Erosão no Farol deixa praias sem areia, dunas colapsadas e os acessos perigosos, com impacto direto na segurança e na sustentabilidade da economia local.
O núcleo do Farol da Ilha da Culatra, na Ria Formosa, enfrenta uma das situações mais graves de erosão costeira dos últimos anos, após as tempestades deste inverno que levaram o areal, danificaram as dunas, destruíram passadeiras para banhistas e tornaram os acessos perigosos.
Os efeitos dos temporais são visíveis ao longo de toda a frente costeira e ribeirinha. As dunas apresentam cortes abruptos, com desníveis que «chegam a 8 a 10 metros de altura em algumas zonas», explica Luciano Jesus, sócio-gerente do restaurante da Associação da Ilha do Farol pelo que será o sétimo ano.
«Conheço as ilhas-barreira desde sempre. Já vi dias e alturas de grandes vendavais, mas o que aconteceu este inverno foi devastador. Aniquilou as praias da Pérola da Ria Formosa, como muitos lhe chamam. Icónica, linda, com águas transparentes e uma beleza única, mas que neste momento corre o risco de não poder ser visitada para fins balneares», descreve o empresário.
A praia mais próxima do núcleo, ao lado do conhecido Bar das Manas, «já praticamente não existia, pois ao longo dos anos tem vindo a ser a mais erodida, mas ainda tinha acesso — uma escadaria — e com maré média para vazia conseguia juntar ali largas centenas de pessoas. Neste momento, não tem acesso, está completamente inacessível e a areia desapareceu. Não tem como ser utilizada» pelos banhistas, alerta.
Já a grande praia, «muito visitada e muito percorrida por turistas que desembarcam na Culatra e depois caminham até ao Farol — neste momento não têm como o fazer. A duna primária tem um corte, um rasgo, que chega a 8 a 10 metros de altura em algumas zonas e, em média, 3 a 4 metros nas mais baixas».
De um ano para o outro, o Farol «ficou irreconhecível». O mar arrastou centenas de pedras para os trilhos e os acessos tornaram-se perigosos — sobretudo para «crianças, pessoas com mobilidade reduzida» e qualquer visitante que se aventure nos «desníveis altíssimos». «Se alguém tentar aceder à praia, corre grave risco para a sua saúde», alerta Luciano Jesus.
O concessionário teme pela segurança numa altura em que o núcleo se prepara para receber visitantes na Páscoa.
«Não vejo como isto poderá ser resolvido que não seja uma intervenção urgente, para ontem, das autoridades competentes — nomeadamente a Câmara Municipal de Faro ou o Ministério do Ambiente. Terão de vir à ilha, aferir o que se passa e, numa primeira instância, tornar este núcleo acessível e seguro».
O antigo político local e ex-presidente de Junta prevê que, além da urgente reposição das passadeiras em madeira e da limpeza das centenas de pedras, será necessária «alguma maquinaria e muita mão de obra» numa fase seguinte.
Empresários «muito preocupados»
A perda de areal ameaça diretamente a atividade económica do núcleo. «Estamos todos muito preocupados — quer quem tem negócios do lado da costa, quer quem tem negócios do lado da ria — porque quem nos visita vem cá com as suas famílias, com a intenção de ficar e passar um dia de praia. Ao ver este cenário, não volta», diz Luciano Jesus.
Os privados têm investido, ano após anos, na atratividade do Farol. «Se não tiverem retorno, há pessoas que correm mesmo o risco de ficar em situação bastante complicada — já para não falar dos seus colaboradores. E temos dois espaços que estão interditos junto à costa, o Bar das Manas e o Bar do Tiago, que neste momento estão inacessíveis. E todos os outros espaços, de forma indireta, também são afetados», caso nada seja feito no imediato.
«Estão a ser realizadas intervenções para repor areias em Albufeira, Quarteira e Garrão — mas neste momento não está prevista qualquer intervenção aqui», sublinha.
«O que tem que ser feito já é garantir a acessibilidade, limpeza e segurança das nossas praias. E depois é preciso um plano para uma intervenção a longo prazo, para que, de uma vez por todas, este paraíso seja protegido», conclui.
«O Farol precisa de ajuda»
Feliciano Júlio, presidente da Associação da Ilha do Farol, alerta para um cenário ainda pior. «As pessoas que têm negócios vão ficar paralisadas porque não têm praia. Vamos ter milhares e milhares de turistas a visitar-nos e, provavelmente, não haverá ninguém para os socorrer. Não haverá nadadores-salvadores, porque quem tinha concessões não as irá ter. E entramos aqui num ciclo em que a praia do Farol fica ao Deus-dará».
