Sea4Us, com sede em Sagres estuda moléculas existentes em organismos marinhos, com o objetivo de descobrir, investigar e desenvolver novos medicamentos.
Dentro de um ano e meio, a Sea4Us – biotecnologia e recursos marinhos, SA, empresa de biotecnologia avançada, com sede no Porto da Baleeira, em Sagres, estima estar em condições de realizar a sua primeira grande venda, a uma grande empresa farmacêutica, depois de uma década de investigação e desenvolvimento.
Trata-se de um novo analgésico para tratamento da dor crónica moderada a severa, um problema de saúde que afeta 21 por cento da população mundial, a partir de novas moléculas provenientes de animais sésseis marinhos (esponjas) da região costeira de Sagres, cujas propriedades foram descobertas através de investigação prévia.
Segundo explica Pedro Lima, investigador e diretor científico da Sea4Us, «a dor crónica é um problema global que afeta um em cada cinco humanos. Vem de uma miríade de patologias, desde dores de cancro, dores traumáticas, dores pós-cirúrgicas, dores dos diabéticos, dores herpéticas, dores da lombalgia. Em Portugal, cerca de dois por cento do nosso Produto Interno Bruto (PIB) é gasto neste problema. Não há um tratamento adequado para a maioria. Existem os opioides que funcionam para a maior parte dos casos, mas têm efeitos colaterais terríveis. Estamos a trabalhar num medicamento alternativo, que tem um espectro de eficácia parecido ao da morfina», mas sem provocar dependência ou efeitos secundários, porque não afeta centralmente o cérebro.

«É um parto muito difícil que demora pelo menos 15 anos. Só existem dois medicamentos portugueses que foram desenvolvidos em Portugal. A Bial conseguiu fazer um medicamento para a epilepsia. É o grande marco da farmacêutica portuguesa» e trata-se de uma empresa com quase 1000 pessoas a trabalhar, compara.
A Sea4Us surgiu a partir dos estudos de investigação científica sobre biologia marinha e compostos neuroativos, desenvolvidos até então pelo grupo de investigação de Pedro Lima e da equipa fundadora, em 2013. O objetivo tem sido, desde o início, a valorização e investigação da biodiversidade marinha pela utilização de compostos químicos naturais no desenvolvimento de medicamentos muito específicos no modo de atuação.
Sagres é o principal local de recolha e também onde a empresa faz um pré-tratamento das amostras. Depois, o desenvolvimento da investigação é feito no Laboratório de Fisiologia da Universidade Nova de Lisboa. A empresa trabalha em rede com muitas entidades, desde a Universidade do Algarve a academias na Europa, Estados Unidos e Japão, assim como outras congéneres biotecnológicas. «É daqui que irradia», diz.
«Primeiro fazemos um rastreio para identificar o potencial da biomassa. Trazemos para o laboratório, congelamos, liofilizamos, fazemos aqui um processamento e um extrato. Uma sopa. Levamos para o laboratório de Lisboa e começamos a purificar para perceber qual o ingrediente principal. Fazemos um estudo químico para chegar a uma fórmula. Quando chegamos a este ponto, percebemos que há uma molécula nova», simplifica.

No caso deste novo analgésico, não será necessário extrair mais matéria-prima do mar. «Não, porque conseguimos arranjar forma de sintetizar a molécula-mãe, digamos assim, usando a tecnologia. Conseguimos imitar a natureza e até a modificámos para a tornar melhor, resistente, não sensível à luz, para desenhar um produto mais coadunável com aquilo que a indústria farmacêutica precisa. Este é o começo de todos os nossos produtos. E continuamos a beber a inspiração no mar».
Pedro Lima estima que o novo medicamento será «um comprimido. Há muitos casos em desenvolvimento que caem por serem muito caros de produzir. Por isso é conveniente, nesta fase, que os processos de síntese química para produzir o pó que depois será posto numa drageia, seja competitivo em termos económicos, para atrair os grandes laboratórios que não querem gastar milhões para produzir uma palete. Até agora, este compromisso é muito adequado», garante.
Referência a Sagres na bula
Enquanto isso, «fazemos investigação e desenvolvimento de novas substâncias e princípios ativos de produtos com escoamento para o mundo farmacêutico. Coisas que curem, que façam parte de terapias. Mas essas drogas (usando um jargão) demoram muitos anos a chegar às farmácias. As entidades reguladoras exigem vários passos. E não os queremos fazer todos», admite, sobretudo os últimos, que são os testes clínicos adiantados em humanos, «inúmeros e altamente regulados», além de dispendiosos e morosos.
Assim, «a nossa proposta é chegarmos a uma determinada fase e licenciarmos o produto para uma grande farmacêutica fazer a parte final. Recebemos o dinheiro e reinvestimos no nosso portfólio» que começa a ganhar forma numa arca congeladora cheia de algas, anémonas e esponjas marinhas, recolhidas em grutas e cavidades marinhas da Costa Vicentina.
Do ponto de vista geográfico, os mercados-alvo da Sea4Us serão os maiores consumidores de analgésicos opioides: os EUA (49 por cento), a Europa (Reino Unido, Alemanha, França, Espanha e Itália, com 36 por cento) e o Japão (15 por cento). São também os países onde as farmacêuticas (potenciais clientes) estão sediadas e concentram as suas atividades de desenvolvimento.

