O Serviço de Ginecologia/Obstetrícia da Unidade de Portimão do Centro Hospitalar do Algarve (CHA), organizou, na semana passada, um curso de formação em Ginecologia Geral, que contou com a visita de apoio de Jaime Teixeira Mendes, presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, na quinta-feira, 6 de outubro.
Segundo este dirigente, cirurgião pediátrico, após uma conversa com «os médicos no hospital de Portimão, vimos dificuldades de se manter o serviço de urgências. Isso está a acontecer um pouco por todo o país, devido ao tipo de escalas, em que tem de haver um descanso compensatório dos internos. No fundo, não há médicos suficientes para a encher as urgências, o que começa a ser uma situação grave», disse em entrevista ao «barlavento».
«Está provado que há médicos formados a mais em Portugal, mas há médicos a menos a trabalhar no Serviço Nacional de Saúde, porque imigram ou vão para o setor privado. Este ano temos de ser justos, porque os concursos» de admissão «foram rápidos», o que permitiu a colocação de 900 médicos jovens. Contudo, «não basta admitir médicos em início de carreira, mas também manter os seniores, senão, em breve, não haverá formadores», considerou. Em relação aos 149 internos que estão desde janeiro no Algarve, Jaime Teixeira Mendes considera que poucos ficarão.
E não acredita que a solução para o problema se resolva apenas com incentivos financeiros. O responsável defende atrativos como a aposta na formação, ao exemplo do curso de formação em Ginecologia Geral, que terminou no sábado, em Portimão. «Se se conseguir que com estes cursos, os jovens tenham melhor formação» nas zonas periféricas «e a possibilidade de construírem uma carreira, penso que será um atrativo maior do que apenas os incentivos monetários, pois nunca poderemos competir com países que oferecem salários muito maiores».
Outra solução «é que durante as formações específicas para especialistas, haja um período de tempo de trabalho numa unidade hospitalar» fora dos grandes centros urbanos. «No final, poderá haver uma compensação na nota final. Por exemplo, alguém que está a fazer Cirurgia Geral em Santa Maria, se fizer um ano no Algarve, poderá ter uma classificação final maior», exemplificou.
«Uma das grandes razões dos médicos não quererem ficar é não verem o seu futuro estruturado. Qualquer pessoa ambiciona progredir e, um dia, poder vir a chegar a chefe de serviço», exemplificou, criticando a política de contrato individual de trabalho que trouxe a precariedade à profissão.
Questionado sobre a nova administração do CHA, Jaime Teixeira Mendes diz que não encontrou «melhorias. O que os colegas me disseram é que não há gestores com conhecimento financeiro suficiente para corrigir os erros. Por outro lado, percebo que até ao final do ano vão debater–se com um problema muito grave ao nível de compras de material, pois há uma restrição da tutela» em todo o país.
Sobre os protocolos de colaboração entre o Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN) e o Centro Hospitalar do Algarve (CHA), «não conheço bem o funcionamento. O que me pediram foi para eu intervir junto do Colégio da Ortopedia para dar a idoneidade formativa a Portimão». «Uma das bandeiras do Ministério é o livre acesso dos cidadãos, mas se a pessoa tem poucas posses, como é que vai fazer consultas em São José se vive na ilha da Armona? Isto não é solução», afirmou. «O importante é fixar, ou dar condições a médicos seniores para que formem um serviço idóneo e que venham internos formar-se aqui. Senão, não vejo outra forma de quebrar este ciclo vicioso. E o Algarve precisa de um bom serviço de ortopedia, até para o próprio turismo», considerou.
Ainda sobre a região, «a única coisa positiva que posso dizer é que a ligação entre os Hospitais e os Centros de Saúde está a funcionar muito melhor. Há maior disponibilidade quer de um lado, quer de outro. Também já não há internos a trabalhar 25 horas de seguida», concluiu.
Centros hospitalares foram «grande erro»
Em janeiro, quando Jaime Teixeira Mendes deu as boas-vindas aos 149 internos que então iniciaram a sua formação nas unidades de saúde algarvias, deixou também claro ao «barlavento» que a Ordem dos Médicos apoiava uma eventual reversão do processo de fusão do CHA, mantendo todos os serviços e valências nos hospitais de Faro, Portimão e Lagos, tal como antes. Hoje, não pode ser acusado de incoerência. «Todos os médicos continuam a dizer é que este centro hospitalar, no caso do Algarve, acabou por destruir dois hospitais que funcionavam relativamente bem. Os estudos apresentados por economistas mostram que não há uma poupança financeira, e acho que tem que se saber andar para trás», voltou a frisar. «Foi um erro grande. No norte alentejano, em Portalegre e Elvas, não funciona de maneira nenhuma. No oeste, entre Caldas da Rainha e Torres Vedras, é só guerras», exemplificou.