O navegador Osvaldo Maio, natural de Portimão, foi homenageado pelo seu percurso no Rally no primeiro grande evento da Associação de Desportos Motorizados do Sul (ADM Sul), a 7 de março, na Guia, na presença de atuais e antigos navegadores e pilotos do Algarve e Baixo Alentejo. Entrevistado pela filha, recordou momentos marcantes dos seus 17 anos de carreira.
barlavento: Com uma carreira de navegador de destaque, em que acompanhaste 14 pilotos, vamos recuar e perceber como te tornaste num dos melhores. Qual foi o primeiro contacto com o desporto automóvel?
Osvaldo Maio: Tudo começou quando era adolescente. O meu vizinho Jorge Rodrigues, que sempre fez autocross, desafiava-me a acompanhá-lo e a experimentar os carros antes das provas. Mais tarde, tornou-se piloto de Rally.
Como surgiu a participação na primeira prova de Rally?
Conheci o Paulo Moncóvio, natural de Lagos, que tinha o sonho de ser piloto. Comprou um Fiat 127 amarelo antigo porque, na altura, utilizavam-se carros sem homologação. Desafiou-me e aceitei.

Fazer parte deste mundo era também um sonho para ti ou aconteceu espontaneamente?
Aconteceu espontaneamente.
Como sabias quais eram as instruções a dar? Como aprendeste a ser navegador?
Aprendi com o António Morais, um dos mais antigos navegadores de Rally e de todo-o-terreno. Como era só para testar os carros e num ambiente descontraído, não foi complicado.
Nunca tinhas pensado em fazer provas de Rally?
Não, até porque te tinha a ti com dois anos.
E antes de eu nascer? Quando tiveste a experiência com o Jorge Rodrigues, não pensaste em entrar no Rally?
Não, porque na altura o Jorge fazia autocross, modalidade que não precisa de navegador, é prova de pista. Quando me juntei ao Paulo, em 1998, foi porque ele precisava de um navegador.
Começaram a competir sem que nenhum tivesse experiência?
Exatamente, começámos do zero ao mesmo tempo.
Qual foi a primeira prova que fizeram juntos?
A primeira prova que fizemos foi em Ourique, em 1998, e capotámos o carro porque batemos numa pedra ao fazer uma curva.
Esse incidente não vos deu vontade de desistir?
Não, claro que não. Reparámos o carro e voltámos a competir. Deu-nos mais adrenalina e esse ano correu bem. Ficámos em segundo lugar na Classe 1 no Rally de Monchique. No ano seguinte, arranjámos outro Fiat 127 preto, todo transformado pelo Paulo, e fizemos um bom campeonato na nossa classe. Depois, competimos juntos mais dois anos.
Esse é o resultado quando não se desiste?
Exatamente.
Que valores consideras que o Rally transmite ou incute?
São mais do que competições de velocidade e adrenalina. Aprendemos a ser resilientes e criamos muitas amizades. Apesar de haver concorrência, existe um grande espírito de união e entreajuda. Há um código de conduta que indica que sempre que há um acidente, ajudamos. Se algum carro estiver com algum problema no Parque de Assistência, qualquer equipa se dispõe a ajudar.
Acreditas que as pessoas levam esses valores que são incutidos no Rally para a vida?
Claro que sim.
Nunca pensaste em ser piloto?
Não. Em 1999, fiz uma prova de uma espécie de autocross, onde é hoje o Autódromo Internacional do Algarve (AIA), com o Fiat 127 amarelo, e correu-me bem. Sentia-me bem como navegador, mas é um desporto que requer muito esforço financeiro.
Quem consideras que tem mais responsabilidade? Quem dá as instruções ou quem conduz?
É uma equipa. Ambos têm um papel importante. Se o piloto não ouvir o navegador, não anda tão bem e se o navegador não der as notas que o piloto lhe indicou, é igual. O piloto precisa sempre do navegador e o navegador também precisa do piloto. Se não houver confiança, não funciona.

