«A burra alimenta a cria com o seu leite e, eu posso extraí-lo do segundo ao sexto mês», sem que o animal deixe de produzir alimento para o seu filhote, começou por explicar ao «barlavento». O projeto de comercialização de sabonetes surgiu numa conversa com amigos que lhe deram a conhecer esta ideia de negócio. Mas, afinal, quais os benefícios deste leite para o ser humano, que vantagens tem para a pele e qual o verdadeiro segredo para o sucesso deste produto?
São conhecidas as histórias de antigos que tinham rituais de beleza com leite de burra, como por exemplo Cleópatra e Pauline, irmã de Napoleão. Já em França há relatos da criação de burras num orfanato, para que o seu leite substitui-se o leite materno, argumentou o proprietário que dedica o seu tempo a aprender mais sobre esta indústria.
Aproveitar a qualidade do leite de burra, que transformado em sabonete possui «caraterísticas hidratantes, suavizantes e melhora a qualidade da pele», foi para o empresário, uma oportunidade a não desperdiçar. Ser pioneiro no Algarve numa área que não é muito conhecida na região, ainda que já existam outros projetos semelhantes em Portugal, não é tarefa fácil. A aventura começa por criar os burros, aprender a sua dinâmica, a alimentação e os hábitos, de modo a mantê-los saudáveis no dia a dia. É um trabalho a tempo inteiro que exige dedicação a estes animais.
Há, por isso, diversos cuidados a ter em conta. A alimentação é controlada, «à base de ervas e ferragens», tendo o empresário feito um «prado permanente com todas as matérias primas capazes de assegurar a boa alimentação dos animais», que pensa serem suficientes para a boa qualidade do leite. Também a ração não entra na dieta e as fibras são essenciais, sendo estes alguns dos aspetos fundamentais para a qualidade do leite do animal, que, por sua vez, garantem as propriedades deste sabonete made in Algarve.
Com todas as condições de bem estar do animal asseguradas, é possível afiançar o sucesso do produto. O passo seguinte será a ordenha da burra, num processo que também exige uma boa dose de conhecimento. Segundo o proprietário deste espaço, as burras só produzem um litro de leite por dia, sendo difícil a sua extração.
Como os sabonetes não são fabricados nesta quinta, é necessário congelar o leite, garantindo que nenhuma das suas qualidades é perdida. Depois é enviado, de imediato, a um produtor algarvio, da confiança de José Duarte, para a preparação artesanal e embalamento destes agentes hidratantes.
O produto final é um sabonete da marca «Pérola do Algarve», com 130 gramas, que custa 5,60 euros, e promete dar nova suavidade à pele. Além do leite da burra, que compõe 10,8 por cento do sabonete, uma percentagem bastante alta quando comparada com outros produtos semelhantes comercializados no mercado, a «Peróla do Algarve» utiliza outros ingredientes, como «a manteiga de sementes, theobroma cacau ou lavandula angustifólia».
Com o projeto a dar os seus primeiros passos, o empresário ainda não tem um local de venda específico, por isso o sabonete pode ser comprado através do contacto direto com José Duarte (927561347).
No entanto, há metas que o empresário pretende concretizar em breve. Possuir mais burras, aumentando para o dobro a produção de leite, criar uma sala de liofilização (processo de transformação do leite de líquido para sólido, garantindo todas as suas propriedades, aumentando a durabilidade e substituindo a congelação) são alguns dos objetivos. «Para este processo é preciso um liofilizador. Já falei com o Instituto Politécnico de Beja e esta entidade disponibilizou-o», esclareceu José Duarte. Este é um «processo complicado» e demora algum tempo até que o leite passe do estado liquido para o sólido, «porque a máquina não tem a capacidade para liofilizar em grande quantidade».
Esta inovação na quinta, quando implantada em maior escala, permitirá a exportação do leite liofilizado para o estrangeiro. No futuro, José Duarte ambiciona, ainda, criar um sabonete mais pequeno, de 75 gramas, que custará 3,90 euros, dando a conhecer o produto aos curiosos que queiram experimentar. Para já, o público-alvo é o português, ainda que haja já contactos no estrangeiro. «Já foram vendidos alguns para a Holanda e França», concluiu José Duarte.
*Com Inês Coelho