Com um toque sul-africano, a Quinta dos Santos, em Carvoeiro é a prova de que o vinho português e a cerveja podem mesmo misturar-se.
Pode-se tirar o homem do país, mas não o país do homem. Ou, neste caso, da família. Depois de duas gerações nascidas na África do Sul, uma família portuguesa decidiu regressar às origens para concretizar o sonho de viver numa vinha. Desde que chegaram, já plantaram a sua própria vinha com castas portuguesas e construíram uma adega moderna à qual acrescentaram algo especial: uma cervejaria de última geração.
Este negócio familiar foi criado por Eugene e Ann dos Santos, que vieram para Portugal em 2015 e desenvolveram o projeto de raiz. Situada entre Lagoa e Ferragudo, a adega que Ann projetou assemelha-se a uma típica quinta portuguesa à qual foram acrescentadas janelas contemporâneas de grandes dimensões.
Neste cenário único, as oliveiras ancestrais fazem contraste com as paredes caiadas de branco e são uma peça central de destaque no pátio interior. Dentro do edifício, dois elementos saltam à vista: o preto, a cor preferida da Ann, e os hexágonos, utilizados para contar uma história em todos os seus designs. Segundo Ann, estas formas que parecem pedras preciosas representam este «precioso projeto», o seu «tesouro», que é também o nome da gama premium da Quinta dos Santos. Até na adega, as grandes cubas de cimento foram feitas em forma de diamantes e pintadas de preto.
Ann explica como começou esta aventura: «O meu sogro nasceu em Alfama e mudou-se para a África do Sul quando tinha 12 anos». Duas gerações mais tarde, o filho de Ann e Eugene, Greg, decidiu mudar-se para a Europa, e a família seguiu os seus passos. «Quando vivíamos na Cidade do Cabo, sonhávamos em viver numa vinha. Por isso, quando nos mudámos para Portugal, decidimos comprar um lote pequeno e plantar uma pequena vinha para ocupar o tempo… e uma coisa levou a outra», explica, bem humorada.
«O Greg decidiu juntar-se a nós e ele queria produzir cerveja. Então, fez um estágio com um mestre cervejeiro na Cidade do Cabo. Nós organizámos a cervejaria e deixámos o resto nas mãos dele».
Agora que o projeto está a ir de vento em popa, Ann e Eugene decidiram afastar-se e deixar o Greg assumir o comando. Hoje, é responsável por gerir a vinha de 3,2 hectares com uvas das castas Malvasia Fina, Sercial, Arinto, Verdelho, Touriga Nacional, Negra Mole, Sousão e Bastardo – sendo estas duas últimas pouco comuns na região. Com estas castas, são produzidas cerca de 25 mil garrafas de vinho por ano e, em breve, vão começar a produzir azeite graças ao novo olival que ocupa um hectare.
O primeiro vinho da Quinta dos Santos, o Escolhido 2018 tinto (8 euros), foi feito com uvas importadas – Negra Mole, Castelão, Muscat Preto e Aragonez. É um vinho muito frutado, com taninos suaves e notas de especiarias, e está disponível até ao lançamento de um novo Escolhido tinto, feito com as suas próprias uvas, no próximo ano.
Embora o Escolhido seja o seu vinho de entrada, é produzido em pequenas quantidades e elevados padrões. O rosé (9 euros) é uma mistura delicada e elegante de Touriga Nacional e Negra Mole, com uma cor de casca de cebola, notas de toranja e morango, e uma ótima salinidade e acidez.
O Colheita Selecionada branco (10 euros), uma mistura das quatro castas brancas, evidencia um agradável sabor salgado, resultado da brisa do mar que sopra nas vinhas e da salinidade e mineralidade do solo costeiro.
Já o Espumante (13 euros) é um Blanc de Noir feito com Negra Mole, 100 por cento fermentado e envelhecido em ânforas novas. Tem deliciosos sabores de brioche e de pastelaria resultantes da levedura, que permaneceu dentro da garrafa durante três anos.
Com os seus rótulos elegantes e sofisticados, a gama premium é o orgulho da adega. «Brincamos com a gama Tesouro», explica Ann. «Distribuído entre barricas e ânforas, é um pouco mais criativo e especial». Os brancos incluem um Arinto refrescante (21 euros) com boa acidez e notas de casca de maçã verde e um blend de Malvasia Fina e Sercial (21 euros), mais gastronómico do que o Arinto, com sabores de caramelo e café.
Entre os tintos, o Sousão (32 euros) é o mais popular. «Tem notas de carvalho suaves que lhe conferem sabores de compota, ameixa e frutos escuros. Fica bem com pratos de inverno, como risotto ou bochechas de porco», sugere Greg, que sublinha que, apesar das suas notas ricas, não é excessivamente tânico e deve ser servido a 15ºC.
Fermentado e envelhecido durante um ano nas ânforas antigas, o Bastardo (28 euros) é o único tinto monovarietal desta casta no Algarve. «As ânforas de 150 anos são revestidas com resina de pinho e cera de abelha, o que confere ao vinho sabores de mentol e eucalipto. Tem uma acidez elevada e uma cor clara, mas é uma bebida muito complexa».
Feito para ser servido fresco, o Negra Mole (24 euros) é «totalmente fermentado e envelhecido em tanques de aço inoxidável para realçar a pureza da uva» com os seus sabores frescos de cereja e morango. As novidades para o próximo ano incluem um Tesouro Espumante, um novo Negra Mole e mais surpresas na adega.
Do outro lado do pátio, Ann diz que a produção de cerveja aumentou. «Está a crescer bastante». Agora que está encarregue de toda a operação, Greg conta com Matt Monteiro para gerir a cervejaria, um sul-africano de Joanesburgo que também tem raízes portuguesas. Atualmente, produz seis estilos de cerveja: Lager, Pilsner, IPA, Pale Ale, Amber Ale e Stout, «utilizando diferentes maltes e lúpulos para obter o sabor e o estilo pretendidos», explica o cervejeiro.
Ao portfólio da Quinta dos Santos, acrescenta-se ainda um gin que resulta da ambição do Greg de produzir algo «para fazer facilmente um bom gin tónico em casa». Foram produzidas três mil garrafas do gin herbáceo, com 13 componentes botânicos, e, segundo Greg, «a bebida perfeita é com tónica indiana e três fatias de maçã Granny Smith».
Todas estas opções são servidas no restaurante da adega, A Esquina, «o único canto de esquina do edifício», salienta Ann, e acompanham um menu sazonal baseado em ingredientes regionais. «Focamo-nos muito na região», insiste.
«Só plantamos variedades portuguesas e os sabores locais são servidos no restaurante. Queremos mostrar o Algarve». É também no restaurante que decorrem as provas de vinho, de terça a sexta-feira, duas vezes por dia. Estas vão desde uma degustação com tapas a visitas à adega e cervejaria, provando que a cerveja e o vinho podem realmente misturar-se.
Fotos: Louise Golding | Joana Santos | Elayna Bartolacci











