José Pedro Brito nasceu em Lagoa, há 46 anos. Mas tem uma costela alentejana pelo lado da mãe. Recorda-se de andar a fazer coisas em madeira, com um canivete, desde miúdo e pensa que era a costela alentejana a funcionar.
Fez um curso de arte e design, mas não havia condições para praticar. Assim, ingressou no CENCAL, nas Caldas da Rainha, onde frequentou um curso de modelação em gesso e barro, durante dois anos. Tinha encontrado o seu mundo, mas casou e teve de arranjar um emprego que lhe assegurasse um rendimento fixo ao fim do mês.
José Pedro Brito – Mas arranjei uma garagem, comprei um forno e fui fazendo peças. Comecei a fazer a FATACIL desde o início, já lá vão trinta anos. Como não vivia disto, fazia peças grandes, que me davam muito prazer. Há seis anos, fiquei desempregado e decidi que era a altura certa para fazer a mudança. Entretanto, tirei várias formações na CEARTE, que é a escola profissional de artesanato, em Coimbra, e comecei a viver simplesmente disto.
barlavento – Todas as suas esculturas são feitas em grés?
JPB – Sim, em grés, que é cerâmica a altas temperaturas.
b – Como é que se consegue viver do artesanato, em Portugal?
JPB – É muito complicado. É uma luta, porque ando em feiras e há uma grande confusão sobre o que é o artesanato. Defendo muito a profissão de artesão e não gosto que brinquem com ela. Faço descontos, estou legal, passo faturas. As pessoas, como vendemos na rua, veem-nos como uns coitadinhos. Não temos nada de coitadinhos, mas é muito importante que quem organiza feiras não misture o artesanato com comércio. Porque o artesanato tem vindo a decair, pela mistura de pessoas que agarram na matéria-prima e a trabalham com as mãos, do princípio ao fim, e aqueles que simplesmente se dedicam ao comércio. E levamos todos pela mesma tabela.
Segundo o nosso entrevistado, há pessoas que dão valor ao artesanato, que sabem o que querem e compram peças caras e valiosas e apresenta a zona de Monchique como um bom mercado. Também Tavira é um excelente local para a venda de artesanato, principalmente a portugueses; gente que pergunta, que quer saber como é, que sabe apreciar. Contudo, aponta os clientes da Praia da Rocha como aqueles que só vêm para a praia e para os bares e querem comprar bugigangas.
JPB – Vejo-me obrigado a fazer os «pinga-pinga», aquelas peças pequenas e baratas, para sobreviver. Também as elevadas taxas de bagagem cobradas pelas companhias low cost vieram dificultar o comércio de peças grandes. Mas não deixo de fazê-las, porque quem é criativo não pode ter medo de não vender. Tem é de dar a volta por cima. Neste momento, as minhas peças maiores podem ser desmontadas e divididas por várias malas. No destino, o cliente volta a juntar as peças. Algumas dão até a possibilidade de duas ou mais variantes na montagem. Tive de me adaptar.
b – Usa loja ou galerias de arte para a comercialização das suas peças?
JPB – Uso algumas lojas de amigos, à consignação. Mas é uma guerra, para que não coloquem margens de comercialização tão elevadas que retirem a possibilidade de venda. Não estou interessado em galerias, porque o artesanato, para mim, não tem lugar nas galerias. Gosto muito do Povo, de dormir na carrinha e de não ter de dar justificações a ninguém.
Os leitores mais atentos devem recordar-se de um trabalho sobre pintura em cerâmica (ver «barlavento» de 26 de fevereiro de 2015), em que ficámos a saber que as peças eram sujeitas a duas cozeduras. Também aqui o procedimento se aplica: a primeira a 900 graus centígrados, a chacota. Se criar bolha e partir, é nesta fase e evita deitar fora meses de trabalho. Após a aplicação de óxidos e vidrados, volta ao forno para a cozedura final, a mil duzentos e cinquenta graus.
b – Há cursos específicos de cozedura?
JPB – Há, mas eu aprendi isto tudo à minha custa. O curso que tirei era específico para modelação. Aprendi à minha custa tudo o que sei sobre cozeduras e os vidrados.
b – E só trabalha o grés?
JPB – É a base e a grande força do meu trabalho. Recentemente, descobri o bambu. Por brincadeira, fiz um reque-reque para um amigo e, a partir daí, vou fazendo instrumentos musicais e tenho ido evoluindo. E vou fazendo uns porta-chaves, que dá para fazer na cozinha, no Inverno, com um canivete. E gosto de misturar materiais. O principal para mim é sentir-me bem a fazer o que faço; o lucro vem por acréscimo, porque não ando à procura dos euros. Ser artesão é um modo de estar na vida. Quem vier para o artesanato na esperança de ficar monetariamente rico, esqueça. Mas quem tem alma de artesão, é rico de espírito e gasta muito menos dinheiro na farmácia. Neste momento, estou a fazer aquilo de que realmente gosto. Tudo se torna mais fácil, as dificuldades superam-se, dá-se a volta.
b – Há uma associação de artesãos. Qual o seu papel?
JPB – A associação não depende dela própria. Temos a colaboração da PPART (Promoção dos Ofícios e das Microempresas Artesanais), que pertence ao Centro de Emprego e Formação Profissional e emite as carteiras profissionais de artesão. As feiras deveriam pedir este cartão e a associação é responsável por indicar à PPART se o pretendente é artesão. Mas as câmaras não ligam, colocam artesãos ao lado de comerciantes a vender Hello Kities e, por isso, as feiras de artesanato estão em declínio, a começar pela FATACIL. Pedem preços astronómicos pelos espaços e os artesãos afastam-se, porque não os podem pagar. E não há apoios ao artesanato. Há tantos bons artesãos, dos puros, cuja produção não dá para estarem coletados, que começaram a desaparecer das feiras. Eu vi, em Borba, o mestre Cândido, com 86 anos e 135 euros de reforma, depois de uma vida inteira de enxada na mão, que faz a canivete talheres alentejanos todos trabalhados, ser multado porque não estava coletado.
b – E o futuro? Acha que haverá uma mudança de atitude por parte das entidades responsáveis?
JPB – A minha maneira de ver o futuro é: «façam o vosso caminho e não estejam à espera de câmaras, nem de padrinhos». Fiz o meu mundinho, não devo nada a ninguém, nunca me meti em políticas. Tenho dois filhos, um com 22 e outro com 17, um não deu para o mundo das artes, a mais nova deu. Está nas artes, está a descobrir o seu mundo e o que lhe digo é: «faz o teu mundinho, sê boa naquilo que fazes e vai à tua vida».