O Nacionalismo em Portugal teve uma fase em que andou muito próximo do Fascismo, não propriamente nas ideias do Estado, na sua representação, nos atos públicos e nas suas atitudes, mas sim no espírito interpretativo da História. Ao eclodir da I Grande Guerra, surgiu um movimento designado por Integralismo Lusitano, cujo mentor político era António Sardinha.
Tinha por objetivo restaurar a monarquia, e instituir um regime corporativo, antiliberal e tradicionalista. Ainda houve alguma esperança em 1917, com a «República Nova» de Sidónio Pais, assassinado no ano seguinte. E em 1919, a «Monarquia do Norte», com Paiva Couceiro, foi uma ténue esperança. Tudo foi fugaz e ilusório. A monarquia não retornou, mas o movimento integracionista não esmoreceu nem foi desativado.
A República foi-se desgastando nas lutas partidárias, nas greves operárias, no custo de vida, na insegurança nas ruas, nos atentados políticos, nas disputas maçónicas pelo poder, nos levantamentos dos quartéis militares, nas sucessivas remodelações ministeriais… em suma, naquilo a que o vulgo chama a «anarquia dos partidos». Por isso surgiu a Revolução do 28 de Maio, para instituir a ditadura militar e pôr termo à democracia.
O ressurgimento monárquico
A chegada dos militares ao poder foi o toque a reunir da causa monárquica. Os antigos integracionistas haviam-se europeizado, recebendo apoios contra-revolucionários importados da Action Française. António Sardinha, morrera no ano anterior. À frente dos monárquicos católicos surgiu Alfredo Pimenta, poeta e jornalista vigoroso, que já passara, sem sucesso, pelos governos da República. Foi um dos que apoiou a chegada de Salazar à pasta das Finanças, e mais tarde à chefia do próprio governo. Foi, até ao fim, um indefetível salazarista.
A propaganda reacionária da fação monárquica, integracionista, tradicionalista e anti-democrática, mostrava-se inspirada no nacionalismo francês, e nas ideias de Charles Maurras, tendo como figura de comando Rolão Preto. Apresentava-se à opinião pública como chefe da revolução nacional-socialista. O seu principal objetivo era convencer Salazar a inclinar-se de forma submissa ao fascismo italiano, e a aceitar a incubação nazi. Uma ilusão à qual Salazar nunca anuiria, visto advogar um projeto político em que prevalecia a independência nacional.
Os fascistas portugueses da década de trinta, eram na sua esmagadora maioria admiradores fervorosos de Salazar. Todavia, sustentavam objetivos políticos diferenciados, nomeadamente um sindicalismo orgânico, uma sociedade mais equilibrada entre ricos e pobres, uma industrialização planeada e apoiada pelo estado, uma classe política independente do capitalismo, e a inclusão da pátria no espaço internacional do nacionalismo europeu.
A oposição ao fascismo de sacristia
Não se pense que o Integralismo Lusitano, assim como os diversos movimentos de inspiração nacional-fascista, foram episódios políticos de pouca importância. A «Cruzada Nacional Nuno Álvares Pereira» foi a primeira a congregar a reação católica anti-democrática e anti-republicana. Teve forte apoio da Igreja, inúmeros aderentes e implantação nacional. A «Liga Nacional 28 de Maio» tinha agenda política e inspirava-se num nacionalismo internacionalista, o que não agradava nada a Salazar, que já sabia que o militarismo imperialista do nazi-fascismo iria atrair o eixo europeu para um conflito militar arrasador.
O que Salazar pretendia com o seu «Estado Novo» era um regime nacionalista, mas de brandos costumes, sem fardas nem armas, sem a exaltação do Chefe, sem conflitos laborais nem luta de classes. Um regime corporativista, inspirado nos valores tradicionais, e subordinado à trilogia «Deus, Pátria, Família».
Os apoiantes do corporativismo salazarista, ridicularizado pelos historiadores como «fascismo de sacristia», era fundamentalmente constituído por gente madura, com vida firmada na seriedade e na competência. Mas os movimentos fascistas, sobretudo os integralistas monárquicos e os católicos nacionalistas, tiveram o condão de atrair a juventude estudantil, assim como muitos cidadãos da burguesia urbana dos serviços, que aderiram às novas ideias quase sem rebuço nem reticências.
