Com a aquacultura a elevar a fasquia tecnológica para enfrentar os desafios das alterações climáticas e da sustentabilidade, o S2AQUAcoLAB, em Olhão, está na vanguarda de novas soluções para o setor.
O S2AQUAcoLAB – Laboratório Colaborativo, Associação para uma Aquacultura Sustentável e Inteligente, fundado em fevereiro de 2021 e com sede em Olhão, tem razões para celebrar o estado da arte que já alcançou e também para olhar o futuro com otimismo.
«O balanço é bastante positivo, com mais de duas dezenas de projetos realizados», contabiliza Pedro Pousão Ferreira, presidente da direção. Neste ainda curto percurso, constituiu uma equipa multidisciplinar que ultrapassa os 40 colaboradores e instalou vários laboratórios, todos orientados para as prioridades dos associados e também para a prestação de serviços a terceiros.
«Estamos a terminar a montagem de um laboratório de Histologia, que serve para analisar tecidos animais e detectar alterações morfológicas. Pedem-nos muito para investigar cortes dos tecidos e ver qual o impacto de determinados alimentos, por exemplo. Ou para ver se há problemas nos intestinos e verificar a existência de doenças. Temos também um laboratório de análise de água que já está a funcionar em pleno», diz. Este laboratório monitoriza vários parâmetros ambientais relevantes para garantir a sustentabilidade das produções de aquacultura.
Há também um laboratório de Biologia Molecular para rastreios genéticos e para desenvolver um biobanco nacional de espécies, um dos desafios originais da criação do S2AQUAcoLAB. Por outro lado, já está operacional o laboratório de Cultura Celular, que está neste momento a ser usado num projeto, o Inovacel, que promete revolucionar uma nova fileira alimentar, e outro dedicado à Composição Bioquímica dos Alimentos, que avalia a composição dos macronutrientes nos animais.
Agora, com todas estas valências instaladas, a funcionar na Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) e também nas instalações de Olhão do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o desafio é ter mais espaço para continuar a crescer.
Sede no futuro Hub Azul de Olhão abre novas possibilidades
Pedro Pousão ambiciona que a sede do S2AQUAcoLAB venha a ser no novo Hub Azul de Olhão, atualmente em construção numa zona dedicada do porto de pesca da cidade.
O modelo de gestão ainda está a ser desenvolvido, num consórcio que junta a Universidade do Algarve (UAlg), a Câmara Municipal de Olhão e a Docapesca.
«Queremos assumir a gestão, equipar, fornecer e manter os recursos humanos altamente qualificados, quer como S2AQUAcoLAB na relação com os seus associados, quer nas obrigações» da infraestrutura à sociedade.
Assim, se vier a ser a entidade científica responsável pelo novo Hub Azul, o S2AQUAcoLAB pretende abrir o acesso à «bancada e ao laboratório» a startups, empresas e «a pessoas com ideias e projetos», que possam usar estas instalações construídas de origem, devidamente equipadas e certificadas, para investigação e desenvolvimento (I&D), com equipas residentes capazes de ajudar no objetivo de transferir conhecimento para a economia.
Pousão exemplifica: «O objetivo é permitir às empresas de biotecnologia utilizar equipamentos, como um PCR digital, que tem um custo de 50 ou 60 mil euros. Ninguém vai precisar de investir tanto para fazer ensaios. Quem precisar de utilizar duas horas por semana só terá o custo desta utilização», que poderá ser suportado por programas de apoio.
Além disso, está também previsto o acesso a tanques e a espécies de interesse comercial para fazer ensaios na vizinha EPPO, e também a laboratórios húmidos para testes com bivalves e algas. Portanto, «não será preciso montar uma instalação inteira nem ter reprodutores para testar e desenvolver novos produtos. Será um Hub em colaboração com os outros hubs onde a inovação possa acontecer. Essa é a nossa ideia».
O responsável acrescenta que há muito interesse neste tipo de soluções. «E vamos fomentá-lo, porque há procura nacional e internacional. Há muita gente a querer trabalhar nesta área. E a procura cresce quando existem oportunidades».
