Daniel Vieira, pintor, artista, músico e professor natural de Alte, faleceu na madrugada de hoje, aos 88 anos.
Nascido em Alte a 3 de junho de 1937, Daniel José Ramos Vieira construiu um percurso singular, cruzando a formação académica nas artes com uma ligação profunda à cultura popular algarvia. Influenciado pelo pai, também ligado ao meio artístico, pertenceu a uma geração que soube aproximar a criação contemporânea das tradições locais, num tempo em que essa ponte raramente era valorizada.
Com 20 anos, mudou-se para Lisboa, onde começou a trabalhar na Caixa Geral de Depósitos. Em paralelo, frequentou os cursos noturnos de gravador-litógrafo e desenhador na Escola Artística António Arroio. Prosseguiu estudos na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, onde se formou em pintura, teve como professores Matilde Marçal e Teixeira Lopes e onde se especializou em gravura.
A carreira artística desenvolveu-se ao longo de várias décadas, com participação em exposições individuais e coletivas em Portugal e no estrangeiro. Pintura e gravura foram os eixos centrais do seu trabalho, marcado por referências à memória, à paisagem e às vivências do Algarve. Obras suas integram coleções públicas e privadas, nacionais e internacionais. Era membro da Sociedade de Gravadores Portugueses.
A par da criação artística, Daniel Vieira dedicou grande parte da vida ao ensino. Após concurso para professor, deu aulas de trabalhos manuais durante cerca de 40 anos, em escolas de Sintra, Lisboa, Cacém e, nos últimos anos de carreira, em São Bartolomeu de Messines, na Escola EB 2,3 São João de Deus. O percurso docente marcou várias gerações de alunos e reforçou a ligação ao Algarve interior.
Mesmo depois da reforma, manteve uma postura ativa e inquieta. Aos 76 anos, regressou à Faculdade de Belas-Artes de Lisboa para frequentar um mestrado em pintura e novas tecnologias. Na tese final, prestou homenagem ao Grupo Folclórico de Alte, escolhendo a dança marcadinha como tema central, num gesto simbólico de valorização da tradição.
A música e o folclore foram dimensões constantes do seu percurso. Multi-instrumentista e fadista, integrou os grupos Levante, Almanaque e Erva Doce, e participou no Grupo Folclórico de Alte, fundado pelo seu pai, dando continuidade a um legado familiar ligado à cultura popular. Tocava bandolim e cavaquinho e esteve envolvido em iniciativas de recolha e divulgação da música e da literatura popular algarvia.
Ao longo da vida, colaborou com vários projetos de valorização do património imaterial, entre os quais o projeto «A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria», do realizador Tiago Pereira, que registou o seu testemunho e contributo para a memória musical do país, projetando o seu trabalho para uma dimensão nacional.

Em 1994, fundou em Alte a Horta das Artes – Centro de Artes e Cultura. O espaço tornou-se uma referência local na promoção cultural, reunindo artes plásticas, música, teatro e cinema, e afirmando-se como ponto de encontro entre artistas, comunidade e visitantes. O ateliê de Daniel Vieira funcionava na casa onde nasceu, em Alte, refletindo a relação indissociável entre o criador e a terra.
Pelo contributo para a cultura e para a comunidade, foi distinguido com a Medalha Municipal de Mérito, grau Prata, atribuída pela Câmara Municipal de Loulé em 1998, entre outros reconhecimentos ao longo da carreira.
Poucos dias antes da morte, foi alvo de uma homenagem pública com o espetáculo «Enleio – Concerto para Daniel Vieira», protagonizado pelo grupo Moçoilas, no Cineteatro Louletano, no domingo, 21 de dezembro.
O concerto foi mantido apesar de Daniel Vieira se encontrar já internado. O momento assumiu um significado especial para a comunidade, como reconhecimento em vida do seu percurso e da influência duradoura que deixou.
Daniel Vieira esteve internado no Hospital de Faro após ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) na sexta-feira, 19 de dezembro. Apesar da assistência médica, acabou por não resistir.
Com a sua morte, Alte e o Algarve perdem uma figura central da sua vida cultural, cujo legado artístico, pedagógico e humano permanecerá na memória coletiva da região.
O barlavento deixa as mais sentidas condolências à família e aos muitos amigos que deixa.