Há muito que Portimão precisa de virar a página da improvisação. Diria até que precisa de escrever uma nova história para lá de 50 anos dos mesmos.
O tempo da política de manutenção esgotou-se, e a cidade e o concelho não pode continuar refém de respostas avulsas, sem rumo definido, sem metas claras e sem coragem para pensar mais longe. Gerir à semana, a pensar no ciclo mediático ou no calendário eleitoral, talvez mantenha a aparência, mas falha no essencial: melhorar verdadeiramente a vida das pessoas.
Ao longo dos últimos anos, temos assistido a uma sequência de promessas que se repetem, planos que se anunciam mas não se concretizam, e problemas estruturais que se arrastam como se fossem inevitáveis. Não são uma missão impossível. Longe disso. Falta planeamento, falta visão, falta capacidade de decisão estratégica — e isso tem um preço alto: um concelho que deixou de crescer, uma juventude que parte para outros concelhos, um território que deixou de liderar e podia ser o expoente maior da região.
O planeamento estratégico não pode ser uma palavra bonita em relatórios ou em discursos. Tem de ser uma prática constante de quem lidera. E isso implica saber para onde se quer ir — com metas mensuráveis, com envolvimento da comunidade, com compromisso com o futuro.
Exige capacidade para investir em soluções reais, e não em medidas avulsas para responder à polémica do momento. Exige visão. Exige conhecimento para planear as políticas do território. Exige estudar como a gestão local deve ser feita, de forma dinâmica, percebendo como as lideranças nacionais e globais estão a avançar com bons exemplos.
Veja-se o caso da habitação: durante anos ouvimos que ia haver construção pública, reabilitação urbana e parcerias para habitação acessível. Mas o que existe, na prática, não acompanha a escala do problema. A maioria dos jovens de Portimão não consegue arrendar ou comprar casa no concelho onde nasceu. E se não conseguimos dar resposta a esse direito fundamental, como esperamos fixar talento, atrair investimento ou construir uma cidade coesa e inclusiva?
Ou na mobilidade, onde se anunciam planos e estudos, mas não se executa uma verdadeira transformação urbana. A cidade continua a crescer desordenadamente, sem transportes públicos eficientes ao paralelo que é a vida laboral e académica de quem cá está, sem vias cicláveis funcionais, sem resposta às necessidades reais de quem cá vive — e não apenas de quem cá passa no verão.
Pior: continuamos sem estratégia para responder à pressão crescente sobre o trânsito urbano, particularmente nas principais artérias da cidade e nas freguesias.
Portimão tornou-se um território onde a circulação é caótica em demasiadas zonas, e o sentimento generalizado de desorganização do espaço urbano contribui para a percepção — legítima — de que a cidade perdeu qualidade de vida.
A questão não é só trânsito: é a ausência de um plano coerente que organize o crescimento da cidade, valorize o espaço público e devolva às pessoas uma sensação de tranquilidade e pertença nos seus bairros. Sem isso, não se constrói cidade — constrói-se descontentamento. Temos de construir a sensação de maior segurança.
E depois há os episódios que dispensam qualquer comentário — como os despacho recorrentes, agora há outro, que isenta de pagamento o estacionamento tarifado em várias zonas da Praia da Rocha nos meses de abril, maio e outubro.
A justificação? Obras na zona e «baixa ocupação». Mas em ano de eleições, a gestão à semana vai mais longe: até os parquímetros tiram férias. Não por estratégia, mas por puro populismo. Fica-se sempre com a sensação de que há mais tática eleitoral do que visão urbanística. Se houvesse planeamento, era escusado este tipo de despacho anual (nunca esquecido em ano de eleições) porque tudo funcionaria de forma regular sem precisar de eternas exceções para inglês ver e portimonense sorrir uns dias.
Portimão precisa de mais. Precisa de coragem para reformar, de ambição para liderar, de capacidade para planear a próxima década — e não apenas reagir ao próximo ano. É com esse espírito que acredito que a maioria dos portimonenses pensa ser possível uma nova forma de fazer política local: com pensamento estratégico, com participação cívica, com políticas públicas que não se esgotem em anúncios.
Portimão tem talento, tem recursos e tem tudo para voltar a ser uma referência regional e nacional. Falta-lhe apenas uma coisa: uma liderança diferente e pessoas com visão de futuro que não estejam presas no passado que já passou.
E é por isso que também me bato, e que partilho no nosso barlavento ideias, posições e opiniões há 20 anos — com convicção, com conhecimento do território, e com um profundo respeito por esta terra. Portimão merece mais do que gestão à semana. Merece planeamento a décadas.