Os efeitos da destruição vão perdurar por toda a época balnear no Sotavento algarvio. «Na Culatra, a minha concessão ficou completamente destruída», lamentou Tiago Estrela Guerreiro, biólogo marinho e responsável da «Molhe Leste», concessionária de duas praias nas ilhas-barreira. «Este verão ficamos impedidos de trabalhar. Agora todo o areal está na zona intertidal, ou seja, quando a maré enche, não há praia», explicou.
Rui Nunes Ferreira, capitão do Porto de Olhão, confirmou os estragos. «A nível de infraestruturas, foi a mais prejudicada. No Farol, o areal ficou reduzido a 50 por cento. Na Fuzeta, os concessionários ficaram sem um terço da praia. A primeira fileira de sombrinhas desapareceu».
Tiago Guerreiro viu assim os seus planos irem por água abaixo. «Tinha planeado um investimento considerável na Culatra», cerca de 100 mil euros, «que terá agora de ser canalizado para o Farol», onde também possui uma concessão que não sofreu prejuízos de maior, com a intempérie.
A alternativa que antevê é «redirecionar todo o investimento, no qual o Estado também é parceiro. Mas não tenho licença de recreio náutico», indispensável para poder ali instalar paddles, gaivotas a pedal e outros divertimentos.
«Se não for possível, por exemplo, por via de licenças provisórias, são as duas concessões que estão em causa», explicou. Com a época em vésperas de abrir, durante o passado fim de semana, o empresário juntou um grupo de voluntários para limpar e recolher cerca de três toneladas e meia de destroços e lixo. Os salvados ficaram espalhados num raio de 3,5 quilómetros do local original.
«A questão é que se previa um mar com cerca de 2,6 metros. À meia–noite, quando me fui deitar, já havia registo de 4,7 metros de ondulação. Tínhamos estado na Culatra na manhã anterior, a reforçar toda a estrutura», esforços que de nada valeram.
O capitão do Porto de Olhão admite que agora tem «ali uma preocupação. O concessionário não pode explorar a praia na Culatra, mas as pessoas vão para lá na mesma». Em relação ao apelo da «Molhe Leste», Rui Ferreira garantiu que está «a averiguar com o apoio jurídico, soluções para que não fique mais prejudicado».
«Como o novo Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC) ainda não foi aprovado, o que estava previsto este ano, era todas as concessões novas ficarem sem efeito. E só para o ano é que se abriria concurso», esclareceu.
De acordo com o POOC, a ilha da Culatra tem três concessões: Culatra, Farol Leste e Farol Oeste. Foi concedida ainda uma outra, a título excecional no Farol, a poente do Farol Oeste. «Isso tem a ver com a reposição de areias, de modo a termos nadadores–salvadores em todo o areal. A praia tinha 120 metros e passou a ter 450. Agora quem investiu ali, não sei se vai conseguir abrir. Tinha pedidos para 30 sombrinhas e neste momento só deve dar para 10», concluiu Rui Ferreira.