«Alimenta, alberga e alegra almas no Algarve» é o lema da Aldeia, projeto familiar focado na comunidade local em Portimão.
Atrás da Igreja Matriz de Portimão, um edifício de dois andares foi alvo de obras durante quatro anos para dar lugar a uma nova Aldeia, inaugurada no último fim de semana do mês de janeiro pela família Wentink. O conceito é novo e tem um objetivo: criar uma comunidade, onde as pessoas se conhecem pelo nome, se sintam em casa e conheçam todos os cantos. No fundo, replicar a proximidade e o ambiente que se vive numa qualquer aldeia do Algarve. Até porque, o novo espaço foi pensado e criado para a população local, sobretudo os algarvios.
Na Aldeia de Portimão, são três os espaços distintos que se ligam no número 28 da Rua da Igreja. No rés do chão funciona um bar lounge, que permite apreciar uma refeição ligeira, beber um cocktail, lanchar ou até trabalhar, num ambiente descontraído que se estende a um pátio interior com esplanada. O lado oposto é um Centro Cultural, possui um pequeno palco e conta com uma capacidade máxima para 250 pessoas. Já o andar de cima está reservado para uma unidade de Alojamento Local com cinco quartos, três deles em suite, para alojar até 14 pessoas em simultâneo.
A ideia começou a ganhar forma ainda o edifício se encontrava em obras e teve por base valorizar o talento local.
«Se há algo que falta em Portimão, e que é comum a todo o Algarve, é um espaço de encontro e partilha. É impressionante a quantidade de talento que existe no sul de Portugal, mas pouco se consegue fazer porque não há espaços onde as pessoas se encontrem ou exponham a sua arte. Estive muitas vezes em diversos locais em Lisboa e dava por mim a conhecer artistas plásticos e músicos de Portimão. Percebi que somos, acima de tudo, exportadores de talento e que se tivéssemos um sítio para o mostrar e manter, podia ser muito interessante», começa por contar ao barlavento Yuri Wentink, 31 anos, formado em gestão e auto-proclamado «presidente» da freguesia da Aldeia, distanciando-se dos «preciosismos de cargos típicos» de uma empresa.
«Pensámos num espaço polivalente, onde fosse possível fazer de tudo um pouco: festas, concertos, DJ sets, aulas de teatro, dança, yoga, jogos de tabuleiro e campeonatos de xadrez, de forma a também incluir oferta para todas as faixas etárias», descreve.

«Claro que a ideia de Centro Cultural merece um apoio que possa providenciar comida e bebida, daí o bar lounge. Não gostamos de nos assumir como restaurante, porque não temos uma carta completa. Temos vários snacks e pratos do dia de peixe, carne e vegan. Serão certos cada dia da semana e durante três meses. Depois, mudaremos consoante a época», justifica o luso-holandês.
A complementar estes dois espaços, «quisemos ter um Alojamento Local no primeiro andar que pode ser interessante para residências artísticas e, ao mesmo tempo, nos meses de verão, ser a nossa principal fonte de rendimento. Infelizmente, viver só da cultura é muito difícil», aponta.
Nesta Aldeia, são todos bem-vindos, independentemente da nacionalidade, mas há um público-alvo específico, a comunidade local. «O que faz mesmo falta ao Algarve são coisas para as pessoas de cá. Não colocamos de fora qualquer tipo de público, de todo. Simplesmente, espaços focados em (turistas) estrangeiros, já os há em todo o lado. Muitos até fecham durante a época baixa. Agora, um sítio consistente que exista dedicado à população algarvia, é raro. Então, a Aldeia é, acima de tudo, para os nossos aldeões e aldeãs, a população local», justifica.
Até porque, no Centro Cultural, o objetivo passa também por criar grupos específicos, através da programação eclética. «A música é um foco muito grande, podemos ir para o jazz, hip-hop, ou eletrónica. Também queremos apostar na comédia, na poesia, no cinema e na dança. Mais tarde pretendemos criar uma lógica em que cada dia da semana é focado num grupo», diz o presidente da Aldeia. «Queremos valorizar o que existe cá, mas também tentar fazer um mix saudável com artistas do resto do país para contextualizar os locais e dar-lhes a oportunidade de sentirem que começam a fazer parte de um círculo maior», refere.
O próximo passo é o lançamento do Jornal do Aldeia, este a ser desenvolvido pela vice-presidente, Kiara Wentink, 23 anos, licenciada em Ciências da Comunicação. «A ideia de ter uma publicação passa por divulgar a programação trimestral do Centro Cultural, o menu sazonal do bar lounge, com referência aos produtos locais que utilizamos, e ainda uma série de entrevistas e reportagens com a comunidade da Aldeia. A primeira edição será focada nas pessoas que fizeram nascer este projeto, os carpinteiros, os designers, e a nossa fornecedora de produtos biológicos», contextualiza Yuri.
Questionados sobre planos para o futuro, os irmãos Wentink apontam que o objetivo não passa por replicar a Aldeia a outros concelhos algarvios, mas sim «consolidar uma comunidade forte em Portimão. Queremos que este espaço impulsione a que exista cada vez mais vida no centro da cidade. É uma zona tão interessante, mas na última década tem tido pouca vida!».
No fim de semana da inauguração, dias 28 e 29 de janeiro, a Aldeia organizou uma oficina criativa e abriu portas a um mercado com comércio local, arte e artesanato. «Ficou claro que os locais estão sedentos por coisas diferentes no centro. A Aldeia encheu. E se conseguir motivar mais pessoas a criar novos conceitos em Portimão, e que o circuito de saída noturna nesta cidade volte a passar pelo centro, então, teremos a nossa missão cumprida», concluem.
A Aldeia de Portimão está aberta de quarta-feira a domingo, entre as 11h00 e as 00h00, sendo que na sexta-feira e no sábado o horário se estende até às 02h00. Antes de a época alta iniciar, a ideia dos irmãos Wentink é que o espaço esteja aberto todos os dias. A programação do Centro Cultural pode ser encontrada em detalhe nas redes sociais (@aldeiadeportimao), mas há já atividades definidas: jam sessions todas as quartas, das 20h00 às 00h00, e o Coro da Aldeia às quintas, entre as 19h00 e as 21h00.
Até a decoração é inspirada no Algarve
Na Aldeia de Portimão, novo espaço com Centro Cultural, Alojamento Local e gastronomia no centro da cidade, também a inspiração para cada um dos conceitos é o Algarve. «Escolhemos o azul para a gastronomia, com padrões que remetem para o mar algarvio. O padrão verde do alojamento faz referência à natureza. Por fim, o vermelho é cor que reservámos para a cultura, remetendo para as argilas e areias. Os três espaços são distintos mas mantém uma coerência», explica o responsável Yuri Wentink. Além das cores, «também mostramos que somos um espaço algarvio através dos materiais, das texturas e do requinte que apresentamos. Atenção que a palavra requinte não significa elitismo. Requinte significa que somos um espaço bonito, bem decorado, mas que pratica preços mais baixos que a média», refere o luso-holandês.