No fundo, pairava entre todos, e sobretudo em Lisboa, uma enorme desilusão contra o regime deposto pelos militares. A República desacreditara-se em escândalos de corrupção financeira, diatribes partidárias, despesismo público, e sobretudo não conseguira cicatrizar as feridas abertas com a I Grande Guerra.
Não admira, pois, que despontassem movimentos de cariz reacionário, inspirados no romantismo religioso e nas ideias musculadas da ordem civil e da disciplina política. Chegaram a ter jornais, espalhados por quase todo o país, que serviram de arauto ao fascismo emergente no eixo europeu. Faço lembrar que entre os seus colaboradores figurava gente de todas as áreas, sobretudo da cultura e das artes, desejosa de ver o país enfileirar na ordem nacionalista.
A título de exemplo aqui deixo alguns dos nomes que mais se distinguiram no jornal «Revolução», órgão académico nacionalista, que se editava em Lisboa: Rolão Preto, Alberto de Monsaraz, Albino Forjaz Trigueiros, Amaral Pyrrait, António Lepierre Tinoco, Dutra Faria, António Pedro, Júlio de Castro Fernandes, Fernanda de Castro, Manuel Múrias, Garcia Domingues, João de Almeida, Barradas de Oliveira, Almada Negreiros, Augusto Ferreira Gomes, João Ameal, Teófilo Duarte, Eduardo Frias, etc. Convém dizer que alguns destes nomes eram então quase desconhecidos do grande público, longe ainda de se tornarem nas figuras que hoje facilmente reconhecemos. Um deles foi Almada Negreiros, protegido por António Ferro que o recomendou ao próprio Salazar para trabalhar na Exposição dos Centenários de 1940. E depois disso, continuou a laborar em várias obras do Estado Novo, sem nunca ter sido um apaniguado do regime.

Frente Nacional Sindicalista do Sul, em Faro
O Algarve, talvez por ser uma região de fortes tradições militares, e por aqui ter assento uma fidalguia rural, católica e tradicionalista, deu guarida ao movimento pró-fascista, instituindo-se por isso em Faro a Liga Nacional Sindicalista do Sul.
Para espalhar as suas ideias e propostas políticas, fundou aqui o seu próprio órgão de imprensa, «O Nacional Sindicalista», um semanário de propaganda, conotado com as ideias do Integralismo Lusitano, cuja edição inaugural saiu em 18-12-1932.
Como diretor, figurava no cabeçalho, Rodrigo de Sousa Pinto, homem do foro e um cidadão modelar, sucedendo-lhe em 12-2-1933 o Professor Garcia Domingues (que foi meu colega na fundação da Universidade do Algarve) e, por fim, a 9-4-1933, o Eduardo Frias, que foi, além de emérito jornalista, um razoável escritor. Nas suas colunas pontificavam, em representação do Algarve, o Henrique Braz Leote, o Dr. José Filipe Alvares, o arqº José Pacheco, o Dr. Luiz Mascarenhas Gaivão, o Dr. João Cabral Miranda, a Prof.ª Francisca do Carmo Costa (que casou com o Eduardo Frias, e foi uma escritora notável na literatura infantil), e outros que não vale a pena enunciar.

Apesar da respeitabilidade dessas figuras, o movimento reacionário nacional-sindicalistas foi perturbador e, pode dizer-se até, atemorizador pela forma como se apresentava em público. Em geral faziam um desfile pelas ruas, ordenados como se fossem uma força militar, com bandeiras e estandartes, proferindo gritos de ordem, que em tudo fazia lembrar um cortejo marcial. Em lugar de destaque figurava o comandante, Rolão Preto, um fascista convicto e perigoso, que dava ordens às suas hostes para procederem com disciplina, vigor e aprumo bélico.
Durante as marchas que inundavam as ruas de Faro, saudavam o povo que os ovacionava, estendendo o braço direito, paralelo ao ombro, à imitação romana, isto é, fazendo a saudação fascista. Trajavam de calça cinzenta e envergavam camisas azuis, à imitação das milícias nazi-fascistas. Pronunciavam clamores de carácter revolucionário, que mais não eram do que palavras de ordem dos seus ideais políticos. Esses brados eram do seguinte teor: «pão para todos»; «casas para os pobres»; «salário familiar mínimo»; «justiça no trabalho»; «proteção às crianças»; «abaixo o comunismo»; «viva o nacional-socialismo», etc.
