to Business (B2B). Chegamos ao final da fase 1 e licenciamos», prevê.
Há uma multinacional que desde o início demonstrou interesse e que mantém a aposta, embora outras empresas japonesas, europeias e norte-americanas também acompanham o progresso.
O medicamento já foi produzido num lote experimental. «Além de tudo isso, estamos já a tratar do escalamento. Produzimos cerca de 10 quilos numa fábrica certificada na Alemanha, num grau de pureza coadunável com os medicamentos para uso humano. Estamos a fazer drageias, portanto o produto já toma a forma final, que é um comprimido», explica Pedro Lima.
A substância ativa foi fabricada em ambiente industrial segundo as normas internacionais ICH, já com estabilidade e qualidade farmacêutica garantida. O medicamento final encontra-se na fase última de preparação para uso clínico.
«Este marco valida mais de uma década de investigação e ciência rigorosa, desenvolvimento tecnológico e compromisso com uma missão muito clara: oferecer aos doentes com dor crónica uma alternativa eficaz e segura. Entrar em ensaios clínicos é o passo que nos aproxima do impacto real na vida de milhões de pessoas», afirma.
Pedro Lima sublinha a ambição de consolidar um hub científico em Sagres, «onde possamos, de uma maneira sustentável, acomodar uma outra dinâmica de investigação e desenvolvimento. O que queremos é dar fôlego a outros projetos embrionários, descobertas que temos, mas que requerem investimento, recursos e pessoal qualificado as para desenvolver».
Ao mesmo tempo, a investigação para a dor crónica abriu portas a outros projetos com potencial terapêutico distinto.
Inalador inédito pode vir a parar convulsões da epilepsia
Durante os estudos do analgésico contra a dor crónica, a equipa da Sea4Us fez outras descobertas que poderão dar origem a novos medicamentos, segundo conta o investigador.
«Existe uma molécula-mãe proveniente da esponja, e descobrimos várias outras ao redor, uma das quais tem um enorme potencial para a epilepsia. E há uma necessidade enorme.»
Hoje existem medicamentos que previnem convulsões em alguns tipos de epilepsia. «Mas, quando as convulsões mais severas acontecem, não há nada que as pare. Só colocando a pessoa em coma», acrescenta. A ideia é desenvolver um medicamento «administrado através de um inalador nasal, que pode parar a convulsão. Estamos a falar de curas para algo gravíssimo, e que, no potencial, à data, é possível».
Sagres é o principal local de recolha e também onde a empresa faz um pré-tratamento das amostras. Depois, a investigação decorre no Laboratório de Fisiologia da Universidade Nova de Lisboa. A Sea4Us trabalha em rede com várias entidades, desde a Universidade do Algarve a academias na Europa, Estados Unidos e Japão, assim como outras congéneres biotecnológicas.
«No laboratório de Lisboa, trabalhamos com neurónios, fazemos eletrofisiologia, mexemos na atividade elétrica dos neurónios. Conseguimos parar, ao nível da célula, a convulsão. Ora, da célula para o universo do animal todo há um grande salto. E esse salto também já foi dado. Usámos modelos de ratos que têm epilepsia, em que se induzem convulsões e, ao adicionarmos a tal molécula, a convulsão parou», afirma.
A eureka tem a ver com «o modo de ação celular bioquímico deste analgésico. Há 30 anos que estudo fenómenos de hiperexcitabilidade. A maneira como funcionam os neurónios é, de alguma forma, transversal à maneira como poderá funcionar num neurónio em convulsão. O neurónio é um circuito elétrico perfeito. Tem um sinal de voltagem, correntes elétricas e resistências. Tem capacitadores e interruptores. Portanto, se uma dessas componentes se estraga, esse sinal propaga-se de uma maneira errática, podendo assim haver convulsões. Ou poderá haver um espasmo. Ou uma taquicardia. Há uma certa transversalidade. Ao termos percebido como é que apagamos um neurónio com dor, apercebemo-nos de um potencial. Postulámos uma hipótese. Fomos testá-la e funcionou».

Remédio artesanal de gentes do mar inspira nova solução contra artroses
Há pouco mais de 40 anos, a apanha comercial de uma alga vermelha foi uma atividade que prosperou ao longo da costa sudoeste portuguesa. É uma alga com elevado interesse económico, porque dela se extrai uma substância cujo uso conhece aplicações que vão desde a microbiologia à indústria alimentar e têxtil.
«Com o contacto que mantemos com os pescadores e com as pessoas da terra, ficámos a saber que havia quem adaptasse as traineiras para apanhar esta alga. Os homens mergulhavam com recurso a um compressor de ar e as mulheres desciam às rochas para a apanhar à beira-mar. Era um trabalho manual e, com esse contacto, as pessoas começaram a aperceber-se que há um efeito benéfico», explica Pedro Lima, neurofisiologista, biólogo marinho, CEO e diretor científico da Sea4Us.