O mais certo é quem comprar a patente do novo analgésico escolher o nome e a sua estratégia de marketing, mas o investigador atreve-se a sonhar. «Quase de certeza que não teremos influência, mas gostaria de fazer um contrato em que a origem do mar, e de Sagres, fique imortalizada». Algo que refira na bula que o medicamento «teve origem no mar da Costa Vicentina, no Algarve, em Portugal. Por uma questão de rigor e porque isso também vai validar o nosso conceito».
E levando a ambição um pouco mais para a frente, «gostaria que isto ficasse numa farmacêutica portuguesa». Outra questão é se no futuro, a nova droga tem potencial para minimizar o uso dos tradicionais fármacos (opioides, antidepressivos, anti-inflamatórios não esteroides, etc.)?
«Se puder sonhar e se for pouco humilde na resposta, diria que sim. Tem potencial, pelo menos, para ocupar algum do espaço que estes ocupam. Ponderando o estádio e não estádio em que estamos, e considerando os degraus para lá chegar, tudo indica que isso poderá acontecer».
Caso não aconteça, existe um Plano B. «Estamos a estudar um outro analgésico. O processo está um pouco mais atrasado e tem origem em bactérias que encontramos dentro de esponjas marinhas», conclui.
CRESC Algarve 2020 coloca a Sea4Us na vanguarda mundial
A Sea4Us recebeu cerca de 1,3 milhão de euros em apoios, em grande parte, no âmbito do Programa Operacional CRESC Algarve 2020 para diversos projetos, sobretudo relacionados com o desenvolvimento do novo analgésico para a dor crónica. «Foi fundamental para chegarmos a este ponto. Ajudou a financiar o desenvolvimento e testes de validação, como por exemplo os de toxicidade cardíaca e renal. Foi muito importante para alcançarmos a etapa seguinte», isto é, o financiamento de 5,6 milhões de euros do programa Accelerator do European Innovation Council (EIC), em outubro (2,5 milhões a fundo perdido e o restante em investimento). «É um fundo altamente prestigiado. Só há dois por cento de sucesso nas candidaturas. Passa por três fases e foi mesmo muito duro. Conseguimos, mas isso foi possibilitado por termos o nosso projeto num determinado grau de maturidade, pois previamente foi objeto de fundos europeus geridos no Algarve e não só». Agora, a verba do Accelerator permitirá à Sea4Us avançar com os testes pré-clínicos que precedem os primeiros ensaios em humanos. Uma vez concluídos, a empresa estará em condições de colocar à venda, junto das multinacionais do sector farmacêutico, a comercialização dos direitos de propriedade intelectual da patente do novo medicamento não-opioide e de inspiração marinha. Pedro Lima sublinha que este é um concurso muito competitivo, que recebe candidaturas de empresas de todos os países da União Europeia e outros como Suíça e Noruega.

Sagres pode vir a ser um hub internacional das ciências marinhas
Na Costa Vicentina, «existe um manancial enorme. Só de esponjas, temos mais de 1500 espécies. Em cada uma delas encontramos dezenas de compostos naturais que têm aplicações na medicina. Estamos a descobrir as potenciais curas que estão no mar», e que «têm de ser transformadas, com engenho, para novos propósitos, por exemplo, para andar na nossa circulação [sanguínea]», diz Pedro Lima, neurofisiologista e biólogo marinho, mentor da Sea4Us. As novas descobertas da empresa no mar de Sagres não passam despercebidas no meio académico internacional. Pedro Lima diz que não faltam estudantes de mestrado e doutorandos interessados em desenvolver investigação na área das ciências marinhas no concelho de Vila do Bispo. No entanto, «temos um problema de alojamento. Há pouca infraestrutura para apoiar atividades como a nossa. Recentemente, recebemos um grupo de noruegueses participantes num projeto europeu. Mas não se consegue fixar ninguém, além do transitório. E até isso é muito difícil. Este problema é conhecido, é transversal, mas tarda em haver passos para o resolver», lamenta. «Não há uma residência para acomodar massa crítica que, na minha perspetiva, serviria para contrariar a engrenagem que aflige esta parte do mundo, que é sazonalidade», e que poderia até criar diversas oportunidades locais de emprego.