O dirigente recorda já ter vivido uma situação semelhante, mas «nunca com esta intensidade». Na última intervenção, há cerca de uma década, «gastou-se 3 milhões e meio de euros a repor areias» — e apesar de lhe terem garantido que seria suficiente para cinco anos, «durou um ano e meio». Lamenta ainda que tenha sido demolido um paredão que servia de quebramento ao mar e evitava que a areia fosse arrastada para nascente, como acontece hoje.
«Com as regras da contratação pública não vai ser possível termos aqui uma obra como está a acontecer entre Quarteira e o Garrão. Não temos tempo para isso. Estou extremamente preocupado. Recebo vários telefonemas diários, mas não podemos fazer nada. Temos um trator com o qual poderíamos resolver uma grande parte da situação: a reposição das passadeiras, a limpeza de detritos, o reforço dunar. Mas continuo à espera, desde 2024, de uma autorização para poder circular com o trator» no núcleo, lamenta.
«O trator foi dado a esta Associação — que é uma instituição de utilidade pública — para servir a população e apoiar as entidades oficiais», recorda. No entanto, está parado, por falta de licença do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), diz.
Feliciano Júlio acrescenta que já sensibilizou o presidente da Câmara Municipal de Faro e prepara um pedido formal por escrito à tutela. Considera que a transferência de competências da Administração dos Portos de Sines e do Algarve para a autarquia de Faro trouxe melhoramentos, como os arruamentos que estão a ser feitos. Já em relação ao plano prometido pela Ministra do Ambiente para os três núcleos — sobretudo para os Hangares e o Farol — está, porém, atrasado devido às eleições autárquicas e presidenciais, justifica.
Entretanto, há também infraestruturas em risco. «Fizeram um pontão novo que praticamente apenas serve para as embarcações marítimo-turísticas» e para o barco da carreira sazonal, mais pequeno, que vem de Faro. A antiga continua a ser utilizada «e está a cair. Cada vez cai mais», avisa Feliciano Júlio.
«Acho que temos todos que refletir em relação ao núcleo do Farol. Se queremos que seja o ex-líbris da Ria Formosa, e de Faro, ou uma terra de ninguém, onde metade é ilegal».
Pontão pode vir a ser «completamente encerrado» diz Pina
Ouvido pelo barlavento, António Miguel Pina, autarca de Faro, assegura que «o município de Faro está muito atento e relativamente às duas situações que temos nas nossas frentes de mar».
Por um lado, «a da praia de Faro, já bastante conhecida. Aliás, para sinalizarmos essa preocupação, conseguimos que a senhora ministra [Maria da Graça Carvalho] cá viesse viesse, e temos uma proposta de protocolo com a APA, que será assinada em breve, para que façamos nós o projeto de realimentação artificial da praia de Faro e da praia do Farol».
A Câmara Municipal de Faro está «a trabalhar também com a APA para podermos ter um outro protocolo, até 300 mil euros, para fazer a reposição de alguma normalidade, seja na praia de Faro, seja no Farol. Esse último está ainda a ser articulado, no que respeita às intervenções a realizar naquele núcleo, mas não passa ainda pela realimentação do areal [de emergência], como aconteceu na praia da Fuseta, porque aí era possível ir buscar a areia à barra para a zona de veraneio», compara.
No caso do Farol «não é possível. Quem conhece sabe bem a distância que está a barra para ser trazida a areia e algum reforço ainda este ano. Portanto, vamos tentar limpar, reorganizar o que os temporais destruíram, e vamos trabalhar num projeto para uma realimentação robusta, como já foi feita há cerca de 10 anos. Estamos a falar já na ordem de alguns milhões de euros que ainda não sei quantificar», estima.
Questionado sobre a situação do antigo pontão, Pina admite «preocupação redobrada relativamente aos acessos fluviais à praia do Farol. Foi feita uma intervenção pela APS, na criação de uma outra ponte/cais. No entanto, por não ter as condições ideais para a carreira fluvial que vem de Olhão, e que traz o maior número de pessoas ao Farol, continuou-se a usar a ponta antiga, que estava já bastante debilitada, e dizem-nos que essa situação se agravou bastante».
Ainda esta semana, está prevista uma vistoria, «com equipas técnicas para verificar a situação na antiga ponte. Poderá vir a ser completamente encerrada, o que criará uma dificuldade adicional de acessibilidade à ilha, mas para já, ainda não conseguimos confirmar».









