A pandemia, a pobreza e a necessidade de acolhimento aos imigrantes são notas dominantes de grande parte das mensagens de Natal dos Bispos católicos portugueses.
O Bispo do Algarve D. Manuel Neto Quintas, com os migrantes e refugiados em mente, apela, na sua mensagem para o Natal de 2021, à construção de «pontes no acolhimento de quem é diferente».
Dirigindo-se a todos «quantos, em tempo de Natal, sentis um apelo mais forte à construção da verdadeira fraternidade humana. A todos dirijo a minha mensagem natalícia, inspirada numa imagem recorrente do Papa Francisco: precisamos de pontes, não de muros, entre toda a humanidade, realidade que o Natal recorda e celebra».
«As pontes abrem-nos aos outros e ao mundo. Os muros limitam a liberdade, anulam os sonhos, obrigam-nos a viver como prisioneiros em celas construídas por nós próprios. Celebrar o Natal deve constituir para todos uma oportunidade para assumir a decisão de abater toda a espécie de muros, unir margens, comunicar, construir pontes, estabelecer uma relação com quem é diferente de nós, pela língua, cultura, religião… acolher e partilhar realidades novas, construir a fraternidade em todas as direções».
«Este apelo do Papa Francisco adquire reconhecida atualidade neste tempo, à luz das imagens recentes sobre a construção de muros (betão, ou arame farpado), em diversos países, para impedir migrantes e refugiados de fugir a uma sucessão interminável de guerras, conflitos, genocídios, limpezas étnicas, que continuam a persistir no nosso tempo. Anima-os o desejo de procurar uma vida melhor, unido, muitas vezes, ao propósito de deixar para trás o desespero de um futuro impossível de construir».
No texto, o prelado que lidera uma diocese onde, ao longo dos últimos meses, se verificaram alguns casos de chegada de imigrantes ilegais em embarcações precárias oriundos do norte de África, recorda as «imagens a que ninguém fica indiferente. São famílias inteiras, homens e mulheres, crianças, jovens e idosos, que procuram um lugar onde viver em paz, muitos deles decididos a arriscar a vida, numa viagem que se revela longa e perigosa, sujeitando-se a fadigas e sofrimentos, vítimas da exploração e da instrumentalização e, infelizmente, muitos encontrando a própria morte».
«Com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental. Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros».
«Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e beneficência, uma atenção vigilante e abrangente, a gestão responsável de novas situações que se vêm juntar a problemas já existentes, bem como a disponibilidade de recursos que são sempre limitados. Reconhecendo a complexidade deste problema, admitimos que nenhum país, mesmo com as melhores condições, tem a capacidade e a possibilidade de o resolver sozinho, face à sua urgência e amplitude, na procura de uma resposta que crie as condições exigidas para acompanhar, promover, integrar quantos procuram uma vida melhor», considera o prelado algarvio.
«Todos nós, cada um a seu modo e dentro do âmbito em que vive e trabalha, somos chamados a ser pontes no acolhimento de quem é diferente de nós. Esta fraternidade é consequência da conversão do coração, não se baseando unicamente numa igualdade de direitos. Dela nasce a amizade social, que se traduz no compromisso pessoal em construir um mundo mais fraterno. Importa, como tal, assumirmo-nos como protagonistas empenhados na transformação da realidade que nos circunda».
«Neste Natal convido-vos a, destruindo barreiras, curando medos, desfazendo preconceitos: acolher e socorrer os mais frágeis de todas as origens e proveniências; ter comportamentos cívicos responsáveis, em tempo de agravamento da crise pandémica; ser semeadores de esperança, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana», conclui D. Manuel Neto Quintas.
«Sem encontro e abertura a todos, em especial aos mais humildes, não poderemos encontrar Jesus», escreveu por sua vez António Moiteiro, Bispo de Aveiro, na sua mensagem para a quadra natalícia, apontando alguns desafios com que a Igreja se encontra confrontada: «o acolhimento aos que pensam de modo diferente e aos que andam afastados; a atenção redobrada a todas as situações que ferem a dignidade do ser humano, a começar pelos mais débeis e frágeis».
