Apesar de estar a 2500 quilómetros do teatro de operações, o presidente da Câmara Municipal de Monchique, Rui André, conseguiu coordenar todos os meios afetos ao incêndio no concelho algarvio, no passado fim de semana, 3 e 4 de setembro, a partir de Itália.
«Não passei a coordenação a ninguém. Acionei as máquinas, os meios todos. Tinha cá as pessoas, mas estava em Roma e, mesmo fora do nosso país, assumi a coordenação de todos os meios no terreno», garantiu ao «barlavento» o edil, na terça-feira, 6 de setembro.
Chegaram a estar envolvidos no combate às chamas 415 operacionais, 122 veículos, cinco máquinas de rasto, quatro aviões, um Beriev russo, quatro helicópteros. Participaram na luta contra o fogo corporações de bombeiros de todo o Algarve, reforçados por soldados da paz que se deslocaram de Lisboa, Beja e Évora, três pelotões militares do Exército Português, operacionais da Autoridade Nacional de Proteção Civil, meios materiais e humanos dos Serviços de Proteção Civil de Monchique, Portimão e Silves, militares da Guarda Nacional Republicana e do GIPS, Polícia Judiciária, a ER1 da Força Aérea, Afocelca (Agrupamento de Empresas que integra o dispositivo nacional de defesa da floresta contra incêndios florestais), Sapadores florestais e outras entidades.
O balanço, ao fecho desta edição, embora ainda sem dados oficiais para suportar a estimativa, é de que a área ardida atinja os 300 hectares, contabilizou o autarca.
O incêndio, que começou depois das 17 horas de sábado, alastrou pela encosta sul da Fóia, «prolongando-se depois uma frente na direção das localidades de Gralhos e de Almarjão, sem que chegasse a essas zonas. A outra frente chegou à zona do Vale Figueiras e Maçarotal», afirmou Rui André. As chamas intensas e visíveis em diversos pontos, na noite desse sábado, levaram a que os residentes nos Casais e arredores chegassem a temer o pior.
«Para já, a zona onde foi consumida mais área é de mato e de terrenos agrícolas que não estavam cultivados. Estavam abandonados. O difícil foram as zonas de eucaliptal, muito consolidadas, que são de acesso arriscado com meios terrestres», esclareceu Rui André. Colocar um carro de bombeiros nesses locais, pode colocar em perigo a vida dos soldados da paz, pois podem ficar encurralados pelas chamas.
«São manchas contínuas de eucaliptal, que só podem ser atacadas, em caso de incêndio, com meios aéreos. Por isso é que este apoio foi fundamental», em particular o avião russo, mobilizado no domingo, para Monchique.
O outro problema é que na encosta sul da Fóia há muita habitação dispersa, com vivendas e casas, o que levou à dispersão também de meios para «colocar um carro quase praticamente em cada casa», resumiu o autarca, que a partir da capital italiana movimentou e coordenou máquinas de rasto, meios aéreos e bombeiros para evitar o pior no seu concelho. Foi, contudo, necessário evacuar pelo menos duas pessoas por prevenção, uma idosa e um residente com mobilidade reduzida.
Já após a luta contra as chamas, Rui André sobrevoou de helicóptero, esta terça-feira, dia 6, a área ardida e constatou que «há casas que só não arderam, porque estavam lá os bombeiros ou o avião russo, que permitiu salvar esses bens, senão tinha ardido tudo», relatou. O Beriev russo fez diversos abastecimentos na Barragem de Santa Clara, enquanto os helicópteros e os outros meios aéreos faziam ataques táticos ao incêndio, em cadência rápida.
Mesmo hoje, ao fecho desta edição, ainda estão no local 107 bombeiros, 114 militares do Exército distribuídos por cinco pelotões e vinte agentes do comando, GNR e serviço de proteção civil.
