Refood nasceu em Lisboa em 2011, no auge da crise, e não demorou a chegar ao Algarve, onde hoje tem quatro núcleos. A ideia é simples. Voluntários recolhem os excedentes alimentares, em diversas fontes, e distribuem-nos por quem mais precisa. No Natal todos vão mais longe. A prioridade são as crianças e uma ceia digna para todos.
Alexandra Brito, engenheira civil, viu uma notícia na televisão e contactou os responsáveis da Refood. Queria que a ideia chegasse ao sul do país. Estávamos em 2014, nos últimos tempos da troika de má memória. Brito visitou alguns espaços em Lisboa e contactou Hunter Halder, o fundador da Refood.
A 15 de fevereiro de 2015 começaram a ser distribuídas as primeiras refeições, recolhidas junto de restaurantes, padarias, pastelarias, supermercados e hotéis do concelho de Loulé. Dois anos depois, após vencerem o Orçamento Participativo, receberam uma casa pré-fabricada e todo o recheio para este trabalho.
Hoje, o núcleo de Almancil tem 50 voluntários e 25 fontes de alimentos. Juntos apoiam 37 pessoas, sendo que nove são crianças, num total de 500 refeições mensais.

«A realidade de Almancil é bastante heterogénea. Tem várias comunidades estrangeiras que são muito fechadas e depois temos a franja litoral. Há algumas situações de pessoas sem-abrigo, mas que são temporárias. Temos algumas famílias, e a maior parte dos nossos beneficiários são indivíduos de leste que estão sozinhos, com trabalho precário e em situação ilegal. Também acontecem oscilações, há beneficiários que deixamos de apoiar, mas que depois acabam por voltar por diversas razões. E também temos vindo a receber inscrições de pessoas com pobreza envergonhada. Mesmo sendo uma comunidade pequena, somos privilegiados porque somos muito apoiados pelas autarquias locais e pelas empresas», diz ao «barlavento» a coordenadora do núcleo, Alexandra Brito.
Com o aproximar da quadra natalícia, os voluntários estão a preparar algumas surpresas. «Falámos com as famílias e descobrimos o que as crianças gostavam de receber pelo Natal. Contactámos alguns privados que vêm cá satisfazer esses pedidos. Vamos ainda oferecer um cabaz com produtos alimentares a cada família, que é também uma doação generosa de um casal estrangeiro», revela.
Apesar de liderar o núcleo há quase cinco anos, Brito ainda se deixa comover. «Um grupo de crianças da escola primária tinha agendado uma visita às nossas instalações. Um dos alunos da turma era nosso beneficiário. Fomos alertados pela professora para essa questão. Não queríamos expor a criança, nem que se sentisse discriminada perante os colegas. Facto é que durante a visita, o rapaz sentiu-se à vontade de falar com os colegas e deixou uma mensagem escrita aos voluntários que dizia que a Refood era inesgotável e que fazia parte da vida dele»…

O que pediria para 2020? «Mais voluntários e parceiros. Não temos despesas, porque as contas estão a cargo da Câmara Municipal de Loulé e o acesso à Internet é uma parceria entre a MEO e a Refood nacional. Os produtos de limpeza são patrocinados por uma empresa regional e o espaço onde estamos é cedido pela Junta de Freguesia de Almancil. Sentimo-nos muito apoiados por todos, mas sem voluntários, vai continuar a existir desperdício e pessoas com fome. Há dias mais difíceis, mas é algo que abrange todos os núcleos», diz.
«Com uma pequena ajuda, podemos fazer a diferença. Não estamos aqui para salvar o mundo, mas se conseguirmos ajudar nem que seja uma pessoa, já vale a pena o esforço», conclui.

Em Faro, cada vez mais jovens precisam de ajuda
Na capital algarvia, a Refood inaugurou a 14 de maio de 2016, depois de uma procura de dois anos por um espaço, que acabou por ser cedido por um particular que simpatizou com a causa. Arrancou com 15 parceiros e hoje são já 57 regulares, com destaque para o Forum Algarve e Aeroporto de Faro.
O número de voluntários varia. São cerca de 183, mas regulares e certos rondam as oito dezenas, de todas as faixas etárias. Ajudam 58 famílias, isto é, 108 adultos e 28 crianças entre os dois meses e os 18 anos. Apoiam também 11 pessoas sem-abrigos e há ainda 20 pessoas em lista de espera.