Nas edições seguintes do jornal, figuravam em letras gradas as declarações de intenção ideológica do movimento, que se autodefinia como anticomunista, antiliberal, antidemocrático, antiburguês, anticapitalista e anticonservador. Pela leitura dos artigos de opinião percebe-se que as ideias fascistas predominavam, sendo constantes os elogios que nas restantes colunas se faziam ao Duce (Mussolini) e ao Führer (Hitler).
O meu saudoso amigo, Prof. Garcia Domingues, chegou a publicar alguns poemas de glorificação política sobre Adolf Hitler. Isso deixou-me perplexo, ao ponto de lhe ter perguntado, em 1984, se esses poemas traduziam uma verdadeira admiração ou se eram uma fantasia de juventude?
Ele respondeu-me que, em 1933, Hitler era uma força da natureza, arrebatava multidões pelo seu verbo fácil e convincente, propondo-se abraçar a defesa social dos trabalhadores, lançados no desemprego pelos desmandos do capitalismo especulativo, que arruinara a Europa. A crise financeira, suscitada pelo crash de 1929, roubara aos jovens a esperança no futuro. E, na perspectiva do tempo, pareceu-lhe que o nacional-socialismo alemão e o fascismo italiano seriam as alternativas de sucesso, para a criação de uma sociedade mais justa e equilibrada. No fundo, dizia-me, o projeto social nazi-fascista era inspirado nos valores humanistas do socialismo, razão pela qual cativava a admiração dos jovens. Ninguém podia imaginar que a ambição política da corte hitleriana, o espírito imperialista alemão e o militarismo, viessem impedir, a posteriori, a concretização das ideias e dos valores que estavam consignados no programa do partido nacional-socialista.
Salazar extinguiu a oposição fascista
Escusado será dizer que o Salazar ficou muito desagradado com o desplante político desta gente, que em 1933 se apresentava como uma alternativa ao regime civil, acabado de instituir sob a designação de «Estado Novo». O espírito nacionalista, nessa altura, chamava «novo» a tudo aquilo que contrariasse a democracia e pudesse significar ordem e disciplina. A noção de «novo» traduzia o espírito da regeneração autoritária, personificando as ideias e atitudes que se opunham à «anarquia, à desordem e ao laxismo» da democracia.
O espírito militarista dos camisas azuis de Rolão Preto, assim como outros pequenos movimentos de charneira religiosa, mas de cariz veladamente político, deixaram Salazar bastante receoso. Por isso, decidiu extingui-los, em razão dos princípios do próprio regime: «tudo pela Nação, nada contra a Nação». O movimento nacional-sindicalista foi extinto em 29-7-1934, «por se inspirar em modelos estrangeiros», e Rolão Preto foi expulso do país. Mas, para não gerar contestação, integrou na função pública as suas principais figuras. Digamos que os converteu à força ao corporativismo salazarista. O Prof. Garcia Domingues, por exemplo, tornou-se inspetor orientador do ensino primário, e o jornalista Eduardo Frias foi nomeado funcionário administrativo do porto de Lisboa.

A apropriação da História pelo nacionalismo salazarista
Termino este breve ensaio, por transcrever as palavras de Alfredo Pimenta que traduzem lapidarmente o sentido nacionalista da História, cujas figuras heróicas e principais factos deveriam ser entendidos como pedra angular do regime. No fundo, o nacionalismo tinha por bandeira o engrandecimento da pátria através da imitação dos grandes exemplos do passado. Daí que, figuras como a de Nuno Álvares Pereira, infante D. Henrique, Vasco da Gama ou D. João IV, tenham sido tão incensadas e glorificadas pelo nacionalismo salazarista.
Aos portugueses competia a obrigação de imitar esses exemplos e de servir a pátria com abnegação, sacrifício e coragem.
Ouçamos, pois, as palavras de Alfredo Pimenta, exemplificativas do espírito nacionalista que enformou o «Estado Novo» e o salazarismo: «A verdade é a verdade? É. Mas a verdade, fora da Revelação, não existe.
Se tenho de tomar uma verdade relativa, adopto a verdade que serve a minha Pátria, e não a que pode prejudicá-la ou diminuí-la. Por isso, tenho para mim, sinto-o e proclamo-o, que a minha Pátria é a mais bela, a mais nobre, a maior de todas as Pátrias, e que são estas que devem servir a minha, e não a minha que deve servir a dos outros. (…) Numa palavra: em história de Portugal é verdadeiro tudo quanto glorifique a Nação Portuguesa; é falso tudo quanto deprima, a diminua, a enerve e a enxovalhe».