Ainda no que toca ao apoio ao cluster do mar, o S2AQUAcoLAB tem vindo a apostar na formação de recursos humanos. Atualmente promove cursos na área da aquacultura com vários programas de formação específica, técnica e avançada. Colabora com instituições de ensino superior como a UAlg, o Politécnico de Leiria e, mais recentemente, a Universidade Católica, integrando também o Campus Sul. Por outro lado, abre a porta a doutoramentos e está prestes a concluir o processo de acreditação como entidade formadora.
Portugal deve ser «um país gourmet»
Para Pedro Pousão, Portugal «tem de ser um país gourmet» devido à nossa dimensão e posição geoestratégica. «Na biotecnologia temos de ter produtos de muito valor acrescentado», diz, com uma metáfora futebolística. «Temos de fabricar Cristianos Ronaldos. Não podemos fabricar apenas jogadores de futebol. Porque produzir em grandes quantidades é o que fazem os países asiáticos. Não vamos conseguir competir com a China no cultivo de algas, pois produz milhares de toneladas. Portanto, temos de ter uma alga muito boa, com propriedades excelentes».
Essa é também a filosofia que o S2AQUAcoLAB passa aos associados. «Por um lado, damos-lhe apoio para que possam posicionar-se dessa forma. Para que a nossa dourada, o nosso robalo, o nosso pregado ou as nossas algas sejam de grande valor acrescentado. O nosso trabalho é ser uma interface entre a investigação tradicional das universidades e dos estudos do Estado, conseguir resolver os problemas, mas também colocar a inovação nas empresas. Fazer não só que consigam melhorar a produção, mas que seja muito valorizada», sublinha.
Pousão refere ainda que «estamos a crescer na prestação de serviços», dentro dos limites previstos para as associações de utilidade pública sem fins lucrativos.
«Até agora, temos um apoio do Estado, que assegura um terço do nosso financiamento. E que esperemos continuar a ter», sendo que o resto é angariado, por exemplo, através de candidaturas de projetos a vários fundos europeus e pela prestação de serviços, cuja procura tem vindo a aumentar.
Algumas destas candidaturas, realizadas em consórcios, seriam de difícil acesso para as empresas de forma isolada. Com este papel dinamizador, o S2AQUAcoLAB constitui-se como uma mais-valia para a consolidação de uma base tecnológica de ponta no Algarve e no país.
Nos laboratórios colaborativos, em termos de divulgação científica, «não quer dizer que os colaboradores não publiquem artigos, mas a inovação que têm de fazer é para as empresas e pelas empresas. Podem e devem publicar ciência, mas não de forma a pôr em causa a propriedade intelectual» e as futuras patentes.
Resta acrescentar que o S2AQUAcoLAB é uma entidade reconhecida pelo Sistema de Incentivos Fiscais à I&D Empresarial (SIFIDE), estatuto que possibilita que as empresas que invistam possam deduzir uma percentagem da despesa contraída neste segmento, em sede de IRC.
Cumprir o desafio da economia do mar
Em termos genéricos, Portugal produz apenas cerca de 3% do pescado que consome e pouco mais de 5% da aquacultura consumida internamente. Tem uma dependência externa acima dos 70%, números que deixam o diretor do S2AQUAcoLAB apreensivo.
Apesar da sua longa costa atlântica, e de já ter empresas de excelência instaladas, algumas a operar com elevado grau de tecnologia instalada, e apesar de já haver toda uma massa crítica habilitada, o setor tarda em florescer no seu pleno potencial.
«A economia do mar tem de passar das palavras aos atos. Portugal ainda não consegue fazer um projeto estruturado a 10 anos, a estipular o que é que vai produzir, como e onde. Em 2007, tínhamos a meta de produzir 45 mil toneladas de pescado em aquacultura. Depois, reduziu para 35 mil. E para 2030, diminuiu ainda mais para 25 mil. Mas o país tem um défice de 400 mil toneladas», contabiliza Pedro Pousão.