Carlos Reis, que se considera voluntário profissional e Paula Matias, uma agente de documentação automobilística, são os coordenadores do maior núcleo do Algarve. Segundo a voluntária, em Faro, a maioria dos beneficiários têm «rendimentos muito baixos. Em algumas famílias só entra um ordenado. Temos também vários exemplos de pessoas que nunca tiveram dificuldades, mas que de um momento para o outro ficaram desempregadas. Há até uma família que era nossa parceira e que agora são beneficiários. Felizmente, temos tido muitos casos que estão connosco alguns meses e que depois acabam por equilibrar a sua vida. Começámos foi também a aperceber-nos, de há uns meses para cá, que há cada vez mais jovens em Faro a precisar de ajuda».
«Comia duas vezes por semana e dormia nos bancos da urgência do Hospital de Faro. Era sem-abrigo. Chocou-me imenso porque ele estava apresentável, falava fluentemente inglês e até pensei que fosse um voluntário que vinha inscrever-se. Esteve numa instituição e quando atingiu a maioridade quis conhecer a mãe, mas a realidade não foi a que ele esperava. Fiquei tão perturbada que lhe dei seis baguetes de panados e ele comeu-as de seguida. É uma realidade muito chocante. Acabámos por inseri-lo na sociedade e até hoje não voltámos a saber dele», relembra Paula.

Foi precisamente o caso de um jovem de 18 anos que ficou marcado na memória de ambos os coordenadores.
Uma realidade que tem vindo a aumentar no último ano. Isto porque, segundo Carlos, «Faro tinha outras respostas sociais que entretanto fecharam. Sentimos um impacto muito grande e este ano, a procura aumentou. Mesmo que se diga que as coisas estão a melhorar, noto muito mais procura, sobretudo em relação ao ano passado», estima.
De acordo com Paula, «este mês excecionalmente, lançámos um apelo nas redes sociais para a comunidade nos ajudar na elaboração de cabazes. Entre os voluntários, estamos ainda a angariar roupa, em perfeito estado. A juntar a isso, um grupo juntou-se e vai oferecer uma prenda a cada criança. Algo que também já temos feito nos outros anos, e vamos repetir agora, são as refeições do restaurante Mavala, que oferece o almoço de dia 24 de dezembro, na Santa Casa da Misericórdia de Faro, e o de dia 25 nas suas instalações. É um ambiente diferente daquilo que estão habituados até porque somos nós, os voluntários, que os servimos. Este ano há ainda outra surpresa, houve um parceiro nosso que nos contactou e que faz questão de oferecer o jantar de dia 22 a todos», diz.
À semelhança de Almancil, também o núcleo de Faro prepara um Natal diferente para todos os que o procuram.

A Refood de Faro, tem, contudo, um problema. Precisa de «um espaço maior e voluntários», afirma Carlos. «O ideal seria termos 250 permanentes, mas temos uma problemática que é o verão. Muitos estudantes vão de férias». O que ajuda a ultrapassar as dificuldades, conta Paula, é a «união do grupo. Quando há falta, há sempre alguém que faça mais um turno».
Outra necessidade mensal do núcleo são as verbas para pagar as despesas da água, luz e combustível da carrinha oferecida pela marca Lidl.
«Há quem tenha tudo pago, mas nós não temos. Por mês, temos um gasto que oscila entre os 250 e os 350 euros. Já pedimos ajuda à Câmara Municipal de Faro, mas dizem que não há verbas. O que fazemos para colmatar esse problema é organizar eventos com parceiros. Por exemplo, o Moto Clube de Faro organizou um concerto em que o valor do bilhete revertia para a Refood», explica Paula.

