
Em execução desde o final de 2025, o projeto SYREN vai definir um novo conceito de literacia do litoral para ajudar jovens e cidadãos a compreender melhor os riscos costeiros.
O que aconteceu no último verão em Cacela Velha é demonstrativo da problemática. Apesar dos esforços das autoridades em alertar turistas e visitantes para os perigos do atravessamento a vau (a pé), dos areais da Ria Formosa até ao mar, os avisos foram ignorados ou pouco levados a sério. Este percurso, comum nesta altura do ano, coloca em risco a segurança dos veraneantes, sobretudo durante a maré vazante, quando as correntes se tornam mais fortes e imprevisíveis. Resultado: vários adultos e crianças foram resgatados em dificuldades. Vimos também os efeitos na costa portuguesa devido à passagem de um furacão pelo Atlântico Norte, no final de agosto.
E mais: Portugal vive de frente para o mar. Tem cerca de 943 quilómetros (km) de litoral. Se incluirmos Açores e Madeira, a linha de costa totaliza mais de 2900 km. Num contexto de alterações climáticas e de erosão acentuada, o que sabemos realmente sobre os seus efeitos e riscos?
É uma pergunta complexa a que Ana Margarida Matias, investigadora auxiliar do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve (UAlg), pretende responder com o projeto SYREN – Novas perspectivas sobre o envolvimento dos jovens em risco costeiro.
Hoje, apesar de os princípios terem vindo a mudar ao longo dos anos, está bem definida a chamada Literacia do Oceano. Refere-se à compreensão da relação entre a humanidade e o oceano, e à influência mútua entre ambos. Envolve também a consciencialização sobre a importância do oceano para a vida na Terra e para a nossa própria existência, assim como a responsabilidade que temos em relação à sua proteção e uso sustentável.
No entanto, ainda não existe um conceito formal que defina Literacia do Litoral, nem em Portugal nem a nível internacional. «A nossa primeira tarefa será definir o que uma pessoa literada no litoral deve saber. Por si só, é um desafio», sublinha. E justifica: «Temos praias que desaparecem no inverno, arribas instáveis, tempestades cada vez mais frequentes e intensas. Um cidadão deve saber que existem marés vivas e ondulação, e não se sentir perdido quando está numa zona costeira, porque tem alguma noção dos riscos e de como esta funciona».

Para a investigadora, a falta deste tipo de literacia passa também por ver sinalização que não se consegue (ou quer) interpretar. Se o cidadão não souber o que significa uma bandeira vermelha, o aviso perde eficácia. Até porque o risco costeiro tem várias dimensões, algumas do quotidiano, outras excecionais. «Há o risco de estarmos no topo de uma arriba e de cairmos; de nadarmos numa praia e entrar uma corrente de fuga, num agueiro. Ambas podem ter consequências bastante graves», compara.
E pode haver uma dissociação. «A pessoa muitas vezes não tem noção do perigo que corre quando vai tirar uma fotografia espetacular próxima da rebentação das ondas durante uma intempérie. Se tivesse ideia da velocidade com que a água se desloca, se calhar não o faria», exemplifica.
E sim, este não é apenas um tema pertinente para quem vive junto ao mar. «Não podemos só abordar as questões do nosso quintal. Tal como falamos da Antártida, devemos falar do litoral, porque as consequências das alterações climáticas dizem respeito a todos», afirma Ana Matias. Ignorá-las ou deixar que sejam ignoradas significa potenciar o risco. Mesmo as que vivem nos territórios do interior devem conhecer os perigos de atravessar a baixa-mar, em Cacela Velha, na época balnear.
Que sabem os jovens?
A segunda fase do projeto é dedicada aos adolescentes. Em conversa com professores de ciências do ensino secundário, a investigadora do CIMA ficou a saber que há uma lacuna nos conteúdos obrigatórios das aprendizagens essenciais. «Diria que é quase uma irresponsabilidade não se apostar fortemente neste conhecimento», defende Ana Matias.
A ideia dos investigadores é fazer um inquérito para medir a percepção e o envolvimento dos jovens com o risco costeiro.