«De alguma maneira, ao longo dos anos, as pessoas começaram a pôr esta alga em álcool, em frascos, e deixavam maturar. O resultado é uma aguadilha e uma espécie de pickle. Aqui em Sagres, há quem a esfregue nos joelhos para aliviar as dores da artrite», revela.
A ciência moderna veio comprovar essa sabedoria popular. «Começámos a fazer extração dessa aguadilha e descobrimos as substâncias. Testámos em laboratório e vimos que há um potencial muito grande anti-inflamatório e analgésico na osteoartrite e artrite. Identificámos a molécula subjacente e agora sabemos o que fazer para produzir algo de uma maneira mais refinada», acrescenta.
A sobre-exploração e a maneira como essa alga era arrancada pelo caule levou quase à extinção deste recurso. Agora está a reaparecer. «E é colhida de uma forma mais sustentável por nós, de forma que a planta recupere e volte a crescer. De qualquer maneira, nesta fase só precisamos de pequenas quantidades», refere.
Este produto será uma exceção no portfólio da Sea4Us, pois a ideia não é desenvolver um novo medicamento no sentido lato, com todo o dispendioso e demorado investimento de tempo que isso implica.
«Será diferente, para os setores nutracêutico e cosmecêutico. Poderá ser um creme ou um suplemento alimentar que tem aplicações médicas. Vai seguir um caminho mais lesto, mais rápido, menos exigente em termos regulatórios. Queremos que chegue rapidamente ao mercado», avança.
«É essa a intenção. Vamos desenhar o conceito, produzir lotes-piloto e vendemos a quem queira depois comercializar».
Para isso, a Sea4Us avançou com uma candidatura ao Programa Regional ALGARVE 2030 entretanto já aprovada.
«Desenvolvermos um sistema de produção de extratos em quantidade escalável, otimizado, com um método não poluente, sem solventes, pronto a usar. Para isso, vamos montar uma unidade-piloto de processamento industrial. A alga, depois de seca e limpa de impurezas, é colocada num reator especial»,
Esta unidade servirá para a produção que alimentará o desenvolvimento de ingredientes bioativos inovadores derivados de recursos marinhos. A operação tem um custo total elegível de 450.418,17 euros e conta com um fundo total aprovado de 288.527,75 euros.
De adjuvante a acelerador da quimioterapia
Outro potencial medicamento que a Sea4Us tem vindo a estudar e desenvolver, com origem no mar de Sagres, poderá vir a ter aplicações na oncologia.
Pedro Lima explica: «hoje, o cancro de mama já tem boas taxas de sobrevivência, mas nos 65 por cento de casos em que se consegue erradicar o tumor, as mulheres ficam com dores nas mãos, pés e extremidades. Os pés ficam com formigueiro. Não conseguem descansar nem dormir. Os nervos ficam estragados e causam algo que é mais do que dor. A neuropatia induzida pela quimioterapia também é particularmente severa no cancro da próstata. Não há nada no mercado para a aliviar. Tomam-se uns analgésicos, a dor passa durante um bocadinho, mas não funciona muito bem. No entanto, descobrimos um composto que é um preventor deste efeito secundário. Quando coaplicado com o agente quimioterapeuta Taxol (Paclitaxel), a neuropatia não aparece», revela.
O mentor da Sea4Us diz que tem toda a informação pronta para fazer a patente, que permitirá avançar para um plano de negócios e procurar investidores.
Havia, contudo, uma dúvida: «será que a atividade anticancerígena ficava, de alguma forma, diminuída com a adjuvância desta nossa molécula? Descobrimos, entretanto, que possibilita aos médicos oncológicos administrarem doses mais severas para de facto se verem livres dos tumores», sublinha. Ou seja, «de repente, este produto tem um outro potencial porque também aumenta a eficácia da terapia».
Ir «mais além do que a natureza nos dá»
Na Costa Vicentina, «existe um manancial enorme. Só de esponjas, temos mais de 1500 espécies. Em cada uma delas encontramos dezenas de compostos naturais que têm aplicações na medicina». As novas descobertas da empresa no mar de Sagres não passam despercebidas no meio académico internacional. Não faltam estudantes de mestrado e doutorandos interessados em desenvolver investigação no concelho de Vila do Bispo. «Tudo o que fazemos é inspirado no mar, mas queremos ir mais além do que a natureza nos dá», afirma, através da chamada química medicinal.
