Rui Carvalho, 31 anos, formado em economia e diretor de operações da «Flash» Portugal veio acompanhar os primeiros passos em Faro, com a disponibilização das primeiras 60 trotinetes elétricas no fim de semana de 16 e 17 de fevereiro. Uma frota que conta com um reforço de mais 40 unidades, e que ainda poderá vir a crescer conforme a aceitação deste nova solução de micromobilidade.
«Existe muita vontade por parte dos municípios. Muitos já perceberam que há uma direção de futuro, que se está a caminhar para um conceito de cidade mais verde, e para reduzir o número de carros a circular» nos centros urbanos, de modo a haver mais «investimentos estratégicos em ciclovias e em infraestruturas que permitam a mobilidade integral dos cidadãos. Portanto, há a perspetiva que, de um ponto de vista global, Portugal está muito interessando» nestes novos paradigmas. A expansão para o Algarve segue esta tendência e justifica-se pelo interesse demonstrado pela Câmara Municipal de Faro, justifica.
Questionado sobre se 100 trotinetes não é um número demasiado, o responsável responde com a experiência de Lisboa. «A pergunta é um pouco ao contrário. Não teremos carros a mais? Isto é uma revolução que está a acontecer. E é uma revolução positiva. É o advento de um novo meio de mobilidade. Basta pensarmos que a maior parte das viagens (last mile) são feitas numa distância de 1,5 quilómetros e que não existe uma solução eficiente para as fazer. Por isso são feitas em automóveis, que, em média, pesam mais de 1100 quilos, para transportar uma única pessoa. Neste caso, podemos colocar 20 ou 30 unidades no espaço que ocupa um carro», compara.
Para Rui Carvalho, a trotinete elétrica serve diferentes públicos, usos «e contextos. Da nossa experiência, temos visto a utilização quer pelo turista, quer pela pessoa que sai do metro e quer chegar a casa ou ao local de trabalho».
Na prática, o modelo de funcionamento ainda está embrionário. «Basta tirar uma fotografia do código QR está no guiador de cada trotinete com um smartphone. De forma automática, será instalada uma aplicação (Flash Scooters ou Flash Mobility) à qual se associa um cartão de crédito, e está pronta a arrancar», explica o diretor de operações. No futuro, «é nosso objetivo ter outras formas de pagamento», como cartões pré-carregados ou assinaturas. Para já, o utilizador paga um euro para desbloquear a trotinete e 15 cêntimos por minuto de viagem. No final, terá um desconto de 50 cêntimos, se a estacionar num dos locais de parqueamento (hotspots) autorizados pelo município. «É uma aposta a longo prazo. Haverá outros modelos de subscrição e temos de pensar como é que isto se enquadra com a restante mobilidade da cidade», acrescenta.
Trotinete pode ser ferramenta de ordenamento
Não será incorreto dizer que a bicicleta, enquanto meio de deslocação no dia a dia, não teve massa crítica suficiente para alterar a fisionomia das cidades portuguesas. No entanto, Rui Carvalho afirma que a trotinete elétrica poderá abrir esse caminho, que considera irreversível. «Acredito que isto não é ainda a resposta total, mas vai dar um empurrão forte e ajudar a responder aos problemas» de compatibilização entre o trânsito convencional, tal como é hoje, e a integração com os chamados meios suaves.
«Isto é apenas o início de uma revolução, tal como foi o automóvel há 100 anos. Não será apenas a trotineta o único meio para a mudança, mas outros que ainda estão por vir. Falo de todo um conjunto de veículos elétricos de duas e três rodas, com cabines para proteger da chuva e dos elementos e com espaço para transportar crianças, que vão começar a surgir. Claro que será um processo gradual de adaptação das cidades» às novas soluções de mobilidade.