Rui André confirma que, caso não tivesse sido possível afetar tantos recursos, a situação poderia ter sido muito mais dramática. «Felizmente não há a lamentar perdas de vidas, nem outros prejuízos de maior e idênticos. Foi mais uma área de eucaliptal do que o resto, mas podia ter sido muito mais dramático, porque as condições no terreno, a temperatura e as condições» não ajudaram a dominar o incêndio. As chamas foram dadas como dominadas ao final da tarde de domingo, dia 4.
Fóia a preto e branco
Incêndio lavrou mais de 24 horas na encosta sul da Fóia, chegando até perto dos Gralhos. Apesar de dominado no domingo, ao final da tarde, na madrugada de segunda-feira, as chamas ainda se reacenderam.
Foram horas de aflição para os habitantes na encosta sul da Fóia, com as chamas a chegarem perto das casas. Quase no topo da serra, no domingo, nada mais restou senão uma neblina de fumo, cinza e um intenso odor a madeira queimada. A encosta ficou pintada a preto e branco, entre troncos e rocha calcinada.

Mas tudo começou muito antes. O alarme foi dado, já um incêndio na zona do Porto de Lagos, no concelho de Portimão, tomava grandes proporções, com uma coluna de fumo visível a quilómetros, por detrás do aglomerado de edifícios na cidade de Portimão. Eram 17 horas de sábado, 3 de setembro. O primeiro alerta tinha sido dado minutos antes.
No horizonte surgiam duas pequenas riscas brancas na zona das Caldas de Monchique e outra no topo da Fóia. Os incêndios começaram em intervalos de pouco mais do que uma ou duas dezenas de minutos, o que levantou a suspeita de fogo posto.
Um homem de 49 anos, residente em Loulé, foi detido em flagrante, pela Guarda Nacional Republicana, quando tentava atear fogo no ponto mais alto do sul de Portugal.
Por essa altura, já chegavam reforços de outras corporações da região ao Porto de Lagos, para auxiliar os Bombeiros Voluntários de Portimão. Como o «barlavento» constatou no local, o incêndio, junto à Estrada Nacional 124, que liga o Porto de Lagos a Silves, obrigou ao corte da via, junto ao acesso ao Aterro Sanitário do Barlavento, com as autoridades a desviar o trânsito, de novo, para Portimão. Foram mobilizados, pouco depois do primeiro alerta, segundo a informação disponibilizada pela Alta Autoridade da Proteção Civil, numa primeira fase 86 recursos humanos, 28 recursos técnicos e dois meios aéreos.
Ao Porto de Lagos foram chamados os Bombeiros de Monchique. Sorte ou coincidência, ao descerem a serra viram que havia outro foco de incêndio junto ao antigo Ômega Parque. Rui André disse que «o incendiário em prisão preventiva tinha acabado de atiçar fogo naquela zona por cima do antigo parque. Assim que os bombeiros apagaram aquele, olharam para cima, para a zona das Caldas, e estava a arder. Ele deve ter subido mais um pouco, pegou fogo lá e continuou para a Fóia», conta o presidente da Câmara Municipal de Monchique. A área consumida não chegou a um hectar naquela zona. Já na Fóia a previsão aponta para muito mais…
Homem aguarda julgamento em prisão preventiva
O homem, com 49 anos, residente em Loulé e empregado de mesa, confessou ter ateado fogos na zona de Monchique, ficando em prisão preventiva a aguardar julgamento. Segundo a procuradoria da comarca de Faro, «no âmbito de um inquérito que corre termos na secção de Portimão do DIAP de Faro, o Ministério Público apresentou a primeiro interrogatório judicial um indivíduo por suspeitas da prática de crimes de incêndio na zona de Monchique, um dos quais assumiu grandes proporções», na segunda-feira, 5 de setembro.
Por haver perigo de continuação da atividade criminosa, o juiz «decidiu aplicar ao arguido a medida de coação de prisão preventiva. O processo prossegue os seus termos no Ministério Público do DIAP de Faro, com a investigação a cargo da Diretoria do Sul da Polícia Judiciária», refere a mesma nota.