O dia 5 de Abril de 1476 é uma dessas datas. Foi nesse dia que Portimão deixou de ser uma localidade disputada e se tornou, por direito próprio, na Vila Nova de Portimão com senhorio, com autonomia, com futuro.
Há datas que passam. E há datas que ficam marcas na história, não porque o calendário as marca, mas porque dizem algo de essencial sobre quem somos e de onde viemos. O dia 5 de Abril de 1476 é uma dessas datas. Foi nesse dia que Portimão deixou de ser uma localidade disputada e se tornou, por direito próprio, na Vila Nova de Portimão com senhorio, com autonomia, com futuro.
Hoje celebramos 550 anos desse momento. E confesso que não me fica bem passar por esta efeméride em silêncio.
Sou portimonense. Nasci aqui, cresci aqui, escolhi ficar aqui quando podia ter ido. E há uma coisa que aprendi sobre a nossa cidade ao longo destes anos: temos uma história extraordinária que não sabemos contar. Temos um passado rico que raramente convocamos para pensar o presente. Temos efemérides que merecem praça cheia e que ficam, demasiadas vezes, apenas nos livros e nas notas de rodapé.
A criação do Senhorio de Vila Nova de Portimão, entregue a D. Gonçalo de Castelo Branco em 1476, não foi um acto administrativo menor. Foi o fim de décadas de disputas com Silves — que reclamava jurisdição sobre este território — e o início de um processo de afirmação que transformou Portimão numa das vilas mais dinâmicas do Algarve.
O porto tornou-se um dos mais importantes do país. A população cresceu. A muralha substituiu a antiga cerca. A cidade expandiu-se para lá dos seus próprios limites, como se o crescimento não conseguisse esperar por autorizações. Há qualquer coisa de muito portimonense nisto, nesta incapacidade de ficar parado, neste impulso de ir mais longe do que o previsto.
O ano de 2026 concentra uma densidade histórica que raramente acontece.
Celebramos os 550 anos da criação do Senhorio, mas também os 550 anos da sagração da Igreja Matriz que foi construída por iniciativa popular em 1467, num gesto que diz muito sobre o carácter desta terra. Os 300 anos da Quinta da Donalda. Os 150 anos da inauguração da Ponte Rodoviária. São efemérides distintas, com histórias diferentes, mas com um fio condutor comum: a capacidade que os portimonenses sempre tiveram de construir, de persistir e de fazer avançar a sua cidade mesmo quando os ventos sopravam contra.
Digo isto como portimonense. Mas digo-o também como autarca e é aqui que a efeméride deixa de ser apenas celebração e se torna responsabilidade. Porque 550 anos não se comemoram apenas com cerimónias e descerramento de placas. Comemoram-se com a consciência de que somos herdeiros de algo que vale a pena continuar. Com a pergunta honesta sobre o que fazemos hoje que seja digno de quem nos antecedeu. Com a ambição de que, daqui a cinquenta ou cem anos, alguém olhe para 2026 e reconheça que foi aqui que Portimão voltou a acreditar em si própria.
Porque há uma tensão que me acompanha e que não posso ignorar quando falo desta data. Portimão tem uma história de quinhentos e cinquenta anos de afirmação, de resistência, de crescimento que superou expectativas. Tem um porto que foi referência nacional. Tem um centro histórico com memória e identidade. Tem gente com raízes fundas e vontade genuína de ver a sua cidade prosperar. E tem, ao mesmo tempo, décadas de gestão que não estiveram à altura desse legado. Décadas em que o potencial ficou por cumprir, em que a cidade foi gerida à semana em vez de pensada a décadas, em que se administrou o presente sem visão para o futuro.
Este aniversário é, por isso, uma oportunidade rara. Não para nostalgia porque a história não se habita, visita-se. Mas para ancoragem. Para percebermos, com clareza, que a cidade que cresce para além das suas muralhas em 1476 é a mesma que hoje precisa de crescer para além das suas limitações.
Que o impulso que trouxe pessoas de toda a região a construírem juntas uma Igreja Matriz é o mesmo que hoje precisamos para construir uma cidade com habitação digna, com mobilidade que funcione, com um centro urbano que não envergonhe a sua história.
Os 550 anos de Portimão não são um fim. São um espelho. E o que vemos nele depende muito da coragem com que nos decidimos olhar.
Que esta efeméride nos encontre à altura do que celebramos.
Parabéns, Vila Nova de Portimão!
Carlos Gouveia Martins