Tudo começa com um incidente
É prática da empresa catalogar as espécies marinhas com interesse biotecnológico numa biblioteca, que poderão vir a ser relevantes para outras vertentes terapêuticas, a abordar no futuro. E tudo começou com um incidente que remonta ao tempo em que Pedro Lima estudava Biologia Marinha na Universidade do Algarve e mergulhava na zona de Sagres para conhecer melhor o mundo submarino. Certa vez, «a minha companheira de mergulho, que estava sem luvas, tocou num organismo marinho e levou a mão à face. No final, tinha a cara muito inchada. A reação alérgica foi tal que deveria estar cheia de dores. Mas não sentia nada. A verdade é que fomos a correr para o médico, em Portimão. Na altura pensei que alguns organismos marinhos têm substâncias muito neuroativas. Mais tarde, eu tinha a luva rasgada e fiquei com o dedo anestesiado após tocar em algo. Por acaso, estava a filmar, havia uma referência visual, e voltei para procurar o que era», recorda. Na verdade, milhões de anos de evolução resultaram em soluções altamente especializadas e engenhosas para defesa contra predadores. «Sabe-se que o mar é dador de coisas boas. Nós, a humanidade, a medicina, precisamos destas substâncias». E assim foi que nasceu Sea4Us, empresa que fez spin-off da Nova Medical School, em 2013. Pedro Lima, ainda hoje usa as informações de contexto para a prospeção. E exemplifica: «há uma lesma de profundidade, que não consegue sintetizar o seu próprio veneno. Comecei a vê-la sempre na mesma esponja e não noutras. Portanto, deve ter qualquer coisa que está a ser usada pelo bicho. Nas grutas submarinas, há peixes que evitam comer proteína de certas esponjas. Não o fazem porque sabem que há uma arma química que os deixará paralisados. Nós estamos interessados nessas armas químicas!», conclui.

Adjuvante da quimioterapia
Outro potencial medicamento que a Sea4Us está a estudar e desenvolver, com origem no mar de Sagres, poderá vir a ter aplicações na oncologia. Pedro Lima explica: «hoje, o cancro de mama já tem boas taxas de sucesso, mas nos 65 por cento de casos em que se consegue erradicar o tumor, as senhoras ficam com dores nas mãos, pés e extremidades. Os pés ficam com formigueiro. Não conseguem descansar nem dormir. Os nervos ficam estragados, e causam algo que é mais do que dor. A neuropatia é um problema no tratamento. Acontece que descobrimos um composto que é um preventor deste efeito secundário. Ou seja, poderá vir a ser um coadjuvante do taxol, que ajuda a que os nervos não fiquem estragados. Isso também vem do mar», revela.
Alga invasora no Algarve inspira novo antibiótico
Segundo Pedro Lima, a Sea4Us está a desenvolver com o Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITBQ) António Xavier «um antibiótico e um antifúngico para infeções resistentes». Cada vez mais, «as bactérias e os micróbios têm desenvolvido resistências aos antibióticos que andamos a tomar há décadas. Têm vindo a fazer mutações que são estratégias de sobrevivência. Sobretudo em patologias hospitalares». No entanto, e também pela observação, que é a etapa fundamental do método científico, a equipa descobriu na alga vermelha invasora (Asparagopsis armata) nativa das águas da Austrália que se instalou no Algarve, uma propriedade invulgar. «Foi quase um acaso. Tivemos interesse de fazer uma destilação desta alga na Universidade do Algarve. Não foi bem um óleo essencial, mas uma espécie de aguadilha. E ficou esquecida no meu carro durante todo o verão. Um dia, quando fui ver, esperava encontrar algo cheio de micróbios, verde e malcheiroso, pois passou todo o verão ao sol e ao calor. Mas não. Estava límpida. Perguntei-me: como é possível? Levei tudo para o laboratório, observei ao microscópio e não vi microrganismos! Enviei para uma investigadora da Sea4Us que estava em Nápoles e que tinha um cultivo de bactérias suficiente para testar. Ao final de uma semana perguntou-nos: mas afinal, o que era isso que nos enviaste? Matou tudo e deixou todos boquiabertos. Portanto, o potencial existe». Este será «um outro caminho porque esta alga é abundante», embora a população esteja também a regredir com o avanço de outra invasora mais recente, a alga japonesa (Rugulopteryx okamurae). «Essa sim, uma calamidade» ainda sem utilidade conhecida.
