Criatividade – o seu valor económico e o quanto é pouco percebido

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Nos últimos anos, as diretrizes para o ensino secundário em Portugal centraram-se nas áreas da matemática, tecnologias e ciências, subalternizando disciplinas de criatividade, expressão e pensamento crítico.

Paradoxalmente, os relatórios da OCDE mostram que os resultados já evidenciam um consenso crescente sobre a urgência de a educação cultivar a criatividade e as habilidades de pensamento crítico dos alunos, de forma a prepará-los para serem bem sucedidos em economias modernas e globalizadas, baseadas em conhecimento e inovação.

A falta de visão de longo prazo que tem imperado nas políticas de educação obriga a que hoje estejamos numa fase de necessária mudança.

A urgência em alterar o que têm vindo a ser as prioridades curriculares nas escolas tem consequências sobre a preparação dos nossos jovens para os novos desafios, onde temos de ser empreendedores, onde já não existem empregos para toda a vida, onde os espaços de trabalho são partilhados, onde a nossa capacitação é um resultado formativo em complementaridade com softskills (determinação, liderança, transformação, objetividade, etc.) e onde a capacidade de desenhar futuros é uma verdadeira arma para a diferenciação. Se já existem alguns sinais desta mudança, ainda muito está por fazer.

No contacto que tenho tido com as escolas secundárias da região do Algarve, verifico uma grande desacreditação do potencial da área cientifica das artes/criatividade, orientando-se os alunos para os cursos técnico profissionais de base computacional, nos quais nem a disciplina de desenho faz parte do plano curricular. Como é possível implementar uma ideia se não a soubermos «desenhar»?!

Como podemos ser criativos se não formos capazes de desenhar/organizar na nossa mente uma ideia e de a tangibilizar/visualizar para que outros a entendam?! Como desenhar futuros e ser parte ativa no desenvolvimento e no potenciar o dia de amanhã, quando não nos forneceram as ferramentas necessárias para sonhar o depois de amanhã?!

Nesta fase do ano em que os alunos têm de tomar decisões importantes sobre o seu futuro, onde são postos à prova, deixa-se de lado o mais importante; uma profunda reflexão sobre a função das atividades profissionais que os cursos formam e a sua real função no futuro.

Vamos então ver os números sobre a área de Indústrias Culturais e Criativas (ICC). Representa no PIB nacional 3,6 por cento (2016), sendo a sua proliferação territorial na área metropolitana de Lisboa, a área onde existe uma maior concentração de empresas ligadas ao sector: 46,3 por cento; Norte com 25,6 por cento; Centro 15,6 por cento; Algarve 4,6 por cento e Alentejo 4,2 por cento.

É evidente e clara a necessária transformação do sector na região do Algarve tendo em consideração o potencial turístico. (1)

No último relatório da Direção-Geral das Atividades Económicas onde é fortemente destacado o cruzamento entre o turismo, a cultura e a criatividade; com destaque central pela sua emergência das grandes economias (obrigando também estas a procurar novos fatores competitivos e de diferenciação), são evidentes os subsectores de Teatro, Música, Dança e outras atividade artísticas e literárias com 22691 empresas, e outras atividades criativas com 22867 empresas.

Não podemos continuamente descredibilizar estas áreas, quando os números são reveladores, ainda mais quando desta forma conseguimos identificar pontos fortes e diferenciadores dos outros sectores económicos.

Segundo o relatório «é um sector constituído maioritariamente por indivíduos, microempresas e PME que trabalham em cadeias de fornecimento complexas, que combinam atividades comerciais com atividades pré-comerciais (ou mesmo anticomerciais) e que dependem, em grande parte de redes informais por onde fluem as ideias criativas. Constitui muitas vezes negócios de nicho altamente especializados que criam valor pela conjugação de inovação tecnológica e criatividade no desenho de novos produtos culturais. Os seus ativos são invisíveis e voláteis: talento, reputação e marca e grande parte da infraestrutura crítica a estes negócios é exterior às empresas. Apresenta um perfil de negócio pouco reconhecido pela banca, investidores e governo, sendo por vezes desvalorizado em detrimento de outras atividades consideradas mais rentáveis».

Em suma, o sector criativo é de facto uma área de futuro, onde necessitamos de jovens qualificados com pensamento critico para áreas como o Design, Arquitetura, Artes Plásticas, Fotografia, Teatro, Performance, Agentes Culturais… mas aqui falamos em particular do Design e do contributo que esta disciplina tem nos diversos sectores.

Design, um anglicismo que foca o ato de desenhar, de estruturar o pensamento visual, de articular conceitos, de tangibilizar ideias. É uma área que em Portugal está em franco crescimento e que internacionalmente já não pode faltar nos recursos humanos de qualquer sector, tornando-se os profissionais do design tão vitais como um gestor, um financeiro ou um técnico de informática. Face aos desafios competitivos numa era que a inovação é o ativo mais valioso para o crescimento económico, ter um designer na equipa é meio caminho andado para resolver diversas questões que vão muito mais além do que «desenhar bonecos».

O designer é aquele que sonha, desenha, inova, envolve, questiona, constrói, transforma, posiciona, transgride, diversifica, ativa, mobiliza e volta a sonhar.

É necessário sensibilizar a sociedade para estas transformações e para o valor da criatividade.

É urgente envolver diretores de escolas, professores, pais e jovens para que se valorize o valor de uma área que pode contribuir, e muito, para o desenvolvimento contínuo e sustentado de uma região através da capacitação de jovens para se enfrentarem as flutuações económicas e constante transformação dos mercados.

Um território como o Algarve, que tem o turismo como foco central no seu desenvolvimento económico, não pode estar à espera de determinadas diretrizes centrais e sazonais para se desenvolver.

Copiar modelos pré-existentes de outros territórios não nos torna singulares e, a prazo, destrói a procura. Investir na inovação para a construção de uma oferta diferenciadora dos restantes mercados turísticos, investindo nos jovens, elegendo o sector educativo como pilar para o crescimento de uma região, irá permitir diversificar experiências e liderar o sector na competitividade com outras regiões e países.

É urgente pensar em cenários de futuro e o design tem um papel fundamental… tema a desenvolver no próximo artigo.

Susana Leonor | Diretora da Licenciatura de Design de Comunicação do ISMAT- Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, Portimão