A voluntária conta que o projeto «fez-me ver uma realidade que até antes não era evidente. Acho que isto nos torna mais humanos».
Para Carlos, a motivação passa pela questão do desperdício alimentar. «Sempre foi uma questão impensável para mim. Não consigo ver comida a ir para o lixo. Mexe muito comigo. Quando percebi que ia haver este projeto em Faro, soube que tinha de fazer parte dele. Vivemos numa sociedade habituada a que as coisas sejam imediatas e fáceis de alcançar. Não damos valor a quase nada. Olhamos para a comida como um bem adquirido, e não pensamos na realidade de outras pessoas. Essa foi a principal razão. Depois, fui ficando porque fez sentido».

VRSA entrega 350 refeições por semana
Vila Real de Santo António (VRSA) tem o mais recente núcleo Refood no Algarve. A vontade começou a maturar no final de 2017, pelas coordenadoras Helena Vitória e Tânia Marques, colegas de trabalho na ação social do município. A 13 de outubro de 2018 foi então inaugurado o espaço situado numa garagem da Docapesca.
Dois meses passados, o núcleo conta com 54 voluntários, 24 parceiros e 83 beneficiários, que se traduzem em 38 famílias, 18 crianças, 10 sem-abrigo e 19 pessoas em lista de espera.

Segundo Helena Vitória, o número de beneficiários tem vindo a crescer exponencialmente. «Começámos com 19 e agora disparámos para mais de 80. São valores muito elevados em tão pouco tempo. Não estávamos à espera que isto tomasse umas proporções tão grandes. Temos lista de espera, mas a nossa vontade é de dizer logo sim às pessoas, mas não o podemos fazer de forma consciente se sabemos que a alimentação que temos não chega para todos», sublinha.
Apesar de terem pouco tempo de vida, há já um episódio que não vão esquecer. Num turno recente, «houve uma convergência de situações. Um sem-abrigo, pessoa bastante humilde e pacata, acabou por desabafar connosco algumas tentativas de suicídio. O que nos encheu o coração foi que na última tentativa, já o núcleo estava aberto. Ele referiu que pensou em nós porque sabe que todos os dias tem alguém que o oiça. Não é só entregar a comida. As pessoas precisam de outro tipo de alimento, que não o do estômago».
Tânia complementa. «Veio cá uma mãe de família cujo marido não encontra emprego e por isso vai embora em janeiro. Chorou connosco. Nesse dia demos também um microondas a uma pessoa e o sorriso dele marcou-nos. Foi emocionalmente muito forte».

Para a época natalícia que se avizinha, a Junta de Freguesia de VRSA vai oferecer à Refood um bolo-rei para ser entregue a cada família. «Atendendo às dificuldades que o município atravessa, o apoio que nos é possível dar, eles dão. A junta já nos passou inclusive um cheque. Sentimo-nos muito apoiados», afirma Tânia.
Quanto às restantes despesas, o grupo de VRSA participa em mercados, com a venda de roupa e objetos em segunda-mão, em que cada um oferece o preço que acha justo. Dessa maneira conseguem pagar a luz, a água e a gasolina.
O que faz, neste momento, falta ao mais recente núcleo do Algarve são «voluntários e parceiros. Precisamos de mais restaurantes para que possamos incluir as pessoas que estão em lista de espera. Já entregamos cerca de 350 refeições semanais, mas precisamos de mais», revela a responsável.

Albufeira desespera por um espaço
A Refood de Albufeira em nada se compara às outras. Abriu em Algoz, em 2014, mas acabou por ter de ser extinta devido à falta de voluntários, há cerca de ano e meio. Quem ficou, chegou à conclusão que a melhor estratégia seria a mudança para Albufeira. Foi feita uma reunião sementeira e centenas de pessoas inscreveram-se para ser voluntárias do novo núcleo. Materiais, inclusive a carrinha, transitaram todos para a cidade. Também não faltam parceiros com vontade de encaminhar os seus excedentes alimentares a quem mais precisa. No entanto, nada funciona porque não há um espaço para a acolher o núcleo.