Neste caso, está previsto que sejam alunos de escolas do concelho de Loulé e da Grande Lisboa que irão participar num questionário anónimo, concebido de raiz pela equipa do SYREN, num total de cerca de 400 jovens.
Em Loulé, por exemplo, os investigadores esperam observar alguns factos: Quarteira enfrenta erosão grave; os molhes retêm sedimentos que alteram o equilíbrio costeiro e em breve serão intervencionados como medida de correção. «Queremos saber se percebem o que está a acontecer. Se reconhecem, por exemplo, o que é uma corrente de retorno, ou se sabem o que implica viver numa zona onde a urbanização não teve em conta estas questões», exemplifica.
«Os jovens de 15 a 17 anos já têm noção do mundo, mas ainda estão a formar atitudes. É uma fase ideal para lhes introduzir estes conceitos, para que os acompanhem ao longo da vida», sublinha.
Por fim, a equipa também está interessada em perceber quais as fontes de informação dos mais novos. «Enquanto pensávamos neste projeto, as ferramentas de inteligência artificial evoluíram muito». Os jovens, quando têm dúvidas, pesquisam nos telemóveis, mas será que ficam satisfeitos com as respostas?
Depois do diagnóstico feito, a ação passará para os estudantes. A ideia é que participem num processo de cocriação, em que os jovens e os cientistas e comunicadores de ciência vão criar em conjunto produtos de comunicação de literacia do litoral destinados aos pares.
«Vão criar vídeos, banda desenhada e conteúdos para redes sociais. Queremos que expliquem, por palavras suas e formatos que lhes são familiares, como comunicar o risco costeiro» aos colegas. «Nós ensinamos-lhes os conceitos e eles devolvem-nos, adaptados à linguagem de quem tem a mesma idade. Será uma comunicação feita de dentro para fora», descreve.
Ana Matias reconhece que este projeto dependerá da boa vontade de alunos e docentes. «Precisamos apenas de grupos pequenos e motivados. E temos a certeza de que há professores muito empenhados na sua missão de educar os jovens que lhes passam pelas mãos», afirma.
Um guia para quem intervém no território
A investigadora do CIMA destaca que, hoje, a Universidade do Algarve produz conhecimento e dá consultadoria a um conjunto de instituições e projetos com entidades como a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o Parque Natural da Ria Formosa e vários municípios.
«É mesmo preciso que as decisões sobre o litoral se baseiem na melhor evidência científica, e não apenas em percepções ou pressões do momento. Precisamos muito de planeamento porque as alterações climáticas são uma realidade que veio para ficar», afirma.
Outro dos objetivos do SYREN será a produção de um guia prático bilingue, em português e inglês, que servirá de base para o trabalho de vários atores.
«Terá informação teórica e científica, mas não suficientemente densa que o condene a ficar nas prateleiras das academias. Será algo que possa ser útil ao cidadão que não é um cientista de zona costeira», descreve. O objetivo é que possa servir, por exemplo, para a formação de agentes de proteção civil ou de referência ao cidadão.
Por fim, Ana Matias acredita que o projeto SYREN possa inspirar outros países a seguir esta linha de investigação.
«Queremos que o nosso trabalho seja relevante do ponto de vista internacional. Esta é apenas uma primeira pedra» para a construção de uma nova forma de viver o litoral, mais consciente, mais segura e mais preparada para o presente e o futuro.
O orçamento do projeto SYREN é de 249.825,60 euros. Conta com financiamento do Programa Regional ALGARVE 2030. O custo total da operação é de 132.840 euros, com fundo total aprovado de 53.136 euros e uma taxa de cofinanciamento de 40%. Conta também com financiamento do Programa Operacional Regional de Lisboa e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Parceiros
- Associação de Jardins-Escolas João de Deus (Centro de Investigação e Estudos João de Deus);
- Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve (entidade principal);
- Universidade Nova de Lisboa – INOVA Media Lab; Fciências.id – Associação para a Investigação e Desenvolvimento de Ciências;
- MARE – Marine and Environmental Sciences Centre | Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
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Reportagem publicada no livro «Algarve – Economia Azul: Inovação e Fundos Europeus na Região», recém-editado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com produção editorial do jornal barlavento.