No entanto, diz, há muitas áreas com potencial, mesmo à porta. «Temos um estudo muito importante que se chama ALREMAR. É um levantamento de todas as situações para a aquacultura no Algarve, no qual apontamos onde pode ser feita e, até, onde poderá melhorar o ambiente», e que identifica cerca de 1.500 hectares mapeados por um grupo de trabalho.
Muitas destas zonas continuam vedadas. Entre a ocupação turística e os constrangimentos de áreas sensíveis, a fragilidade do país no que diz respeito à autossuficiência alimentar do pescado mantém-se.
Pescado como salmão, camarão ou dourada chega sobretudo de outros países, enquanto o território nacional não decide quais os espaços litorais para a produção aquícola.
Comparativamente, «a Galiza, no último ano, aumentou em 45% a produção de aquacultura. Uma empresa em Cádis vai em breve produzir 5 mil toneladas de lírio, número que é mais do que toda a nossa produção de dourada e robalo. Portugal não pode viver a importar 70% do pescado que consome. Este paradigma tem de mudar. E se estamos a investir tanto em ciência e biotecnologia, precisamos de ter onde a aplicar», sublinha.
O responsável lembra ainda que o pescado é uma fonte de ómega-3 marinho, cuja importância para a saúde pública é fundamental, sobretudo num país cuja população está cada vez mais envelhecida.
A Ciência «nunca está fechada»
Em ciência, trabalha-se por passos. «Quando chegamos a um resultado, queremos avançar ainda mais. Portanto, todos os projetos são a continuação daquilo a que se chegou nos anteriores, para que haja uma evolução».
Com os fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), «tivemos de dar uma especial ênfase à dourada e ao robalo, em termos de IPMA e de S2AQUAcoLAB. No âmbito do Vertical Algas, que junta dezenas de empresas e instituições científicas, tivemos 36 ensaios. Por isso, reduzimos um pouco o tempo e atenção às outras espécies», revela Pedro Pousão.
Hoje, a dourada e o robalo são peixes acessíveis nas peixarias dos supermercados, graças a um longo historial de investigação e desenvolvimento que suporta esta indústria. Mas, segundo Pedro Pousão, ainda há muito por fazer para manter as produções sustentáveis. Há sempre margem para reduzir custos, melhorar os índices de conversão, reforçar a qualidade nutricional e aumentar o valor do pescado.
Além dos problemas causados pelas alterações climáticas, como o surgimento de novas doenças, também as rações são um constante desafio. «Não podemos, por exemplo, continuar a usar farinha de trigo, pois há alguns condicionantes, como o conflito na Ucrânia. A soja é utilizada na alimentação humana e hoje é muito contestada, devido à pressão sobre a Amazónia», exemplifica.
Produzir pescado ou bivalves de forma saudável, sem colocar em risco os ecossistemas e sem perder competitividade, é um processo em constante evolução.
O S2AQUAcoLAB está na vanguarda da aquacultura moderna, no desenvolvimento de circuitos de economia circular, no estudo de novos ingredientes nas rações para organismos marinhos, no melhoramento genético de espécies, entre outras áreas de estudo. «Portanto, isto nunca está fechado», remata.
À data desta publicação, e para cumprir alguns dos objetivos acima citados, o S2AQUAcoLAB está envolvido, em consórcio, em vários projetos financiados pelo Programa Regional ALGARVE 2030: Aqua4all; BetterFLAT; Inovacel; iOysters; Softcrab e Spa do Futuro.
Segundo o responsável, está também na calha mais uma candidatura aos fundos europeus geridos na região «para a continuação de um projeto no sentido de melhorar a qualidade do robalo e da dourada».
Refira-se que, em maio de 2025, o S2AQUAcoLAB tornou-se membro do Fórum Oceano – Associação da Economia do Mar. Segundo o responsável, foi «um passo estratégico».
A integração neste ecossistema abre a porta a novas parcerias, projetos conjuntos e contributos ativos para a formulação de políticas públicas e estratégias nacionais e internacionais. O Fórum Oceano é também o coordenador nacional da rede BlueTech Cluster Alliance e ponto focal de várias plataformas europeias dedicadas ao crescimento sustentável da economia azul.






