O «barlavento» conversou com Carlos Pacheco, que começou por dizer que começa a ser cada mais difícil escrever os quadros. Porquê? Porque as televisões saturam tanto as pessoas com os acontecimentos, que se torna difícil fazer humor acerca dos mesmos. E que, à velocidade a que aparecem e desaparecem, corre o risco de já estarem desatualizados, quando a revista chega ao público.
Carlos Pacheco – Dei comigo, este ano, a lembrar-me do Sócrates, quando escrevia os quadros. Era o que me enchia a cabeça. Para dar um exemplo, tenho um quadro que é a prisão; de Évora, logicamente. Agora, imagina que escrevia o quadro com o Sócrates preso e que, quando o apresentar, já não está?
Qual é o tema fulcral da revista, este ano? O BES?
Carlos Pacheco – Não gosto de salientar só uma situação. Mas o BES será bem focado, porque me roubaram dinheiro. Se não me tivesse tocado, como a muitos portugueses, nesta coisa das ações e das aplicações, talvez passasse ao de leve. Mas, assim, tenho de fazer um quadro sobre aquilo. Porque fomos enganados por todos aqueles que nos garantiram que era ali o local mais seguro para depositarmos as nossas economias ou reformas.
E podemos saber em que moldes?
Com humor, porque a última imagem que as pessoas têm do banco é a rábula do Ronaldo e da D. Inércia. Com a divisão em banco bom e banco mau, para onde é que vai cada um deles? E, na globalidade da revista, vamos usar as personagens da Alice no País das Maravilhas, para poder espelhar, numa só frase, os imensos casos que temos vivido. Depois, seguimos a linha já habitual, com canções alegóricas a cada tema. Iremos dos submarinos aos vistos gold, passando pela religião, até porque a crise fez aumentar a fé das pessoas e as ligou muito às igrejas.
Sempre tratados na perspetiva do humor?
Sim, porque a minha preocupação é que as pessoas saiam daqui bem dispostas. É fundamental que as pessoas não estejam sentadas a tentar perceber qual foi a mensagem. O público, hoje, é muito heterogéneo, com várias classes sociais e muita juventude. E eu não quero que percam tempo a pensar, enquanto podem estar a rir sobre o quadro. Por exemplo, vamos ter uma casa de banho pública, coisa que não há muito nas nossas cidades. E ouvir as conversas que têm lá lugar. E, com tantos concursos na televisão, também vamos ter um em palco.
E o nome?
«Achas que sabes gamar?» Já pensaste o que era fazer um concurso na televisão e colocar lá todos os tipos que já fizeram falcatruas neste país? Acho que seria giríssimo.
A revista deixou, há muito, de ser uma revista de carnaval…
Não gosto dessa associação, porque fiz todos os esforços e criei os ingredientes e fiz todos os investimentos para que, hoje, não me envergonhasse de ter lá «Revista à Portuguesa». Fui, durante muitos anos, o defensor de que não a deveríamos chamar assim, enquanto não tivéssemos lá os principais ingredientes. De há uns anos para cá, é «à portuguesa» e tenho grande orgulho em afirmar que é um excelente espetáculo, segundo nos dizem as pessoas que cá vêm.
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As obras e as diversas atividades que o Boa Esperança alberga atrasaram a execução dos cenários e é por estes que começo, pois o Flávio está a desenhar e a pintar cada vez melhor, com grande imaginação, ao nível de qualquer cenógrafo profissional, em qualquer local, tendo criado imagens maravilhosas que, por si só, valem o preço da entrada. Também as duas costureiras habituais, Esmeralda e Antónia, voltam a criar um guarda-roupa de grande nível.
Adriana Marques continua a dar voz aos temas inéditos e haverá duas homenagens: uma à Ivone Silva e outra aos pintores, dos grandes a nível mundial aos portugueses, onde está incluso aquele que muito colaborou com as revistas do Boa Esperança, no passado: Júlio Amaro. Luís Vieira é, uma vez mais, o compositor musical.
Seguindo as tendências internacionais, o brilho do espetáculo não assentará nas tradicionais plumas e lantejoulas. Será idêntico, com as devidas proporções orçamentais, ao que se vê em Londres, Paris ou Madrid. O final será algo extravagante e maravilhoso, segundo Carlos Pacheco.
O corpo de baile é composto, em exclusivo, por elementos da escola de formação de danças de salão da coletividade, com exceção do coreógrafo. Este, o Kiko, não participará nos espetáculos, porque vai para Londres, onde tem trabalhos agendados. Também os atores e atrizes serão os habituais. Embora vários artistas e bailarinos do panorama nacional se tenham oferecido para trabalhar, como a Mariema, a opção foi continuar com o elenco local que tornou este espetáculo famoso e atrai espetadores das mais diversas localizações a sul do Tejo, em excursões organizadas. Pessoas que consideram a Revista à Portuguesa do Boa Esperança superior ao que se faz, atualmente, no Maria Vitória, tanto no campo artístico, como no plano técnico.