«É uma grande honra estar entre os trabalhos de excelência dos meus colegas. Sinceramente nunca imaginei», confidenciou Mário Cruz, vencedor português do World Press Photo (WPP), ao «barlavento». Quando em 2009 fotografou as eleições presidenciais na Guiné-Bissau começou «a ouvir histórias de crianças que desapareciam». Passados alguns anos, em busca de respostas, tirou uma licença sem vencimento e encontrou «uma realidade que nem sequer pensava que existia, no Senegal, para onde são levadas muitas crianças traficadas. Encontrei um método de ensino alterado e subvertido, que antes era respeitado e seguido por imensas famílias», contou.
«A tradição talibé assenta numa boa educação através do Corão. Mas o facto das famílias pobres não terem como a proporcionar aos seus filhos, originou esta situação. Ao longo da última década, surgiram falsos professores corânicos, que se aproveitaram da tradição. Não enquanto método de ensino, mas como uma forma de rendimento. E a ganância foi tão longe que as crianças senegalesas já não chegavam e, por isso, o tráfico estendeu-se» aos países vizinhos.
Tudo começa quando «falsos professores corânicos vão a casa das famílias mais pobres e prometem educar as crianças. Muitos pais tiveram uma boa aprendizagem no passado e confiam. Não imaginam que neste momento há crianças acorrentadas, a serem chicoteadas, espancadas e abusadas fisicamente todos os dias. As crianças, na maioria entre os 5 e os 15 anos, são obrigadas a mendigar todos os dias e a obter quantias de dinheiro impossíveis. Muitas não sabem de que países são, nem quem são as suas famílias. Têm marcas físicas e estão muito debilitadas. E apesar de ser uma imagem recorrente também é uma imagem muito ignorada. Todos passam pelas crianças como se não as vissem ou não existissem», lamentou.
Perante este cenário, Mário Cruz constatou que seria crucial conseguir «testemunhos». «Depois de saber o que se passava, não podia ignorar e olhar para o lado. A prova seriam as fotografias e isso podia ser um começo para a mudança», contou.
Presas em edifícios devolutos, onde «nunca ninguém imaginaria que lá dentro estão dezenas de crianças a serem escravizadas». Para aceder a estes locais proibidos, teve de fazer investigação durante meses e estabelecer uma rede de contactos de confiança.
Numa das ocasiões, Cruz escondeu-se e aguardou para entrar. Saltou um muro e captou algumas das imagens em exposição na WPP. Numa missão como esta, «não se pode estar num estado totalmente consciente, senão nunca o faria. O sítio era proibido e a rede criminosa. Mas também não posso ter medo de fazer o correto», sublinhou.
«Após as primeiras três fotos as crianças ficaram assustadas e tentaram fugir. Mas como estavam acorrentadas, não conseguiam… Foi complicado. Depois tentei fugir, mas fecharam as portas da cidade. Para ser sincero entrei um pouco em pânico. Acabámos por encontrar uma saída e consegui fugir com uma prova crucial que me permite contar o que se passa com estas crianças. Hoje não me arrependo», até porque já dezenas foram resgatadas. Também o governo senegalês solicitou as suas fotografias para uma campanha de sensibilização que irá percorrer o país.
«Talibés: modern day slaves»
É o nome que dá mote à série de fotos em exposição na WPP e ao novo livro que irá lançar. «O livro mostra todo o trabalho sobre as crianças talibés. Enquanto na WPP foram distinguidas oito fotografias, no livro estarão cerca de 70, cada uma legendada. O livro estará disponível em português, inglês, francês e árabe, e será distribuído gratuitamente por escolas, bibliotecas e associações locais no Senegal e Guiné-Bissau, «para que da próxima vez que lhes baterem à porta, as pessoas se certifiquem que as crianças não vão para uma rede de tráfico e exploração infantil. Espero ainda que o livro sirva como uma forma de pressão dos vários governos, presidentes e autoridades porque se uma das desculpas era a falta de provas, agora que as temos, há que usá-las da melhor forma possível». A partir de setembro o livro estará disponível para compra nas lojas FNAC.
Uma emocionante surpresa
Cruz lançou a sua própria exposição de fotografias em Gabu, na Guiné Bissau. «Uma das cidades que mais sofre com o tráfico de crianças», explica. «E foi muito emocionante porque nessa exposição estavam à minha espera crianças que já tinham sido resgatadas. Eu não sabia… foi uma surpresa…! Eu sei que só com isto não resolvo completamente o problema, mas é bom saber que contribuí de alguma forma para estes resgates», concluiu. A reportagem fotográfica sobre a escravatura em escolas corânicas valeu ao fotojornalista português Mário Cruz, o primeiro lugar na categoria da «Temas Contemporâneos», na 59.ª edição da World Press Photo. Este ano concorreram 5775 fotógrafos oriundos de 128 países.
World Press Photo: um sucesso mundial
«Todos os anos organizamos cerca de 90 exposições anuais», explica Erik de Kruijf, o produtor holandês responsável pela gestão da exposição da World Press Photo em Faro. Kruijf é um dos seis organizadores mundiais. «A exposição circula pelos mais diferentes locais como galerias, museus, mas também shoppings ou até mesmo estações de comboios e passa pelos cinco continentes do mundo, desde a Nova Zelândia, até Tóquio, Canadá, Austrália ou Rússia».
World Press Photo retorna após cinco anos de ausência
«É um orgulho voltar a ter a World Press Photo pela mão do Forum Algarve», refere Sérgio Santos, diretor geral deste shopping. «Ao longo dos anos temos trazido eventos diferenciados e que permitem que a visita a um centro comercial seja também de lazer ou cultural. Queremos proporcionar experiências únicas. Acreditamos que este é um serviço que proporcionamos à comunidade e aos turistas, que podem aliar às componentes da praia, bom clima e gastronomia, um pouco de cultura».
Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro, explica que a estratégia passa por «apostar em eventos sustentáveis e que sejam repetidos ao longo do tempo para fixarem públicos e afirmarem Faro enquanto capital e concelho de notoriedade. Esta exposição cumpre estes dois vetores e queremos mantê-la por cá nos próximos anos». «Neste momento, temos de agradecer ao Forum Algarve o fato de ter trazido esta exposição até nós e assumir os custos». A exposição está patente na praça central do Forum Algarve, até ao dia 7 de agosto entre as 10 horas e a meia-noite.