«Aqui, tudo fala de um tempo antes da História, em que a África estava unida à Europa, e ao mesmo tempo tudo esconde. Depois, muito mais tarde, quando as ervas deram flores, e já existiam homens para colhê-las, levas sucessivas de povos do mundo pré-histórico aqui vieram fixar-se, porque ali havia terra boa, sol brilhante e mar tranquilo, e era após era, foram deixando o rasto das suas mãos fabricadoras no solo generoso que habitaram». As palavras são da escritora Lídia Jorge e dão uma amostra da qualidade dos conteúdos que farão parte da exposição «Loulé. Territórios, Memórias, Identidades», que a partir de junho estará patente, durante quase um ano, no Museu Nacional de Arqueologia, na ala poente do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.
«Os textos serão da autoria de Lídia Jorge. Quem melhor que a nossa escritora maior para dissertar sobre a terra que tanto ama? Pareceu-nos a pessoa mais adequada, e que sem dúvida, poderia dar um grande contributo para a qualidade que queremos atingir» afirma Vítor Aleixo, presidente da Câmara Municipal de Loulé, em entrevista ao «barlavento».
«Somos passagem por um território. Uma passagem com memória. Por isso, entendo que um dos meus principais papéis enquanto autarca é valorizar a nossa identidade, património e memória», sublinha. O autarca defende que o investimento de 200 mil euros por parte do município num dos mais importantes acontecimentos culturais do seu mandato é um sensato, uma vez que, por ano, passam «milhares de visitantes» pelo monumento mais emblemático da capital portuguesa.
A data da inauguração será anunciada no dia 25 de maio, no âmbito das comemorações da semana do município louletano.
A organização demorou «dois anos e meio a desenvolver» e partiu da «consciência que foi crescendo no exercício das minhas funções enquanto responsável pelo pelouro da cultura e do património de Loulé», conta Vítor Aleixo. «A riqueza deste concelho é muito maior que aquela que se pensa. Contactámos o Museu Nacional de Arqueologia na pessoa do seu diretor que imediatamente abraçou com o maior dos entusiasmos esta ideia. Juntaram-se as vontades, desenharam-se os projetos e a obra vai nascer muito em breve».

desde a Pré-História até à data da mais antiga ata de vereação municipal conhecida em Portugal de 1384.
O acervo é provenientes de várias instituições do país, incluindo do próprio fundo do Museu Nacional de Arqueologia. Isto porque as suas coleções fundacionais estão muito ligadas ao Algarve e a Loulé. Em 1894, o Museu ficou a coleção reunida pelo algarvio Estácio da Veiga que se propôs a criar o Museu Arqueológico do Algarve, e mais tarde o espólio foi também aumentado pelo etnógrafo Manuela Viegas Guerreiro, natural de Querença, diretor do Museu Nacional de Arqueologia entre 1974 e 1975.
Muitas peças foram restauradas de propósito e «regressarão a Loulé em muito melhores condições. Um número indeterminado de peças que estavam residentes no Museu Nacional de Arqueologia vão ser cedidas a Loulé».
Da Era dos répteis até à Idade Média
«As duas espécies de anfíbios descobertos pela missão internacional de paleontólogos chefiada pelo português Octávio Mateus estarão também em destaque», anuncia Vítor Aleixo. Uma delas é o anfíbio Metoposaurus algarvensis, uma salamandra gigante do Triásico com cerca de 220 milhões de anos. Descoberta no concelho de Loulé, vai poder ser vista em público pela primeira vez, depois de um profundo trabalho de conservação e «de estudos e resultados publicados em revistas científicas da especialidade».

Por isso «o primeiro momento da exposição é dedicado ao período anterior ao homem» refere ainda Vítor Aleixo. Seguem-se outros testemunhos importantes para o concelho como a «escrita do sudoeste», o «período romano», ou por exemplo, as mais antigas atas conhecidas em Portugal e que constituem «um tesouro nacional». O autarca sublinha «o mérito de conseguir colocar três universidades a trabalhar em conjunto através dos seus especialistas: a Universidade de Coimbra com Helena Catarino, a Universidade do Algarve com Luís Filipe Oliveira e a Universidade de Lisboa com Vítor Gonçalves, entre outros» investigadores.
Exposição resulta de um precioso trabalho de equipa
Vítor Aleixo realça o «papel altamente profissional e de verdadeira paixão, da equipa de especialistas lideradas por António Carvalho. Têm sido inexcedíveis de dedicação. Esta é uma colaboração que jamais esquecerei. Por outro lado, o comissário científico responsável pelo núcleo da proto-história, Amílcar Guerra, refere que «a exposição proporciona uma visão global e complexa do concelho de Loulé. Não é comum encontrar uma abordagem tão completa. O visitante vai ficar espantado com o conjunto de informação» disponível.
Município incentiva visitas escolares à exposição
«Pedimos às escolas do concelho para se organizarem, de forma aos alunos poderem visitar esta exposição, ao longo do próximo ano letivo. Muito do meu trabalho enquanto autarca tem sempre presente a minha responsabilidade perante os mais jovens. Há toda uma herança que vem do fundo do tempo e que cada um de nós deve ter presente no dia-a-dia. Temos a responsabilidade o mais possível, de deixar intacta para as futuras gerações. Só assim poderão ser cidadãos melhores, que gostem de si próprios e da sua terra», considera Vítor Aleixo.