«Mas este é um primeiro passo, e por isso é tão importante». E se até agora, o planeamento do território tem trabalho de gabinete, a trotinete poderá vir a dar aos municípios uma visão muito mais realista das opções a tomar. «Nós estamos prontos para partilhar informação. Por exemplo, onde é que as pessoas mais pegam nas trotinetes, onde é que as largam, quais os caminhos que fazem. Todos estes dados, ao final de milhares de viagens realizadas, permitem conhecer melhor os fluxos. Desta forma, o planeamento das cidades torna-se muito mais fácil» e deixa de ser um exercício abstrato.
Desconto é incentivo à cidadania
A operação das trotinetes elétricas segue um modelo chamado «free float». Ou seja, o utilizador «pode pegar e deixar em qualquer lado», o que poderá causar problemas de ocupação do espaço público.
«Há várias formas de análise. Em Lisboa, onde o mercado está mais maduro, esse é um fenómeno novo. Sem querer entrar em críticas, a pessoa vê um carro em cima do passeio hoje e não lhe gera o mesmo incómodo que ver uma trotinete no mesmo local. E por ser um fenómeno novo gera um sentimento diferente». No entanto, a «Flash» tem uma política para evitar o mau estacionamento. «Seja um bom cidadão, e tenha vantagens diretas», descreve, neste caso, um desconto na fatura final.
Ao final de cada dia, «temos um parceiro logístico local que recolhe todas as trotinetes, estejam onde estiverem. Serão todas realocadas quer para os pontos autorizados (hot spots) ou para armazém, onde será feita a manutenção e carregamento das baterias. Ou seja, começamos o dia com uma cidade limpa». Em Faro, a empresa parceira que fará este trabalho já criou seis novos postos de trabalho e a tendência é para aumentar.

Nas próximas semanas «vamos trazer um novo modelo, assim que chegar a Portugal. Faro será a primeira cidade a recebê-lo. Nós produzimos os nossos próprios veículos. E isso dá-nos uma vantagem muito grande, pois a médio prazo, poderemos adaptar as trotinetes às características de cada cidade, como o piso, a inclinação e as necessidades das pessoas», revela Rui Carvalho.
No entanto, a tecnologia não basta para mudar mentalidades, sobretudo num país onde os condutores não primam pelo civismo. «É algo novo na estrada, terá que haver uma adaptação. Vamos atravessar uma fase para as pessoas perderem o medo e perceberem as vantagens. Será preciso tempo e sensibilização. Hoje, o número de pessoas que pensam em ter carro próprio já está a baixar, sobretudo nas nova gerações. E claro, para poder continuar a baixar, têm de haver outras soluções» de mobilidade.
Para já, «vamos fazer várias iniciativas de sensibilização para o uso e estacionamento correto das trotinetes, que é um dos principais problemas. Teremos ações de distribuição de capacetes, cujo uso não é obrigatório, mas é recomendado. Portanto, vamos continuar no terreno», promete.
Portugal é país interessante para a micromobilidade
Segundo Rui Carvalho, «a nossa empresa começou formalmente em agosto de 2018, mas só tivemos acesso a um financiamento de 55 milhões de euros em dezembro», que permitiu arrancar o operação desta start-up, e a fase beta que decorreu no passado mês de janeiro, em Lisboa. A Flash nasceu na Alemanha, a partir de onde é gerida a matriz e a estratégia para os vários países da Europa, embora a filial seja uma empresa 100 por cento portuguesa. Na sede, em Berlim, «Portugal é visto como um país muito interessante, por várias razões. A principal tem a ver com o clima ameno, a disponibilidade das pessoas para as novas tecnologias e também as condições das cidades onde já houve investimento anterior para receber meios suaves de transporte», revela em entrevista ao «barlavento».

«Tanto assim é, que a primeira equipa da Flash a ser constituída foi a portuguesa. É, possivelmente, uma das maiores equipas locais, com apoio ao cliente, departamento de recursos humanos, operações e marketing. Ou seja, há uma grande aposta em Portugal. Além disso, o nosso país foi escolhido para a fase beta e para testar o produto. Vai haver concorrência, este negócio é de longo prazo. Não estamos a pensar na faturação ao final do dia. Há uma viagem que os municípios e que o país vai ter de fazer. E nós podemos ajudar nesse sentido», conclui.
