Exposição antológica dos 50 anos do fotógrafo Luís Torres revela que ainda há muito mais Olhão — e talvez também Algarve — por revelar no seu acervo.
Um ano depois de «Quando éramos só nós» ter dado a conhecer uma parte inédita da obra de Luís Torres, iniciada em 1976, a Câmara Municipal de Olhão presta nova homenagem ao fotógrafo olhanense com uma exposição que revela um olhar mais íntimo, mais ousado e ainda longe de esgotar o seu vasto arquivo.
Patente na Galeria da Biblioteca Municipal José Mariano Gago, a mostra «Luís Torres – 50 anos a fotografar a partir de Olhão» apresenta-se como um registo mais pessoal, construído entre a experiência pessoal e as influências das correntes fotográficas que chegavam do estrangeiro, em revistas da especialidade.
Nuno de Santos Loureiro, curador e professor da Universidade do Algarve (UAlg), explicou que «quando fizemos o livro, olhámos para esta coleção de uma forma mais conservadora, mais prudente, mais formal. Ficávamo-nos pelo retrato de Olhão. Aqui fomos muito mais atrevidos, muito mais fora da caixa», durante a inauguração na terça-feira, dia 7 de julho.
A diferença começa logo pelo objeto expositivo. Nas paredes da galeria não estão apenas imagens que documentam uma cidade e uma época. Estão também as provas originais produzidas pelo próprio, quando ainda trabalhava integralmente em fotografia analógica.
«O que mostramos aqui não são apenas as fotografias que o Luís fez. São também as fotografias que, naquele tempo, o Luís revelava, positivava e imprimia em papel fotográfico», explicou. As ampliações expostas foram realizadas há três e quatro décadas. Algumas passaram por salões de fotografia, antes de regressarem às caixas onde permaneceram durante anos.
Fotografias que dialogam
Para Nuno de Santos Loureiro, esta é uma proposta diferente. «O livro é uma estrutura mais rígida, mais fechada, mais inalterável. Aqui podemos construir um diálogo entre fotografias», que acontece a vários níveis.
«O primeiro diálogo é entre cada pessoa que observa a fotografia e a própria fotografia. Antes disso, houve um outro diálogo, entre aquilo que o Luís via e aquilo que escolhia fotografar. Em termos psicológicos, intelectuais e filosóficos, há todo um conjunto de diálogos que se vão construindo», explicou.
E «quando colocamos duas fotografias na mesma moldura, estamos a construir um diálogo entre imagens. Vale a pena perceber como conversam entre si, apesar de terem sido feitas em momentos diferentes e em ocasiões diferentes».
Em suma, «temos aqui um conjunto de olhares fotográficos que saem daquilo que eram os cânones da fotografia documental em Portugal à época. O Luís junta uma série de olhares muito criativos, muito ousados, muito divertidos que torna tudo isto muito interessante».
O curador, mais uma vez, não escondeu a sua admiração por quem construiu um percurso sólido de forma autodidata. «O Luís nunca teve uma escola formal de fotografia. Construiu este olhar pelo seu interesse, pela sua criatividade, pelo seu empenho e pela sua dedicação», elogiou.
E deixou escapar aquela que talvez seja a frase que melhor resume meio século de trabalho: «O Luís pensava fotografia todos os dias!».
Uma dedicação que, ao longo de cinco décadas, deu origem a um dos mais vastos registos visuais sobre Olhão, que documentou pescadores, mercados, festas populares, tabernas, trabalhadores, ruas e uma realidade e um quotidiano que, entretanto, em muitos aspetos já não existe.
Talvez por isso, Nuno de Santos Loureiro tenha deixado um conselho ao público: «A fotografia analógica, revelada em laboratório, faz-se devagar, demora. Cada uma é um momento, tem um ritmo. Olhem para esta exposição com esse mesmo tempo, com essa mesma paz, com essa mesma tranquilidade».
Uma última palavra de agradecimento: «Olhão é um município que apoia este tipo de projetos. Não é gratuito, é algo que deve ser muito apreciado e que a Universidade do Algarve valoriza muito», concluiu.

Fontes para a memória coletiva futura
No uso da palavra, Helena Vinagre, responsável pelo arquivo da Câmara de Olhão, sublinhou que o valor deste trabalho ultrapassa a dimensão artística.
«As fotografias são, efetivamente, fontes de informação», apontou. Na sua perspectiva, permitem recuperar detalhes impossíveis de encontrar na documentação escrita. «Conseguimos aferir nelas pormenores que não conseguimos extrair dos documentos escritos».
Por isso, defendeu que o espólio de Luís Torres deve ser tratado «arquivisticamente», descrito e disponibilizado ao público, para que possa continuar a servir a investigação e a memória coletiva da cidade.
Mas ainda há muito para descobrir… e a cores
Ouvido pelo barlavento, Luís Torres revelou que aquilo que hoje conhecemos representa apenas uma pequena parte daquilo que a sua objetiva registou desde 1976.
Em paralelo à fotografia a preto e branco que o tornou conhecido, também tem um vasto conjunto de diapositivos a cores dedicado, sobretudo, ao universo marítimo.
«Tenho uma vasta obra em slides de barcos e de costados de barcos, que está à espera de um dia olharmos para ela». No total, calcula possuir cerca de 200 mil imagens, ou talvez mais.
E admite que gostaria de ver esse património permanecer um dia no Museu de Olhão. «Adorava que a cidade adquirisse o meu espólio», afirmou, acrescentando, contudo, que qualquer decisão será tomada apenas depois de ouvir os filhos.
Seja qual for a decisão, a verdade é que o livro abriu uma primeira janela sobre o arquivo de Luís Torres. Esta exposição abre outra. E, algures entre caixas de negativos, folhas de contactos e provas fotográficas, continua guardado um Olhão — e talvez também um Algarve — que ainda mais ninguém viu.
A inauguração contou ainda com a presença da vice-presidente da Câmara Municipal, Catarina Poço, que destacou a relevância da obra de Luís Torres para a valorização da identidade olhanense, da memória coletiva, do património imaterial e do imaginário do concelho.
A mostra, integrada na programação cultural do Bicentenário da Câmara Municipal de Olhão, estará patente ao público até 30 de novembro de 2026. Após esse período, está prevista a sua circulação por vários espaços culturais de referência, a nível regional e nacional, com o acompanhamento e apoio do município de Olhão.