Com que piloto te sentiste mais à vontade? Quem é o piloto que consideras conhecer melhor?
O Paulo Nascimento. Fomos vice-campeões do Algarve em 2006 e sempre tivemos muita sintonia.
Foi o piloto com quem mais gostaste de correr?
Gostei de correr com todos os pilotos que fizeram parte da minha carreira. Todos são diferentes e com todos aprendi muito.
Que três momentos destacas?
A segunda prova que fiz com o Paulo Moncóvio, em Montegordo, o Rally Casinos do Algarve, integrado no Campeonato Nacional. O Rally de Monchique com o piloto espanhol Félix Rodrigues, no Troféu Opel Corsa. Entendemo-nos super bem, sem nos conhecermos. Era a última prova do campeonato que ele precisava de ganhar para ser campeão e conseguimos. Também com o Carlos Afoito vivi uma situação semelhante. Ao competirmos juntos pela primeira vez, fomos campeões da Classe 1 no Campeonato Nacional de Ralis, também em Monchique. Ele ficou sem navegador no final do campeonato e escolheram-me porque conhecia bem a zona.
Além do Félix Rodrigues, acompanhaste outros pilotos estrangeiros?
Sim, corri com o inglês Matthew Shean, num Opel Corsa.

Preferes realizar troços em sítios que conheces ou fora? O que te dá mais adrenalina?
Ir para fora, porque dá-me mais gosto tirar notas. Ainda que no Algarve sejam desafiantes e o mesmo troço possa ser feito com percursos diferentes.
Qual foi o troço que mais te marcou?
Um troço no Rally de Silves, que passa junto à barragem e é extremamente desafiante por ser muito acidentado e existir o perigo de cair na água. Apesar de ser da região, não o conhecia.
Falamos bastante de adrenalina, mas que outras sensações se sentem antes e durante as provas? Há medo?
Não existe medo, existe receio, que é completamente diferente. Antes do início das provas, sente-se sempre um formigueiro e ansiedade, mesmo após já ter participado em muitas. Depois de entrar no carro, somos o mais profissionais possível e o único foco é fazer o carro andar o melhor que conseguirmos, em conjunto.
E quando se termina a prova?
No final há dois sentimentos, de alegria e tristeza, dependendo do resultado que se consiga obter.
Independente do resultado, qual a sensação quando chega ao fim?
É um descarga grande de adrenalina e temos sempre vontade de repetir. O que nos faz ter vontade de voltar a competir é mesmo essa adrenalina que se sente quando se passa a última bandeira.
Esse é o exemplo de quando se conclui a prova com sucesso. E quando há imprevistos e isso não acontece? Não desmotiva?
Não, dá-nos alento para fazer melhor. Muitas vezes são problemas mecânicos. Numa prova em que até os milésimos de segundo contam, não há tempo para a atenção dispersar, requer muita concentração. Estamos completamente focados na estrada e nas notas. A ajuda do navegador e a confiança que transmite são muito importantes para conseguir ganhar todos os milésimos de segundo.
Quem tem de confiar mais? O piloto no navegador ou ao contrário?
O piloto tem de confiar de olhos fechados no navegador. Apesar de as notas serem tiradas entre os dois, o navegador tem o dever e a obrigação de fazer o piloto andar ao máximo, ajustando as notas e analisando as situações no momento.
Quais são os três fatores mais importantes a ter atenção quando se tira as notas?
As características do carro, do terreno e do piloto.
Qual o conselho que dás a quem está a começar?
Não desistir. Perceber onde houve falhas, corrigir e continuar.
Eu cresci contigo a fazer Rally. Sendo que é um desporto que exige tempo, dedicação e acarreta riscos, como é que é conjugar esta prática com a família?
É simples. Sempre tive o apoio da família, nunca me disseram para não o fazer, até que fui operado à coluna e tive de parar.
Se não fosse isso, terias continuado?
Tinha condições para continuar.

Foste homenageado no primeiro grande evento da ADM Sul, na presença de 56 antigos e atuais pilotos e navegadores de Rally. Como foi voltar a ver todos os pilotos que acompanhaste ao longo da carreira? E como foi lidar com os convites para regressar?
Foi muito gratificante. Foi ótimo voltar a ver a maioria dos pilotos que acompanhei. É uma grande alegria reunirmo-nos todos e recordar bons momentos.
Como é que é sentir que estes anos são reconhecidos no mundo do Rally?
Só tenho a agradecer à ADM Sul, ao Jaime Falcão, presidente da direção, e ao Ricardo Teodósio, presidente da mesa da assembleia e piloto de renome a nível nacional. Foi uma excelente ideia reunir diferentes gerações de pilotos e navegadores que se admiram.
Fotografias: Beatriz Maio / Open Media.







