Disco de música exploratória resulta de residência artística na Ria Formosa e edita sons do património acústico local da ilha da Culatra.
O músico português Luís Fernandes editou hoje o álbum de música exploratória «Culatra», fruto de uma residência artística com o norte-americano Pierce Warnecke numa das ilhas na Ria Formosa, no Algarve.
«Estivemos lá [na ilha da Culatra] uma semana, em 2021, e a premissa, aquilo que nos propusemos fazer, foi usar o património sonoro da ilha, as práticas piscatórias, o ambiente, o mar, o património acústico da região para depois fazer qualquer coisa», explicou o músico à agência Lusa.
O resultado, com selo da editora australiana Room40, é um registo discográfico no qual os dois músicos deram um significado ao que foi recolhidos na ilha, dentro e fora de água, aos sons de animais, aves e caranguejos, dos espaços físicos e da vida ali a acontecer.
«Lembro-me de uma ponte móvel que rangia imenso e fazia um chiar super-interessante do ponto de vista sonoro. Houve muito vento junto a uma escola primária e que fazia um poste chiar e fazia-o numa nota, ré sustenido, e isso está no disco», disse.
«Culatra» é um disco «altamente abstrato e que não é de fácil escuta», admitiu: «não nos contivemos em relação às formas de abordagem e às convenções. É extremamente exploratório, mas deu-nos muito gozo fazê-lo».
No texto que acompanha a edição de «Culatra», Pierce Warnecke explica que o objetivo não foi reproduzir e documentar gravações de campo, «mas sim capturar a essência do lugar», processando depois os sons, para extrair «tons, ritmos e harmonias escondidas nas gravações».
Os dois músicos conheceram-se há mais de uma década num festival de música eletrónica na Madeira, e este álbum só existe, porque houve um convite do Teatro Municipal de Faro para uma residência artística.
Luís Fernandes, músico e programador cultural de Braga – é diretor artístico do Gnration e do Theatro Circo -, sublinhou a importância de existirem residências artísticas para criadores, seja em artes performativas, música ou outras expressões plásticas.
«Permitem um foco muito particular, permite sair do dia-a-dia, seja um estúdio, um atelier. Permite blindar, por um período breve, a nossa atividade e alocar energias para o foco criativo. Nestes períodos quase que reservamos um tempo para só fazer uma coisa. E é um exercício que traz frutos», disse.
Pela australiana Room40, Luís Fernandes já tinha publicado o primeiro álbum a solo, «Demora» (2019), e o registo «At The Still Point Of The Turning World» (2018), com a pianista Joana Gama.