«As moléculas que temos descoberto em organismos marinhos vivem em ambientes extremos, em profundidade, sujeitas a pressão osmótica, salinidade elevada e baixas temperaturas. Quando as identificamos e retiramos, temos de as adaptar a um novo propósito, que é circular no sangue das pessoas. É um ambiente completamente diferente. Mantemos o racional da molécula, que está na natureza por outras razões, mas temos de a adaptar.» Além disso, acrescenta, é preciso cumprir as exigências da farmacologia: «resistência ao ar, aos ultravioletas — pois debaixo de água não há esse problema — e ter uma permanência na prateleira coadunável com um prazo de validade. E tem de haver alterações químicas que aumentem a solubilidade», conclui.
Tudo começa com um incidente
É prática da empresa catalogar as espécies marinhas com interesse biotecnológico numa biblioteca, que poderão vir a ser relevantes para outras vertentes terapêuticas. E tudo começou com um incidente que remonta ao tempo em que Pedro Lima estudava Biologia Marinha na Universidade do Algarve e mergulhava na zona de Sagres para conhecer melhor o mundo submarino.
Certa vez, «a minha companheira de mergulho, que estava sem luvas, tocou num organismo marinho e levou a mão à face. No final, tinha a cara muito inchada. A reação alérgica foi tal que deveria estar cheia de dores. Mas não sentia nada. A verdade é que fomos a correr para o médico, em Portimão. Na altura, pensei que alguns organismos marinhos têm substâncias muito neuroativas». Mais tarde, ele próprio tinha «a luva rasgada» e ficou «com o dedo anestesiado após tocar em algo». «Por acaso, estava a filmar, havia uma referência visual, e voltei para procurar o que era», recorda.
Na verdade, milhões de anos de evolução resultaram em soluções altamente especializadas e engenhosas para defesa contra predadores. «Sabe-se que o mar é dador de coisas boas. Nós, a humanidade, a medicina, precisamos destas substâncias». Assim nasceu a Sea4Us, empresa que fez spinoff da Nova Medical School, em 2013.
Pedro Lima ainda usa estas informações de contexto para a prospecção. «Há uma lesma de profundidade que não consegue sintetizar o seu próprio veneno. Comecei a vê-la sempre na mesma esponja e não noutras. Portanto, deve ter qualquer coisa que está a ser usada pelo bicho. Nas grutas submarinas, há peixes que evitam comer proteína de certas esponjas. Não o fazem porque sabem que há uma arma química que os deixará paralisados. Nós estamos interessados nessas armas químicas», conclui.

Alga invasora japonesa talvez dê um herbicida
A alga vermelha usada em aplicações para artrites tem recuperado, mas enfrenta agora uma nova ameaça: a proliferação da alga invasora Rugulopteryx okamurae. Segundo Pedro Lima, até ao ano passado ainda não tinha dado a volta ao Cabo de São Vicente. De repente, «já cá está».
O problema, diz, é que «a tal alga vermelha vive em simbiose com as laminárias. Quando as laminárias crescem, há um balanço entre ambas. Esta invasora, como tem uma taxa de crescimento muito rápida, não tem predação e é muito resistente, está a ocupar todo o substrato que é casa para estas espécies nativas», alerta.
Questionado sobre se a chamada alga japonesa poderá ter algum préstimo, o biólogo tem dúvidas. «Fizemos uma análise dos constituintes químicos da alga. Não serve para grande coisa. Parece ter potencial para um herbicida», relata.
«Nós, quando mergulhamos, não vemos nada comer aquilo. Nada. As outras algas, por exemplo as laminárias, vê-se que os peixes mordem. Esta, nem pensar. Aliás, quem provar verá que tem um sabor que parece um picante ácido. É uma substância antipredação que sabe muito mal, nenhum peixe, nem a salema, a come».
Financiamento europeu e privado já soma 6,8 milhões
O anterior apoio do programa operacional CRESC ALGARVE 2020 foi decisivo para a Sea4Us alcançar a vitória no competitivo e prestigiado Accelerator European Innovation Council (EIC). A empresa recebeu 2,5 milhões de euros a fundo perdido e começou a executar o plano com sucesso, pese embora algumas dificuldades na segunda fatia de financiamento previsto através de coinvestimento do Banco Europeu de Investimento. A verba em falta «desacelerou um pouco o andamento. Tivemos de agilizar planos de financiamento alternativos», contudo, não pôs em causa os projetos.
A empresa algarvia, que se dedica à descoberta e desenvolvimento de fármacos inspirados no mar para tratar condições com forte necessidade médica não satisfeita, vai continuar a abrir novos caminhos no tratamento de várias patologias agudas e crónicas. Conta com uma equipa multidisciplinar de 20 profissionais e já captou 6,8 milhões de euros em investimento privado e financiamento competitivo e de fundos europeus.
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Reportagem publicada no livro «Algarve – Economia Azul: Inovação e Fundos Europeus na Região», editado em outubro de 2025 pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com produção editorial do jornal barlavento.




