O secretário-geral do PCP defendeu hoje a necessidade de um Conselho de Estado sobre as desigualdades e não sobre segurança nacional, avisando que a «maior insegurança» das pessoas está no seu vínculo laboral e nos baixos salários.
Em declarações aos jornalistas à porta da empresa Bimbo, em Mem-Martins, Sintra, Paulo Raimundo foi questionado sobre a proposta de realização de um Conselho de Estado sobre a temática da segurança nacional, como pediu o líder do Chega, André Ventura, ao Presidente da República.
«Nós precisamos é de um Conselho de Estado para discutir o problema da injustiça, da desigualdade e dos salários e das pensões. Esse sim é o grande tema da agenda, a que é preciso dar resposta, e é curioso que, para já, sejamos os únicos a falar disso», respondeu o secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP).
Para Paulo Raimundo, «a vida da maioria está difícil e a maior insegurança das pessoas não está na percepção da insegurança, está na insegurança do seu vínculo laboral, do seu baixo salário, de chegar ao final do mês porque a pensão não chega, na insegurança de ir a uma urgência e não ter médico para responder».
«Essa é a maior insegurança que o nosso povo e a maioria enfrentam. É essas que é preciso resolver e é nisso que nós estamos profundamente empenhados», afirmou o secretário-geral do PCP.
Paulo Raimundo falava aos jornalistas durante uma ação de recolha de assinaturas, no âmbito da ação nacional do PCP intitulada «Aumentar salários e pensões, por uma vida melhor», para um abaixo-assinado que pede o aumento dos salários e das pensões e que será entregue ao primeiro-ministro, Luís Montenegro.
Paulo Raimundo acusou Montenegro de estar «sempre a apontar para amanhã» e a alegar que «é preciso criar riqueza hoje para amanhã distribuir», mas esquecer que «é a riqueza que está a ser criada hoje que é preciso distribuir».
«Nós não podemos encher a boca com ai, ai a pobreza que é verdadeira, ai ai as injustiças que são verdadeiras e depois aqueles que trabalham, aqueles que põem o país e a economia a funcionar, não terem melhores salários», afirmou.
O secretário-geral do PCP frisou que o novo ano começou com aumento dos preços na alimentação, nos combustíveis, eletricidade e habitação, referindo que, só na alimentação, registou-se uma subida de preços de «cerca de 27%» nos últimos três anos.
«Eu questiono qual foi a média de salários que acompanhou essa evolução. Não foi nenhuma. E é preciso responder a isso, essa é que é a questão fundamental», sustentou.
Questionado se o PCP mantém que o salário mínimo nacional deve ser aumentado para 1.000 euros este ano, Raimundo disse que isso é «uma evidência».
«É preciso um choque salarial que eleve de forma significativa as condições de vida», defende, considerando que são necessários salários que garantam uma melhor distribuição da riqueza e que permitam que a população consiga lidar com o aumento dos preços.
«Aqueles que enchem a boca com os amanhãs que nunca virão, gostava que vivessem um mês com 870 euros brutos e gerir a vida com 870 euros brutos para verem o quanto é urgente aumentar todos os salários e o salário mínimo para 1.000 euros», referiu.
Ontem, uma atualização de dados do projeto «Portugal Desigual», da Fundação Francisco Manuel dos Santos, revelou que Portugal permanece um dos países mais desiguais da União Europeia, com um quinto da população (2,1 milhões de pessoas) a viver em situação de pobreza ou exclusão social, tal como o barlavento noticiou.
Foto: Bruno Filipe Pires