Nas últimas três semanas, a prospeção arqueológica preventiva no perímetro de construção da nova ETAR da Companheira, em Portimão, trouxe à luz do dia, uma gruta com vestígios de ocupação humana do Paleolítico Médio. Estima-se que há 40 mil anos, terá vivido ali o Homem de Neandertal. A cavidade fica paralela à EN125, a cerca de 30 metros da zona de incidência direta da obra, portanto, sem representar qualquer entrave ao avanço da mesma.
De acordo com o arqueólogo Tiago Fraga, depois do estudo prévio da zona, «foi feita uma prospeção, na medida de colmatar falhas de informação referentes a vestígios de superfície, cerâmicas, materiais arqueológicos e outras evidências silenciosas, que não se poderiam detetar com a quantidade de vegetação que havia» ao redor do perímetro da obra.
Desbastado o mato, «uma equipa liderada por Tiago Dores, geólogo e técnico de arqueologia foi ao local e identificou as cavidades e verificou que havia probabilidade de haver potencial. A seguir a isso, foram avisadas as entidades. Foi feita uma segunda missão no terreno com a colaboração da Universidade do Algarve» já sob a supervisão de Nuno Bicho, um dos principais especialistas no país em Pré-História e professor nesta academia.
Numa visita de imprensa ao local, organizada pela Águas do Algarve, na manhã da passada segunda-feira, Nuno Bicho explicou que «a gruta é uma cavidade relativamente pequena, que à superfície não tinha materiais arqueológicos, mas que se revelaram na sondagem» feita ao interior.
A intervenção na gruta foi feita no âmbito de um protocolo de cooperação entre a UAlg e a Direção Regional de Cultura do Algarve, ao abrigo de um projeto liderado por Frederico Tata Regala que está a tentar avaliar as potencialidades nas cavidades no espaço algarvio.
«Foram encontrados utensílios em pedra lascada, que são típicos do período do Paleolítico Médio, o momento em que viveu o Neandertal, restos de ossos que são de faunas e que provavelmente correspondem ao conjunto de animais que foram caçados e comidos por esses nossos antepassados», explicou. Coelho, veado e auroque (um antepassado do atual gado bovino) foram as três espécies presentes encontradas na gruta.
No seguimento desta descoberta, «eu e a minha equipa poremos um pedido especial para um projeto de investigação não só desta gruta, mas de outras que existem no vale do Arade, como a de Ibn-amar, em Estômbar. A ideia é fazer um trabalho específico em que pediremos financiamento à Fundação para a Ciência e a Tecnologia no próximo concurso que esperamos que abra ainda este ano», avançou Nuno Bicho aos jornalistas.
«Não há neste momento mais nenhuma gruta com potencial conhecido, mas há outras cavidades no vale que poderão potencialmente ter outra coisa, tal como Ibn-amar tinha uma ocupação bastante grande da Idade do Bronze».
O material que foi recolhido na gruta, «está muito coberto com calcite, terá que ser limpo e tratado. Os materiais em pedra serão analisados, e vamos tentar várias datações no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha».
O futuro estudo vai determinar «a ideia que num determinado período, os nossos antepassados viveram neste vale e aproveitaram os recursos ao seu dispor. Do ponto de vista científico, a ideia não é apenas escavar um sítio arqueológico, é perceber o enquadramento e a ecologia de um determinado grupo humano que viveu aqui há 50 a 100 mil anos atrás», explicou.
A gruta «vai ser protegida com um portão, de maneira a que não haja acesso fácil sem autorização. Vai ser da responsabilidade da Águas do Algarve, por gosto cívico e por sentido da proteção do património arqueológico, uma vez que está completamente fora do perímetro e não tinham qualquer obrigação disso», concluiu Nuno Bicho.
Entrada de um algar e quatro vazios
Nestas duas semanas «foram identificados quatro vazios no maciço calcário em local da obra, que considerando as características cársicas do terreno, não têm significado especial», informou Teresa Fernandes, responsável da comunicação da Águas do Algarve. «Estamos neste momento a desenvolver estudos de levantamento do maciço, através de perfis geo-elétricos. Estes estudos têm a duração aproximada de um mês e possibilitam a obtenção de informações mais conclusivas». Também foi encontrada a entrada de um algar, que será investigado pela equipa de arqueólogos, aprovada pela Direção Geral do Património Cultural, para relatar todos os possíveis vestígios de presença humana em tempos remotos.