«Já falámos com várias entidades públicas como as autarquias. Já falámos com a paróquia, com os bombeiros, particulares, fundações, comunidade estrangeira e até à data ainda não conseguimos encontrar um local onde pudéssemos exercer este trabalho. Neste Natal apelamos a que alguém nos ajude. Temos beneficiários, temos voluntários, temos material. Só nos falta mesmo um espaço, que nem precisa de ser muito grande. Temos vontade de trabalhar e motivação, mas sem sede é impossível», aponta Paulo Agualusa, coordenador do núcleo.
A autarquia diz que «não têm espaço, mas que procuram alternativas. A primeira reunião foi há ano e meio, a segunda há cerca de dois meses e a resposta foi igual. Dizem que têm liquidez financeira e que estão a tentar arranjar. Não achamos que seja má vontade, mas ainda não tivemos a sorte de chegar à pessoa certa».
Questionado pelo «barlavento», José Carlos Rolo, presidente da Câmara Municipal de Albufeira, revelou vontade de ajudar. «Pensei que o processo estivesse mais adiantado. Vou com certeza fazer esforços para que isso aconteça. Nem sempre é fácil encontrar instalações e há mais associações com a mesma necessidade».
E o que leva a que um engenheiro continue empenhado, depois de ano e meio de luta sem resposta? Paulo Agualusa responde. «Fui escuteiro 20 anos e o espírito de ajudar os outros sempre esteve comigo».

Uma ideia que surgiu à mesa
A ideia de criar um projeto social, de ajuda ao próximo, surgiu na cabeça de Hunter Halder, um imigrante em Lisboa há 29 anos, enquanto jantava num restaurante com as suas filhas.
«Estávamos sentados ao lado da mesa das saladas e a minha filha mais velha perguntou-me qual seria o destino daqueles pratos no final da noite. Respondi que iam para o lixo. Pensei que era uma vergonha e que toda a comida teria o mesmo fim por falta de uma alternativa. Foi aí que se fez luz na minha mente e idealizei a Refood. Percebi que era necessário mobilizar imensas pessoas. Em três meses lancei o projeto», revela o fundador ao «barlavento».
«Em 2009 fiquei desempregado e comecei a pensar numa outra carreira. Percebi que não tinha muito mais carreiras para fazer aos 59 anos. Fiz muitas coisas, mas sempre tudo para mim e nada pelos outros. Essa foi a primeira decisão». Assim, em 2011, abre o primeiro núcleo da Refood, na antiga freguesia de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa. Oito anos depois e o número quase que chega às seis dezenas.

No Algarve «temos quatro estrelas»
O fundador da Refood, Hunter Halder refere-se às coordenadoras que incentivaram à abertura dos núcleos no Algarve, como «estrelas».
«A nossa história está cheia de pessoas assim e cada núcleo começa sempre porque há alguém com a vontade que elas tiveram. São grupos diferentes, com capacidades diferentes e necessidades diferentes, mas todos fazem a nossa missão o melhor possível. Estou muito orgulhoso do trabalho feito na região algarvia», afirma ao «barlavento».
Uma região que em breve pode ter mais dois núcleos, um em Tavira, outro em Portimão, o primeiro no Barlavento.
«Já estive em Tavira e já temos uma equipa de pioneiros que se preparam para a reunião sementeira em fevereiro. No caso de Portimão, é um estrangeiro que está motivado para o projeto, mas precisa de mais pessoas. No início de 2020 vamos começar a tratar disso. Serão os primeiros passos até à abertura», explica Hunter.
Projeto português que já se internacionalizou
Quando Hunter Halder teve a ideia de iniciar com a Refood sabia que teria de ser um projeto que se pudesse replicar por outras partes do mundo. «Essa sempre foi a minha ideia e a verdade é que as condições da Refood são universais. Todas as comunidades do mundo têm comida a ir para o lixo todos os dias. Todas as comunidades têm pessoas que não têm alimento. E também têm pessoas cheias de boa vontade e disponíveis para fazerem a ponte entre excesso e necessidade», refere Hunter ao «barlavento».
Este ano nasceu a primeira equipa fora de Portugal, Madrid. «Já estão a servir a comunidade. Ainda não têm centro de operações, mas já estão a resgatar comida e a entregar numa instituição que ajuda refugiados. Faltam ainda parcerias, mas estão no começo», revela o fundador.
Também Itália se prepara para acolher os primeiros núcleos. Neste caso são «seis equipas que estão no início da sua jornada, em três cidades diferentes. A nossa esperança é que comecem a trabalhar», conclui.