O prelado de Aveiro lembrou no seu texto «quem procure um salário mais justo para sustento da própria família; quem procure uma habitação condigna; quem procure reconstruir vidas; quem anseie por um mundo mais harmonioso e ecológico».
O administrador apostólico de Braga, Jorge Ortiga – que a partir de fevereiro será substituído à frente da arquidiocese por José Cordeiro, atual Bispo de Bragança-Miranda – apelou à construção de um mundo «mais irmão e solidário», face às consequências da pandemia, onde «tudo resulte da vontade de viver a caridade intensamente, não de um modo teórico, mas com gestos».
Nuno Brás, Bispo do Funchal, também deseja ver solidariedade com os mais necessitados, num tempo afetado pelo impacto da pandemia de COVID-19 e apela a que os católicos madeirenses vão ao encontro de Jesus «onde Ele se deixa hoje encontrar: nos pobres, doentes, aqueles que precisam» de ajuda.
Também o responsável pela diocese de Vila Real, Bispo António Augusto Azevedo, aproveitou a sua mensagem de Natal para mostrar a sua «solidariedade» aos que estão em situação de carência, pobreza ou desemprego.
Ao mesmo tempo, deixou uma mensagem «de esperança» aos migrantes, os que partiram da diocese para outras zonas do país ou do estrangeiro e os que, de outros países, procuram em Vila Real melhores condições de vida.
Por seu turno, o Bispo da Guarda, Manuel Felício, além do apelo à solidariedade, deixou um alerta para um problema que, de há muito, afeta as regiões do interior do país: a desertificação.
«Os últimos Censos revelaram grandes constrangimentos, somos menos em média, entre 5 e 10 por cento, com a agravante de ainda serem bastante menos percentualmente os que trabalham e podem garantir a natalidade que nos falta», o que evidencia a necessidade de criar condições, «nomeadamente de emprego, que permitam fixar (…) pessoas em atividade profissional, famílias com os seus filhos e outros que possam vir a ter», considerou.
Em Viana do Castelo, o recém-chegado Bispo João Lavrador, na sua primeira mensagem de Natal à diocese dirigiu-se aos «pobres e os excluídos», na esperança de que encarem a Igreja como sua «verdadeira casa» e nela se sintam «reconfortados e dignificados».
Numa sociedade que «ergue muros» e faz divisões entre «pobres e ricos, excluídos e instalados, poderosos e escravos, cultos e analfabetos, miséria e opulência», o anterior Bispo de Angra exortou a «novos comportamentos, novas atitudes e novas opções», rumo aos «caminhos da comunhão, da solidariedade, da fraternidade e da opção pelos mais frágeis e excluídos».
Na diocese de Leiria-Fátima, o cardeal António Marto, advertindo que o «Natal cristão não pode ser reduzido a uma festa social», pediu aos fiéis que, «a partir da dura experiência da pandemia», aproveitem para «construir uma vida nova e melhor».
O Bispo de Leiria-Fátima lamentou o espírito consumista da época, com muitos a tentarem «buscar a alegria na exterioridade das compras, das prendas, dos adornos das ruas e da diversão», e apelou à promoção da «fraternidade e (…) amizade social», tendo em conta que «a pandemia aumentou muito as pobrezas e desigualdades sociais».
Em Bragança-Miranda, o atual Bispo e futuro arcebispo de Braga, José Cordeiro, sublinhou que «uma vida sem gratidão é uma vida triste, que ignora a beleza do dom», defendendo que «a alegria do Evangelho», é o caminho «para ultrapassar as tensões mais duras e abrir as portas da cultura do encontro e da fraternidade universal».
Também o Bispo do Porto, Manuel Linda, foi claro na sua mensagem, ao exortar os cristãos da diocese a que, na sua vida, mostrem «o recolhimento, a harmonia, a ternura e a hospitalidade».