Cenários de futuro – construção de mundos prováveis

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A ficção científica tem tido um papel fundamental para a construção de mundos imaginários fantásticos, que por vezes demonstram uma evolução da humanidade para propósitos maiores, mas a grande maioria caracteriza uma transformação dramática da sociedade e do nosso planeta.

Neste artigo não pretendo falar das ficções alienígenas ou apocalípticas, mas sim, na importância de desenhar novos mundos, especular sobre o futuro e como começar a construir hoje um melhor amanhã.

A transformação da estória ficcionada em história científica traz uma dimensão importante para este racional, que é o tempo de projeção de uma ideia até à sua concretização.

Exemplos mais concretos como: as máquinas idealizadas por Leonardo Da Vinci em meados de 1500, demonstraram que as ideias mais futuristas necessitam de tempo para a sua conceção (mesmo para os propósitos menos positivos); se Jules Verne não tivesse publicado em 1865 o romance «From the Earth to the Moon», onde descreve o conceito de viagem espacial com a ajuda de uma máquina voadora para explorar a Lua, será que teria acontecido?

Ou em «In Men Like Gods» (1923), onde H.G. Wells convida os leitores para uma utopia futurista onde as pessoas se comunicam exclusivamente através de um sistema sem fio, uma espécie de mistura de mensagens de voz e propriedades semelhantes a e-mails; e a primeira simulação de vídeo chamada bidirecional em «Metropolis» (1927) de Fritz Lang’s, cuja a tecnologia foi demonstrada pela primeira vez em 1930 mas só recebeu atenção no início dos anos 1970.

A lista é infindável, mas o que importa aqui salientar é que para que estas ideias fossem concretizadas além da sua ideação foi necessário desenvolver a tecnologia, apetência/necessidade e o contexto para a sua utilização.

Estes princípios são fatores fundamentais para o grande desafio dos nossos dias, idear/ desenhar/ especular cenários de futuro, mas conscientes do desempenho e das necessidades concretas desse futuro tendo como base pistas do presente.

Se as tendências têm identificado alguns dos argumentos que são necessários, tais como: debilidade das economias globais, desequilíbrios económicos, transformações nos paradigmas de negócio globais, maior diversidade geracional, mais e maiores evidências das alterações climáticas, multiculturalidade e gentrificação, interconexão e interdependência, 7.000.000.000 a um bilião de habitantes na terra nos próximos 10 anos (9 biliões em 2050), entre outros; cada vez mais é urgente agir porque o tempo está a esgotar-se e a realidade é que continuamos a não ter consciência desse tempo.

É neste sentido que precisamos de pensar e criar de forma diferente para obter futuros diferentes. Precisamos de criar/desenhar novos futuros e não prever!

As questões necessitam de mais profundidade, maior reflexão e mais inclusão. Os designers têm tido um papel ativo no desenvolvimento destas competências, inclusive através da sua formação superior que também está e deve agir para essa transformação.

Há muito tempo que o design deixou de ter um papel passivo de ação/reação, cada vez mais é revolucionário, ativista, experimental, transformador de comportamentos, construtor de contextos e cenários, de experiências, de acessibilidade, propostas de valor e mais importante centrado nas pessoas – «O design é realmente um ato de comunicação, o que significa ter um profundo conhecimento da pessoa com quem o designer está a comunicar» (Donald A. Norman, The Design of Everyday Things).

Construir mundos prováveis é na realidade um olhar para um futuro mais consciente, mesmo que seja especulativo, mas que nos leve a uma reflexão, a fazer o correto, a inovar a longo prazo, a reverter efeitos, a mudar comportamentos e a construir um novo mundo. É mais uma atitude!

E não pode existir melhor região para começar este desafio como o Algarve. Já começamos essa metamorfose!

É estruturante, é uma mudança de mentalidade e é uma oportunidade de transformação a longo prazo para um futuro consciente e sustentável, não tão dependente de um único sector económico, nem dependente das alterações políticas, sociais e económicas externas ao contexto da região.

Queremos contribuir para um futuro centrado nas pessoas e nos ativos, design de futuros conscientes.

Susana Leonor | Diretora da Licenciatura de Design de Comunicação do ISMAT – Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, Portimão