O Processo Especial de Revitalização (PER) do Pavilhão de Congressos do Arade, no Parchal, foi aprovado pelo Conselho de Administração na reunião de quinta-feira, 12 de maio, segundo apurou o «barlavento». Com este documento, a direção prevê pagar 10 milhões de euros em dívida a credores, numa tentativa de salvar o equipamento considerado como fundamental para a região.
O espaço tem um histórico de «problemas complicados, uma dívida enorme e muito antiga, quase desde o início», ainda que nos últimos três anos a situação tenha melhorado, explicou ao «barlavento» Desidério Silva, presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA).
Conforme esclareceu também Pedro Lopes, administrador do Algarve do grupo Pestana, um dos associados do Pavilhão, «já foi nomeado um administrador judicial, o processo está a decorrer e tem prazos. Os credores têm que se pronunciar sobre a proposta e é nessa fase que o PER está. Os credores são o Novo Banco (cerca de 80 por cento dos 10 milhões), o Turismo de Portugal e as administrações de insolvência das empresas construtoras». Até aqui, o maior credor tem «mostrado compreensão e muita abertura», mas ainda falta colocar por escrito se aceita esta proposta. Já a entidade que promove o turismo deu luz verde ao PER.
Aliás, Pedro Lopes considera que a alternativa seria o fecho definitivo e a degradação do equipamento. «O que propomos é pagar em três anos, com carência de juros e capital. Depois, pagar em 21 anos a totalidade do capital em dívida. Ao contrário de muitos PER em que é pedido o perdão de 50 por cento, nós queremos pagar a totalidade», revelou ainda Pedro Lopes.
Para criar sustentabilidade, está em cima da mesa uma estratégia de promoção fora dos limites algarvios. «A RTA tem ajudado, assim como o Turismo de Portugal e a Câmara Municipal de Lagoa. Mas, no fundo, o espaço não está a ser vendido. Propomos criar uma estrutura comercial mínima, com um responsável de vendas e um promotor. Lançar um site de vendas, material publicitário, um (re)design da marca», contou.
No início, os privados aceitaram juntar-se a este projeto, pois pensaram que seria uma boa aposta, já que não havia nada semelhante. «A aposta atrasou-se, a Câmara de Portimão arrancou com o Portimão Arena, veio a crise… tudo se complicou», relembra Pedro Lopes. Na opinião do responsável do grupo Pestana, os privados querem apoiar a revitalização, pois «a alternativa é falir». O problema é que até esta data, o «retorno foi zero». Por isso este PER é fundamental. Os associados do Pavilhão de Congressos do Arade são a RTA, as Câmaras Municipais de Lagoa, Portimão, Silves e Monchique, o grupo Pestana, a Solverde, o Vila Vita, a Fundação Oriente, o Penina, o grupo Tivoli, o Jupiter/Amarilis, o NF (antiga Fábrica do Inglês), as Marinas do Barlavento e o Zoomarine.
Acumular de dívidas marca história do Pavilhão
A estrutura tem um histórico de gestão que fez com que a dívida chegasse aos 10 milhões de euros, sendo um dos exemplos apontados a antiga empresa municipal de Portimão – Eventos do Arade. Nesta questão, Rui André, presidente da autarquia de Monchique, lança algumas críticas, «porque é deliberado que aquela empresa só alugou o espaço para matar a concorrência do Pavilhão Arena. Não pagavam renda, alegando que a sala não tinha condições, o ar condicionado não funcionava, chovia no palco, argumentos que nunca aceitámos». Quando os associados perceberam o que se passava, «decidiram gerir o espaço», diz Rui André.
Já Joaquim Castelão Rodrigues, vice-presidente da Câmara de Portimão, também contactado pelo «barlavento», sublinha que a autarquia agora «tem cumprido as suas obrigações, pago as quotas, cobriu o aumento de capital. O executivo já pagou os 25 mil euros em dívida. E entendemos que aquela é uma estrutura de importância que tem que ser dinamizada», incluindo nas feiras internacionais como prevê o PER. O vice-presidente rejeita que, na atualidade, o Portimão Arena seja concorrente direto. «Acho que são complementares, pois o Arena é um multiusos, com três mil lugares sentados. Se for uma ópera tem que ser o Arade, se for um sarau de ginástica será o Arena», justificou.
Equipamento foi «subaproveitado»
A Câmara Municipal de Lagoa tem tentado aproveitar o equipamento para lhe dar visibilidade. «Nos dois anos e meio, desde que cá estou, pois não posso falar dos anos anteriores, tem havido um esforço muito grande para tentar que aquele espaço não caia. A Câmara de Lagoa abraçou essa causa, porque acha que é um equipamento estruturante para a região, não só para o concelho», afirmou o autarca lagoense Francisco Martins. São vários os eventos-âncora que a autarquia tem promovido, ainda que o edil admita que seria mais cómodo e barato realizar algumas dessas iniciativas no Auditório Municipal, para 300 pessoas. «Corremos riscos e vamos para uma sala com 900 lugares, que tem estado quase sempre esgotada».
Do ponto de vista de Rui André, autarca de Monchique, a infraestrutura, que seria um projeto intermunicipal, tem sido «subaproveitada». Outro dos pontos que Francisco Martins refere, até porque tem a sobrecarga de ter o equipamento no concelho ao qual preside, é a localização. «Olham para o Pavilhão do Arade e dizem: é em Lagoa. A partir desse momento, já não é problema de mais ninguém». «Ouvimos todos a falar do Algarve, a defender a região, todos achamos que tem que ser visto como um todo, agora falta é que, muitos dos que dizem isso, o sintam», opina Francisco Martins.
«Há ainda muito trabalho a fazer, mas já consigo ver hoje uma luz ao fundo do túnel, quando há dois anos havia apenas desespero». Aliás, o edil de Lagoa aponta como exemplo a atitude de Rui André. «Tem sido atento, preocupado e disponível para colaborar. E é o que está mais longe» do ponto de vista geográfico.
Rui André até queria usar mais o espaço. Mas a logística é complicada. «Fizemos o Festival de Dança Rítmica, e acabou por ser um prémio para os clubes locais. Transportámos as famílias e os participantes, mas não dá para muito mais», admitiu.
Muitas vezes, como há dias de utilização atribuídos a cada autarquia, até poderia ser ponderada a promoção de um concerto, mas, segundo Rui André, «não é rentável [no seu caso] fazer lá um concerto e esperar que a bilheteira dê para pagar ao músico».
Resta agora que o PER, a promoção nacional e internacional e a contratação de dois profissionais seja um sucesso. É que só com a visibilidade que a autarquia tem dado, «o pedido de orçamentos para utilização do Pavilhão tem vindo a crescer de dia para dia», concluiu Francisco Martins.