Em Monchique, portugueses e estrangeiros encontram no Karuna um refúgio onde se conectam com a natureza e se focam no corpo e mente
No meio da serra de Monchique, quase despercebido, fica o Centro de Retiros Karuna, um local dedicado não só à espiritualidade como ao desenvolvimento pessoal, num espaço aberto e livre, com uma vista incrível. Nasceu em 1992, fruto da vontade de Bal Krishna e, desde então, tem-se tornado conhecido pelos seus retiros silenciosos.
Com a ajuda da sua esposa Ana Ferraz, natural da região de Trás-os-Montes, Bal, de ascendência indiana, criou um espaço onde qualquer um pode passar uma temporada para se conectar consigo mesmo.
Este desejo surgiu na sequência de um retiro de três anos e meio que Bal fez com mestres tibetanos, onde sonhou criar um local onde cada pessoa pudesse «olhar para o seu interior, cuidar de si e ser cuidada», contou Ana ao barlavento.
Depois de uma infância e adolescência na Índia com a sua família hindu, Bal estudou Medicina Tradicional Chinesa na École de Cinque Elements (O.C.N.A), em França e, mais tarde, concluiu o mestrado em Medicina Tradicional Chinesa no Instituto Biomédico Abel Salazar, na Universidade do Porto.
Ana e Bal, que têm três filhas, conheceram-se numa viagem de autocarro a França, o que mudou completamente as suas vidas. Juntos, compraram um terreno com pouco acesso e sem eletricidade e viram sonho tornar-se realidade.
Como Bal faleceu no início de 2022, Ana está a gerir o Centro, com a ajuda de uma comunidade de amigos que continuam o trabalho do fundador, desde a acupunctura à meditação.
«O Bal passou todos os seus conhecimentos, por isso, há uma continuidade de todo o seu trabalho. É um esforço coletivo que conta com a ajuda de muitos amigos de todo o mundo e pessoas que apoiam o projeto», refletiu Ana, que é licenciada em Psicoterapia Corporal pelo Instituto Internacional de Biossíntese.
Inicialmente, havia apenas uma ruína, mas atualmente existem dois templos, um refeitório, uma casa principal, que acomoda cerca de 28 pessoas, e quatro casas para retiros individuais.
O espaço exterior é amplo e diversificado, tanto serve para descanso, prática de jogos ou agricultura tradicional. Existem dois lagos, um em que se pode entrar e outro onde crescem várias plantas – entre as quais uma linda flor de lótus –, e um labirinto desenhado no chão ara reflexão a pé, individual ou em grupo.
«O objetivo é relaxar, chegar ao fim e perder os medos», explicou Ana ao olhar para o desenho circular pintado a tinta branca. «Este centro também simboliza o nosso centro», acrescentou.
O contacto com a natureza e a ausência de agitação são fatores essenciais para o autoconhecimento e a consciencialização, segundo Ana. «O altruísmo aplica-se a todos os seres, não só às pessoas ou aos animais, mas também à natureza», frisou.
Para além das sessões de meditação e das aulas de ioga, o Karuna disponibiliza também tratamentos de saúde, como as consultas de Ayurveda, que trabalham o equilíbrio entre o corpo e a mente através da relação entre ambos.
Este não é um espaço de turismo rural onde se passa um fim de semana de lazer, tem um intuito diferente. «É um local onde se pode estar, sem desejar adquirir conhecimentos, onde se pode retirar o que nos incomoda, o que já não nos faz falta, e descansar a mente dos seus pensamentos constantes», expressou Ana.
Apesar de existirem poucas regras, os retiros individuais têm uma duração mínima de três dias e visam o autoconhecimento. São mais indicados para quem já tem a sua própria prática de meditação e conhecimento de técnicas, mas qualquer pessoa pode experimentar.
«A meditação é um treino da mente. Quem nunca meditou, mas tem uma forte vontade de o fazer, pode começar a qualquer momento. O que não pode fazer é esperar resultados imediatos, a não ser que haja uma dedicação profunda. Caso contrário, aparecerão gradualmente», salientou Ana.
No Centro de Retiros Karuna «não há um guru ou mestre, nem uma filosofia exata. Cada um deve olhar para o seu interior e encontrar os seus próprios recursos», disse a fundadora. Contudo, já passaram por aqui mestres de grandes realizações que partilharam a sua sabedoria.
Cada um vem «fazer o seu próprio caminho de acordo com o que está bem para si», estando completamente livre para realizar as atividades que quiser, onde se sentir melhor, seja entre quatro paredes ou rodeado de árvores e dos sons da natureza. «Nada é imposto a ninguém. Se for necessário, podemos aconselhar,» comentou Ana.
São muitos os encantos do jardim, como as árvores orientais e as figuras de Buda, que transmitem calma e serenidade assim como os cães que alegram o Centro, Gingko e Mel, e os quatro gatos.
Pessoas de todas as religiões são bem-vindas no Centro de Retiros Karuna, que não se define por nenhuma religião, mas pela procura interior. «Independentemente da sua religião, filosofia, crenças, raça ou género, todos são bem-vindos, desde que se queiram conhecer», mencionou. Relativamente às refeições, a comida é caseira, biológica, vegetariana ou vegana, se solicitado, confecionada, quando possível, apenas com produtos locais e da horta.
Fazer voluntariado é também uma opção no centro sem fins lucrativos, mas é importante ter uma «base espiritual», sublinhou Ana ao esclarecer que entrevista os candidatos antes de aprovar a sua estadia. «Este é um sítio onde as pessoas procuram o conhecimento interior. É adequado para quem quer fazer um retiro e não turismo», destacou.
Os voluntários podem ajudar na cozinha, jardinagem, reflorestação ou limpeza, enquanto praticam meditação, ioga ou fazem uma introspeção de forma autónoma.
Não há regras para quem pretende dedicar-se à sua mente, corpo e saúde nem um único caminho a seguir. Pelo contrário, no Centro Karuna cada um faz a sua caminhada, com a possibilidade de participar em atividades de grupo. Ana passa algum tempo com cada hóspede quando chegam e mostra-se disponível durante a sua estadia, se necessário.
O Centro foi completamente destruído em agosto de 2018 pelos incêndios na Serra de Monchique, mas com a ajuda do Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), foi possível reflorestar o terreno. Dentro de alguns anos, Ana espera uma floresta autóctone.






