«É no Algarve que muitas vezes escrevo. No sítio onde a minha avó amassava o pão, perto de um forno de lenha. É um local que me formatou e ao qual tenho um amor muito grande», revela Lígia Jorge. Tal como a sua mãe e avó, nasceu numa antiga e isolada casa rústica de camponeses, em Boliqueime, há 69 anos.
A memória mais antiga que tem é da mãe pegá-la ao colo para lhe mostrar o nevoeiro lá fora. «Lembro-me muito bem. Devia ter dois ou três anos. A minha mãe chamou-me e atravessámos o nevoeiro. Ainda hoje guardo essa imagem como principio e fim da vida. A imagem do desafio, do desconhecido, mas também como algo calmo de bom, que nos diz que não estamos sozinhos. O facto de não se ver organicamente, deixa espaço para se ver de outras formas».
«A grande sorte que tive, foi que aqui, nesta casa de camponeses, as pessoas gostavam de livros! A minha mãe lia e incentivava-me a ler. Havia esta cultura no seio familiar. Houve um bisavô que, não sabemos como, era um homem culto embora fosse muito pobre. Deixou-nos muitos livros. Quando todos saiam para o campo, muitas vezes eu ficava sozinha. Acompanhada pelos livros que o meu bisavô nos tinha deixado. Isto agora parece um conto de fadas, quando comparado com a cultura de hoje», contrapõe.
Foi também em Boliqueime, que cedo se apercebeu que ia questionar-se sobre «qual o sentido da vida? Da nossa existência? Tenho a ideia que nascemos para nos levantarmos numa outra dimensão».
O romance O Dia dos Prodígios (1980) marca o início da sua carreira literária. Uma alegoria ao Portugal arcaico da ditadura, fechado em si mesmo e à espera de uma força que o transformasse em qualquer outra coisa. Desde então, escreveu duas dezenas de obras, traduzidas em mais de 20 idiomas. Muitas são objeto de estudo em universidades portuguesas e estrangeiras.
Lídia Jorge viveu quase sempre com a mãe e a avó. O pai partiu quando tinha quatro anos, no ‘comboio da meia-noite’, com destino a África. Na época, «as mulheres que viam os maridos partir nessas circunstâncias era como se ficassem viúvas de maridos vivos», explica. «Partiam e já não regressavam. Faziam a sua vida, como foi o caso do meu pai, que não voltou praticamente mais».
O primeiro texto que publicou foi um poema, no Jornal do Algarve. Foi graças a um professor que «incentivou muitas pessoas para a escrita. Foi quem detonou o meu gosto pela escrita. Portugal precisava de muitos mais professores inspiradores como este, principalmente nos dias de hoje. É necessário motivar e estimular os jovens desde cedo porque isso é algo que fica para sempre. O maior proveito é o que se tem na alma, é um bem inestimável», considera. Mais tarde, aos 16 anos, foi ela própria diretora de um periódico chamado A Centeira.
«Foi uma experiência intensa. Éramos um grupo de miúdos muito inquietos. Nessa altura, os melhores alunos iam para letras. As primeiras publicações que fiz partiram daqui, têm o ADN algarvio».
Lídia Jorge licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e foi docente do Ensino Secundário. No entanto, admite que se «fosse professora hoje, não sei se conseguiria viver a mesma felicidade com tantas funções burocráticas!».
Aos 40 anos, sentia que o que estava por escrever, não cabia apenas em folhas e chegou a usar as parede da casa algarvia. «Assim, ficava habitada. Era a minha marca», recorda. Foi também em Boliqueime, que se apercebeu que cedo ia questionar-se sobre «qual o sentido da vida? Da nossa existência? Tenho a ideia que nascemos para nos levantarmos numa outra dimensão».
Ainda sobre o Algarve, na atualidade, a escritora acredita que do ponto de vista cultural a região é ainda «uma terra de interioridade. Mas que está a mudar». Falta-lhe «líderes e coesão social». «É uma zona que se organiza como um arquipélago de forças, como se fossem várias ilhas e não um território coeso. Tem falta de políticos instruídos e com força», considerou.
Falta «alma e não gente morta à frente das instituições. Há pessoas que estão em cargos de cultura, que quando conversamos falam-me de como fazem a compota. Pergunto, o que leram? Não leram nada! Mas dizem que gostam muito do que eu escrevo. Desgosta-me bastante perceber que ainda se estamos numa fase recuada. É preciso que as mulheres saiam desse serviço doméstico, que também é importante, mas há uma vida maior», concluiu.
Fotos: @ Ron Isarin.