Nas esplanadas em Olhão, frente à ria, os turistas deliciados bebem uns jarros de um líquido vermelho vivo, que passa por sangria, quase toda de pacote, com um mínimo de fruta, por vezes apenas maçã e hortelã nem vê-la…
Fixo o olhar no horizonte, ao largo o Farol. Acompanho o movimento de barcos e pessoas. A ria e o sol continuam a valer. O entardecer tem algo de tropical, nesta terra de raiz mediterrânica, pintado a poente de tons laranja- ouro, numa imensa tela que cobre todo o céu de poente até ao cais. Mas pergunto-me: qual o encantamento do muito que há para oferecer: sushi +sushi, peixe fresco da Macro e camarão da costa criado em aquacultura no Vietname ou no Panamá. Oh very nice! Desculpem–me os restaurantes onde ainda se come bom peixe assado, uma amêijoa boa e uma boa raia alhada, mas o que predomina… Os camones continuam a comer e a beber, felizes no abafo caloroso do anoitecer, despreocupadamente tranquilos à conta das suas reformas douradas.
Olho à minha volta. Um artista de rua chega, cãozinho ao ombro, desmazelado e gordo, de uma obesidade rotunda, barriga para fora, não suportada pelas calças, prepara a coluna de som. Sem classe e sem saber tocar, dificilmente retira uns acordes do acordeão com que acompanha as músicas. A aparelhagem, roufenha, começa a falhar e a coisa piora. O seu trunfo é o cãozinho que obediente permanece ao ombro. Os turistas, basbaques, fazem fotografias e filmam, levantam-se e cobrem-no de moedas, encantados com a prestação. Reparo num casal estrangeiro, distinto e que destoa da maioria, permanece sentado e comenta entre si, … Um pouco afastado, não consigo ouvir bem, apenas depreender pelo riso e expressão o que pensam. Safo o dia, o artista retira-se.
Os mesmos mendigos de sempre, indigentes e repetitivos, quase abalroam as mesas. Sem saber pedir, sem dar nada em troca, um sorriso, um obrigado. (Sim, são vidas duras, realidades terríveis, são vítimas do estigma social). Mas como não comparar com o vagabundo, que nos bares de uma praça de Madrid, pedia dinheiro a troco de poemas; ou o engenho e arte da maior parte dos artistas das ramblas de Barcelona.

Às vezes pergunto-me o que veem os turistas em cidades como Olhão ou Portimão, que se desenvolveram tão mal, ao deus-dará, entregues à usura do dinheiro fácil e mal empregue. Quem governa embandeira em arco com mais um hotel, o dinheiro internacional compra e branqueia, o falar genuíno ainda tem uns nichos, acompanha o petisco, mas o que mais há são tapas (calamares, tiras de choco fritas). Para alguns mais distraídos os tentáculos de pota marcham como se fosse polvo. Agora é tudo bistrot, Oh lá, lá, muitos negócios são investimento estrangeiro, pois nós podemos ter as ideias mas falta-nos o capital. Gelado é gelato e compram-se na gelataria e a Gelvi é apenas uma nostalgia sem correspondência no presente.
E se ainda há alma nos olhanenses, Olhão tem alma anuncia o outdoor político à entrada da cidade, por quanto tempo mais irá perdurar?… Uma gente irrequieta, rude e sincera, de uma frontalidade por vezes brutal, mas também igualmente de uma simpatia desarmante (mês querides), de pessoas sem papas (aqui é xarém) na língua, capazes de dizer o pior e acolher ainda melhor, onde ainda nos dias de hoje a vida poderia inspirar um filme, na melhor tradição neorrealista, a preto e branco, ou um estudo sobre as condições de vida das classes populares no séc. XXI, à semelhança do realizado por Marx e Engels na Inglaterra do séc. XIX.

Mas a maré social, crescentemente complexa, com a caldeirada de gentes que arribam como gaivotas, uns desamparados do mundo em busca das migalhas do boom turístico, outros confortáveis no seu poder de compra, instalando o sofá de vida à beira mar, colocam novos desafios a um universo autárquico que não percebe o que se passa à sua volta, enredado nas suas ambições pessoais, sem estratégia e ousadia para enfrentar a nova realidade. De um turismo massificado e oportunista a exigir medidas de contenção. Onde se continuam a permitir piscinas em açoteias/rooftops e licenciamentos urbanos abusivos. Uma economia em alta que a qualquer momento pode desabar se não tiver bons alicerces. Onde a cara lavada e perfumada da zona ribeirinha, do Del Mar aos novos hotéis em projeto, esconde apenas a escassas dezenas de metros autênticos pardieiros onde se amontoam imigrantes. Esplendor e miséria.
A noite cai e ganha animação. No horizonte as ilhas apenas se adivinham no enunciado circular da luz do Farol. À babugem as luzes dançam cintilantes, embaladas no ritmo suave da ria. Levanto-me. Um músico toca temas de jazz ao saxofone. Este sim é merecedor de atenção e do dinheiro ganho.
Estás e não estás aqui.
Corto Maltese de ti próprio.
Paulo Penisga | Professor